Amigos, vergonhosa e deplorável a atitude do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) — esta não falha –, um dando a ideia e outro apoiando o absurdo projeto de lei encaminhado pelo governador Eduardo Campos (PSB) à Assembleia instituinto a meia entrada para jornalistas em eventos culturais.

Leiam, por favor, a nota publicada na excelente newsletter Jornalistas & Cia, e depois eu comentarei:

“Durante a entrega do Prêmio Cristina Tavares, na semana passada,o governador pernambucano Eduardo Campos anunciou que havia assinado um projeto admitindo a meia entrada de jornalistas em eventos culturais, como exposições, teatro, cinema, shows de música.

A ideia, que partiu do SinjoPE [Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco], terminou gerando comentários de todos os tipos no Twitter. Muita gente gostou da novidade, mas várias pessoas não a apoiaram, argumentando que isso fere a liberdade de imprensa ou mesmo que a classe não precisaria ser privilegiada.

A polêmica foi tanta que o sindicato resolveu fazer uma enquete em seu site para verificar a opinião dos profissionais. Até as 20h30 desta 3ª.feira (1º/2), 73% dos votos eram a favor da instituição do benefício.

Para usufruir do projeto de lei, que está sendo avaliado pela Assembleia, os jornalistas locais precisam ser sindicalizados e cumprir com as mensalidades do SinjoPE, que hoje tem 1.500 associados. A presidente do órgão, Ana Cláudia Eloi, explica que não se trata de privilégio: “A gente entende que o jornalista precisa ter acesso à informação”.

Consultada, a Fenaj argumentou que “leis como esta não trazem nada de ilícito, ao contrário, devem ser tidas como um benefício para uma categoria que precisa constantemente de informação.”

Como diria Boris Casoy, “isto é uma vergonha”. Me faz lembrar dois odiosos privilégios que existiam para jornalistas no Brasil nos anos 60, quando comecei minha carreira: não pagavam imposto de renda — algo absolutamente espantoso, quase inacreditável — e tinham direito a passagens aéreas com 50% de desconto.

Felizmente essas barbaridades acabaram ainda nos anos 60 pois, como aprendi logo cedo com o grande repórter Ewaldo Dantas Ferreira, qualquer privilégio concedido ao jornalista trabalha contra ele e contra a coletividade dos jornalistas.

NADA justifica essa boca-livre absurda, defendida com cinismo pela presidente do Sindicato de Pernambuco e pela Fenaj, neste caso por “não violar a lei”. Jornalista precisa de informação, mas correr atrás dela é parte de sua obrigação, e não uma oferenda de terceiros, sobretudo com o Estado metido no meio.

Quando a ida a um espetáculo é a trabalho, a empresa que ele integra deve pagar. Em todas as outras situações, o jornalista estará desfrutando de um lazer, e deve pagar por isso de seu próprio bolso.

O maior patrimônio de um jornalista é sua credibilidade. Aceitar favores, mesmo migalhas como essa meia entrada de Pernambuco, rói diante do consumidor de informação — que é para quem nós, jornalistas, devemos trabalhar — o que o jornalista tem, ou deve ter, de mais precioso.

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13 Comentários

Amanda em 29 de janeiro de 2013

Quanta imbecilidade. Meia entrada para professores e jornalistas não pode ser vista nunca como um privilégio. Pegue as pesquisas do acesso a cultura e informação no Brasil, e vejas as porcentagens, essas sim uma vergonha! Como um jornalista poderá ter fácil acesso a informação, como escrever críticas culturais sem o benefício da meia-entrada, ou a empresa paga ou o jornalista, que com os salários oferecido por esse país não desenvolvido,é inviável. É vai ficar difícil levar informação cultural à massa...Pelo, menos enquanto essa mentalidade de alguns não mudar No caso dos jornalistas, obviamente, é a empresa que tem que pagar. Quanto a qualificar minha opinião de "imbecilidade", fica por conta da educação que você recebeu em casa.

sellba em 03 de fevereiro de 2011

Olha o Brasil do atraso. Tem gente que acha que está próximo o dia em que faremos parte do primeiro mundo. Não sei como, com espertalhões por todo lado, e o país parindo multidões de idiotas e indivíduos que estão preocupados somente com sua situação pessoal. Para esse, o país, que se lasque!

carlos nascimento em 03 de fevereiro de 2011

Ricardo, P A R A B É N S !!!! Vc me enche de orgulho, é RARO um jornalista hoje no Brasil criticar à CLASSE, o CORPORATIVISMO do segmento é repugnante e imoral. Não vou delongar, com rarissimas exceções, não se consegue verificar alguém meter o dedo em riste na CARA dessa gentalha que se acha jornalista, existem vários "jabás", "vendidos", "comprados", "chapas brancas", que denigrem a imagem do bom jornalista, assim como na classe politica é hora de também começarmos a separar o joio do trigo. P A R A B É N S, vc acaba de ser "laureado", irei cobrar daqui prá frente essa sua majestosa contribuição democrática, poucos, pouquissimos, sou capaz de contar nos dedos da mão, quem tem essa sua CORAGEM EXEMPLAR. Carlos Nascimento. Obrigado, caro Carlos. Faço isso sistematicamente quando detecto comportamentos na categoria que julgo inadequados. Escrevi muitos artigos no Observatório da Imprensa, vários sobre ética dos jornalistas. Certa vez, participei de um debate sobre ética na imprensa na Câmara Municipal de São Paulo e, ao criticar a nós próprios, jornalistas, quase fui linchado por corporativistas presentes. Mas nós, jornalistas, temos que ser corretos, a credibilidade é nosso maior capital. Abraçõ e obrigado

cacalo em 03 de fevereiro de 2011

vergonhoso, parece que não foram só os parlamentares que perderam a vergonha na cara.que saudade de quando quem nos representava era gente da estirpe de audálio dantas...

Alberto Porém Júnior em 03 de fevereiro de 2011

Bom então ai vai e tergiversar sobre isto com importação de papel pra mim é amadorismo. Vamos então nos reportar a Carta Maior do nosso país em seu artigo 150, inciso VI, parágrafo d: Seção II DAS LIMITAÇÕES DO PODER DE TRIBUTAR Artigo 150:Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: ... Inciso VI- instituir impostos sobre: ... d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão. A muito mais e sabemos que esta imunidade está sendo debatida para ser ampliada envolvendo as novas mídias como livro eletrônicos. Ah, bom. Mas esse dispositivo, existente em outras democracias, é uma garantia da liberdade de opinião e de imprensa, e importante para a cultura do país. Sou totalmente a favor. As empresas jornalísticas grandes e sérias pagam bilhões em impostos de todo tipo, inclusive imposto de renda.

Marco em 03 de fevereiro de 2011

Caro R. Setti: Esses jornalistas ou jornais q são preferidos ou feitos para o povo com abuso de sucesso no espetáculo penoso no sensacionalismo. Dão a entender q quererem pavonear-se como um galo diante do seu espelho. Um jornalista instruido como vc, deixa de bom grado as coisas seguirem seu curso. Como é o caso do Blog. Bom jornalista não precisa de sindicato e nem d concurso público! Abs.

Alberto Porém Júnior em 03 de fevereiro de 2011

Mais do que esta "esmola" deveríamos questionar algo profundamente arcaico e que pouco é revelado ao grande público, a imunidade tributária das empresas jornalísticas. Na verdade, para afirmar a sua independência e consolidar-se como negócio, a imprensa deveria renunciar a essa mordomia do Brasil arcaico. Pagar imposto é que é independência."A imprensa deveria pagar impostos para ser livre, mas, no bojo da defesa da isenção, ela esgrime um argumento oposto: a imunidade tributária é o aval da liberdade. Depreende-se que a imunidade tributária previne súbitas retaliações contra a imprensa pelo aumento asfixiante de impostos. Isso talvez signifique que todo o resto da sociedade que paga impostos seja refém do humor tributário do governo: se não tem a mamata da salvaguarda antitributária, sua liberdade está permanentemente ameaçada. Jornais não pagam imposto, mas a cesta básica, consumida pelos reféns tributários, paga 25%. Antes de ser uma salvaguarda da liberdade, a imunidade é uma esperteza fiscal. Se um regime acumular forças para perseguir a imprensa via impostos, seguramente terá meios de destroçá-la pelo método tradicional da coerção e da censura – e foi isso que fez a ditadura militar: os jornais regalavam-se com a imunidade tributária (como aval da liberdade...) e o regime regalava-se com a censura (como aval da atrocidade...). Se o regime político agora é de ampla liberdade, não pagar imposto significa manter um regalia arcaica e oportunista que sequer torna os jornais e revistas mais baratos – a não ser do ponto de vista moral." A que imunidade você se refere? Importação de papel de imprensa?

gaúcha indignada em 03 de fevereiro de 2011

Todos devem ser jornalistas "chapa branca".

Celinha/Marília-SP em 03 de fevereiro de 2011

Em tempo: por essas e outras é que, pelo menos aqui no interior, costumam dizer que "jornalista se compra com um almoço". Suprema vergonha!

caipira mermo em 03 de fevereiro de 2011

Ricardo Fosse eu um jornalista,tomaria a oferta como um insulto. O pior, amigo Tito, é que não foi oferta do governador -- foi PEDIDO do Sindicato...

Celinha/Marília-SP em 03 de fevereiro de 2011

Caro Setti, de tempos em tempos, algum "cabeça de bagre" aparece com alguma ideia criativa para privilegiar os coleguinhas. Lembro-me dos tempos de repórter em início de carreira, nos anos 80, quando coleguinhas se estapeavam atrás de credenciais para cobrir os bailes de carnaval nos clubes de Marília/SP. Um repórter e um fotógrafo eram suficientes. Mas, um bando acabava conseguindo ingressos com direito à mesa de pista, tickets de bebida etc. Naquele tempo,a situação já constrangia quem tinha um pouco de brio. Hoje vejo que a coisa só faz piorar. E, lamentável ao extremo, é assistir entidades de "crasse" apoiando esse absurdo. Triste. Quanto mais se sobe (ou subia) na escala hierárquica da profissão, cara Celinha, mais graves ficam (ou ficavam) as investidas. Eu mesmo no passado já recuseu até um automóvel! Mas pelo menos as assessorias dos grupos empresariais e os próprios empresários e executivos deixaram há um bom tempo de oferecer "jabás" a jornalistas -- presentes caros, viagens etc. Sabem perfeitamente que jornalista sério só está interessado em uma coisa das fontes: informação. Esse tipo de coisa está desaparecendo na grande imprensa. Desde o tempo em que comecei para cá, a mudança foi enorme, e para melhor. Há duas ou três décadas, chegavam caixas de bebidas, cestas de Natal e todo tipo de presentes às redações, e não eram muitos os jornalistas que devolviam. Abraços

Natal Santana em 03 de fevereiro de 2011

Então ficamos combinados: toda vez que algum profissional for exercer suas atividades, receberá do governo algum tipo de compensação monetária! Essa Ana Cláudia Elói deve ser parente do Sarney pra ser tão cara de pau assim! Quer dizer que, em nome da busca por informações, o jornalista deve ter privilégios financeiros? Mas, ele já é pago pelo órgão para o qual trabalha justamente para ter acesso às informações de interesse do público, não é isso?! Cada vez mais o Brasil vai afundando nesse poço de concluio entre governo e "representantes" de classe, uma vergonha quando lembramos que anos atrás, se fazia sindicalismo apesar do governo. Hoje, só se faz COM o governo! Breve, ex-sindicalistas vão exigir aposentadorias, posto que virou profissão!

Jota em 03 de fevereiro de 2011

É um absurdo!!! A desavergonhice crônica explícita tomou conta do país. Vergonha na cara passou a ser coisa rara. O cinismo beira o inacreditável. Mas também, com os exemplos que vemos lá em cima... parece que a coisa piora mais a cada dia. Na minha opinião, o artifício da meia-entrada é um auto-engano. Se alguém paga só metade, o estabelecimento vai cobrar a outra metade de quem? De quem paga inteira, ora bolas! Ou alguém acha que existe almoço grátis?? Se for assim, logo vão querer meia entrada para professores, policiais, bombeiros, servidores públicos, militares, políticos, sindicalistas, metalúrgicos, beneficiários do bolsa-família, membros do MST, torcedores do Corinthians e etc... e por aí chegará o dia em que a meia-entrada se transformará em referencia, pois ninguém mais paga inteira. Enquanto isso alguém duvida que o preço vá subindo por causa desses "benefícios" ??? É isso mesmo, caro Jota. Além do que, insisto, qualquer privilégio para jornalista só lhe retira a credibilidade, seu maior patrimônio. Abração

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