Image
O imenso déficit orçamentário dos EUA é em grande parte resultado de um declínio econômico que se seguiu à crise financeira de 2008

Amigos, arrasador — e importantíssimo — o artigo do economista Paul Krugman, Prêmio Nobel em Economia, professor da Universidade Princeton e articulista do jornal The New York Times sobre a polêmica decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s de rebaixar a nota dos títulos da dívida dos Estados Unidos, considerados até então os papéis pais seguros que existem no mercado financeiro mundial. O artigo está sendo publicado hoje no Estadão.

Para compreender todo o furor envolvendo a decisão da Standard & Poor’s, a agência de classificação de crédito, de rebaixar a nota dos títulos da dívida americana, é preciso ter em mente duas ideias aparentemente (mas não de fato) contraditórias. A primeira é que os Estados Unidos não são mais o país estável e confiável de antes. A segunda é que a própria S&P goza de credibilidade ainda menor; é o último lugar de onde alguém deveria esperar avaliações sobre as perspectivas do país.

Comecemos com a falta de credibilidade da S&P. Se há uma expressão que descreve a decisão da agência de classificação de crédito de rebaixar a nota dos EUA, esta é a cara de pau – definida pelo exemplo do jovem que mata os pais e então implora por clemência alegando ser um órfão.

Afinal, o imenso déficit orçamentário dos EUA é em grande parte resultado de um declínio econômico que se seguiu à crise financeira de 2008. E a S&P, juntamente com as demais agências de classificação de crédito, desempenhou papel importantíssimo na precipitação dessa crise, concedendo notas AAA a ativos lastreados em hipotecas que desde então se transformaram em lixo tóxico.

Mas as avaliações incompetentes não pararam por aí. Num episódio agora famoso, a S&P concedeu ao Lehman Brothers, cujo colapso deu início a um pânico global, uma nota A até o mês da sua quebra. E qual foi a reação da agência depois que esta empresa foi à falência? Ora, a S&P publicou um relatório negando ter feito qualquer coisa de errado.

E são estas as pessoas que agora dão sua eminente opinião sobre a credibilidade dos Estados Unidos?

Espere só, a coisa não para por aí. Antes de rebaixar a nota da dívida americana, a S&P enviou ao Tesouro dos EUA um rascunho do seu comunicado à imprensa. Os funcionários americanos logo repararam num erro de US$ 2 trilhões nos cálculos, algo que qualquer especialista em orçamento teria calculado corretamente. Depois de certo debate, a S&P reconheceu o erro e rebaixou a nota mesmo assim.

Num ponto mais amplo, as agências de classificação de crédito nunca nos deram motivo para levar a sério suas opiniões sobre a solvência nacional. É verdade que, em geral, os países que declararam moratória tiveram suas notas rebaixadas antes da consumação desse fato.

Mas, nesses casos, as agências de classificação apenas seguiram os mercados, que já tinham se voltado contra esses devedores problemáticos. E, nos raros casos em que as agências rebaixaram a nota de países que ainda tinham a confiança dos investidores – como os EUA hoje -, elas se mostraram equivocadas.

Devemos lembrar do caso do Japão, que teve a nota de sua dívida rebaixada pela S&P em 2002. Ora, nove anos mais tarde, o Japão ainda consegue obter empréstimos com facilidade e a juros baixos. Na verdade, na sexta-feira, os juros sobre as obrigações japonesas com prazo de 10 anos eram de apenas 1%.

Assim, não há motivo para levar a sério o rebaixamento da nota da dívida americana na sexta feira. Estamos falando das últimas pessoas de quem deveríamos aceitar conselhos.

Dito isto, os EUA têm diante de si grandes problemas.

Esses problemas estão pouco relacionados com a aritmética orçamentária de curto e mesmo médio prazos. O governo americano não tem problemas para solicitar empréstimos capazes de cobrir seu déficit. É verdade que o endividamento está se acumulando, e sobre essa dívida os americanos terão de pagar juros. Mas, se fizermos as contas, em vez de enunciar números assustadores, perceberemos que nem mesmo imensos déficits nos próximos anos terão impacto na sustentabilidade fiscal dos EUA.

Ora, não é a matemática orçamentária que está fazendo com que os EUA pareçam pouco confiáveis, e sim a política. E por favor, não comecemos com as declarações habituais que responsabilizam ambos os lados. Nossos problemas são causados por um único lado – mais especificamente, são provocados pela ascensão de uma direita extremista que prefere criar crises a ceder um único centímetro nas suas exigências.

É verdade que, mantidas as políticas atuais, uma população de idade cada vez mais avançada e o custo cada vez mais alto do sistema de saúde acabarão fazendo com que os gastos aumentem mais do que as receitas. Mas os EUA apresentam um gasto com a saúde muito maior do que o de outros países avançados, e sua carga tributária é considerada muito pequena comparada aos padrões internacionais. Se pudéssemos ao menos nos aproximar um pouco mais daquilo que é internacionalmente considerado normal para esses dois dados, nossos problemas orçamentários seriam solucionados.

E o que nos impede de fazer isso? O problema é que temos neste país um poderoso movimento político que preferiu correr o risco de uma catástrofe financeira em vez de concordar em aceitar um aumento nos impostos cobrados, por menor que fosse.

Mesmo em termos fiscais, o verdadeiro problema dos EUA não é se o país conseguirá cortar do déficit um trilhão aqui ou acolá. A questão é saber se os extremistas que agora bloqueiam todo tipo de medida política razoável podem ser derrotados.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 × 2 =

10 Comentários

jose em 11 de agosto de 2011

Como são arrogantes. Caso todos que tem reserva em dolar resolvessem resgatar, o papel moeda iria valer o preço de papel reciclado. O dolar não tem lastro, como, na verdade muitas outras moedas por ai.

marcus em 11 de agosto de 2011

Como ficara o dollar daqui para frente, com a crise aqui nos eua, pode almentar ou vai cair mais????

Ailton em 11 de agosto de 2011

Agencia Standard & Poor's existe desde o ano 1778, ela e outra meia dúzia, destruiram ou ajudaram a destruir a economia brasileira já combalida em diversas ocasiões no passado, Brasil recebe a primeira dose de Cicuta ainda em 1972. Os EUA sempre davam apoio as agências, ouviam muito essas suas classificações de riscos, na hora de dar o aval para investidores que arriscavam investir no Brasil, agora que experimentam um pouco do seu próprio veneno, vem dizer que agências não servem para nada, que ou são caluniadoras? Ora pois!..

Fernando em 10 de agosto de 2011

Prezado Ricardo, Concordo que nao se deve prestar muita atencao ao S&P, mas eles nao tem causado o problema; O problema dos EUA eh o absurdo endividamento, mas o Krugman (um apaixonado ideologo) acha que eh falta de gastos publicos o problema; ele acredita que a dose da droga (expansao monetaria) nao foi suficiente; Acredito que nao houve exatamente uma corrida aos titulos americanos pois a maioria (nao todos, especialmente os de curto prazo) dos compradores sao governos de outros paises inundados com os dolares emitidos pelo FED. Quem tem melhor classificacao que os EUA (Australia, Dinamarca, por exemplo), nao estah se endividando, portanto nao estah emitindo titulos que poderiam ser comprados. Sem muitas alternativas, paises como Brazil, Filipinas, Japao, etc (e o proprio BC americano com o quantitative easyning) acabam comprando titulos com taxas de juros proximas a zero. O Brasil eh o 5 maior credor individual dos EUA (http://www.treasury.gov/resource-center/data-chart-center/tic/Documents/mfh.txt). []s!

Caps em 10 de agosto de 2011

Discordo. Embora seja injusto colocar a culpa pelo imenso déficit americano nas costas de Obama, o atual presidente não tem um plano para consertar o estrago. Pior: parece acreditar que a solução para o endividamento é mais endividamento (sem contar a dinheirama que o FED já andou despejando mundo afora...) Ao menos os "reacionários" do Tea Party queriam passar uma emenda obrigando a prática de orçamentos equilibrados, algo que já foi feito até em países bananeiros... como o Brasil (LRF). Infelizmente, se alguém quiser saber o que acredita ou deixa de acreditar o Tea Party (na verdade, há várias tendências dentro do tal "Tea Party"), não pode contar com a imprensa brasileira. Por estas bandas, alguns jornalistas querem fazer parecer que o Tea Party não passa de uma filial da Ku Klux Klan que só está zangada porque elegeram um presidente negro! O primeiro Tea Party começou em 2007, ainda sob o governo Bush e foi promovido por simpatizantes do pré-candidato republicano Ron Paul, que foi um dos poucos que se opuseram à guerra do Iraque. http://www.youtube.com/watch?v=G7d_e9lrcZ8

SergioD em 09 de agosto de 2011

Ricardo, gostaria de lembrar aos amigos do BLOG que a crise financeira americana não teve seu início na gastança do governo americano, que aliás começou nos governos republicanos de Reagan e de Bush pai com o aumento significativo nos gastos militares que patrocinaram. Bill Clinton conseguiu equilibrar o orçamento com cortes de gastos, mas também foi muito ajudado pelo espetacular aumento da arrecadação proporcionado por um momento excepcional da economia americana na década de 1990. Após o 11 de setembro é que os gastos explodiram. Trilhões de dollares foram gastos nas duas guerras em que Bush filho se meteu. Bem, a crise financeira foi causada, e alimentada, por anos pela tremenda desregulamentação financeira iniciada no governo Reagan. Os Junk Bonds, os sub-primes e os ativos tóxicos, que passaram a inundar o mercado financeiro mundial, é que causaram a hecatombe de 2008. De modo a não fazer a economia quebrar, o governo americano, ainda com Bush filho no comando, acertadamente, injetou dinheiro, muito dinheiro, no mercado para evitar a quebra dos bancos e manter a economia andando. A economia só não andou porque os bancos e as empresas ao invés de continuar investindo, emprestando, entesouraram o dinheiro. Não adianta nada aumentar a liquidez se o capital não circula. O que Paul Krugman defende não é a manutenção eterna de um déficit público elevado. Ele acha que, assim como em 1937, quando a recessão se reinstalou nos EUA por conta da redução dos gastos do governo por pressão dos republicanos, que tinham aversão ao New Deal de Roosevelt, um corte no orçamento hoje pode aprofundar a recessão atual. Naquela época a recessão só acabou definitivamente com a Segunda Guerra Mundial, quer dizer, como consequência dos enormes gastos para custear a máquina de guerra americana e de seus aliados. Vamos querer o mesmo remédio para acabar com a recessão atual? Obama não é um gastador contumaz. Quer manter os gastos sociais, diminuir as despesas com as FFAA, e manter a economia em movimento, o que certamente não vai acontecer. Essa é uma prática keynesiana, mas devemos lembrar que suas idéias salvaram a economia de um buraco ainda maior na década de 1930. Um abraço

Franco em 09 de agosto de 2011

Ricardo, Me explica uma coisa que até agora não consegui entender. Como esses extremistas, que são minoria, conseguem barrar "todo tipo de medida política razoável". Abraço.

André em 09 de agosto de 2011

Caro Setti, Concordo plenamente que após a crise de 2008 não é possível dar crédito algum às opiniões das agências de rating. Mas convenhamos: fica um pouco difícil defender que um país que esteve a um passo do calote ontem mantenha a melhor classificação de risco possível. Dito isto, a agência afirma claramente que o rebaixamento se deu devido à insegurança quanto à eficácia das medidas fiscais tomadas pelo congresso e ao risco político para aprovação de novas medidas necessárias. Portanto, de acordo com o ponto de vista da S&P, a conclusão da negociação do congresso deveria ter pendido ainda mais para o lado republicano, defensor do corte de gastos. Logo, a meu ver, ao culpar a extrema direita, o Sr. Krugman me parece caminhar exatamente no sentido oposto do real motivo da crise: a gastança desenfreada do governo, que ele tanto gosta de defender. Um abraço, André Caro André, embora, obviamente, ache que os EUA precisem cortar gastos e começar uma cultura de os americanos viverem um pouco mais dentro de suas possibilidades, lembro a você que o país esteve à beira do calote não porque não tenha condições de colocar seus títulos, mas pelas dificuldades políticas que encontrou no Congresso para elevar seu limite do endividamento. Tanto é que ontem as bolsas de valores do mundo inteiro afundaram, e por quê? Porque, paradoxalmente, houve uma corrida para a compra de títulos do Tesouro americano, o mesmo governo americano cuja classificação de risco acaba de ser decretada pela Standard & Poor's. Abração

Carla Pola em 09 de agosto de 2011

Calma meu amigo Setti. Fica na torcida que talvez o Obama se reeleja...Né?? Para os EUA quebrarem mesmo, seria preciso muitos anos de obanismo por lá...hahahha Muita política kenyana dos democratas... Beijocas Carla

Marco em 09 de agosto de 2011

Amigo Setti: Te confesso q por problemas particulares não estou acompanhando muito esse assunto, então me perdoa se eu estiver dando alguma barrigada. Mas pelo texto fica claro q há um desentendimento político por divisão de benefícios de poder. Isso históricamente pode provocar decadências e até destruição de cultura.Q ás vezes podem ser preservadas ou até desenvolvidas. Abs. Não, você não deu nenhuma barrigada, não, caro Marco. E espero que resolva seus problemas o mais rápido possível. Um grande abraço

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI