Artigo de 2004: Lessa, Sayad e o BNDES

Artigo de 2004: Lessa, Sayad e o BNDES O então presidente do BNDES, Carlos Lessa, em 2004 (Foto: Elza Fiúza - EBC)

E também: reorganização tira poder de Mantega, a luz prória de Rebelo, Jacques Wagner reluta, nuances da família Genro, os e-mails de “Zé” Dirceu, os Sarney em todas, o PT e Quércia, Alckmin e o PFL – e os discursos “castristas” de Lula

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A eventual substituição do economista Carlos Lessa na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) por seu colega João Sayad, defendida por certas áreas do governo, é nelas vista como vantajosa.

Como Lessa, Sayad é filiado ao PMDB, mas é um híbrido: tem posições coincidentes com as do PT desde o começo da era FHC, e já em 2000 aceitou a tarefa de, como secretário da Fazenda da recém-eleita prefeita Marta Suplicy (PT), sanear as então catastróficas finanças de São Paulo.

Como Lessa, também é professor, mas tem experiência administrativa muito mais vasta: além de secretário das Finanças da capital, Sayad já foi secretário estadual do Planejamento do governo Franco Montoro (1983-1987) por dois anos, ministro do Planejamento do presidente José Sarney (1985-1989) por outros dois anos e banqueiro na iniciativa privada durante dez anos. Do ponto de vista político, é tido como mais discreto e hábil do que Lessa.

Dirceu, Mantega e poder

A medida provisória que reorganizou o governo e, entre muitas outras coisas, transferiu para a Casa Civil a Secretaria de Gestão do Ministério do Planejamento é conseqüência lógica da atribuição, ao ministro José Dirceu, da função de coordenar a atuação dos demais Ministérios e cobrar resultados.

Mas esvaziou tremendamente as funções, e o poder, do ministro do Planejamento, Guido Mantega.

Luz própria

Dirceu nunca confirmou (nem desmentiu), mas sua suposta preferência por ter o deputado Paulo Rocha (PT-PA) como ministro da Coordenação Política e Relações Federativas – pasta saída de uma costela da Casa Civil – em vez do escolhido Aldo Rebelo (PC do B-SP) tem razões óbvias: ao contrário do obscuro Rocha, Rebelo, ex-líder do governo na Câmara, possui forte luz própria.

Conselho ou Camaçari?

A relutância, difícil de dobrar, do ministro Jaques Wagner em trocar o Ministério do Trabalho pela secretaria executiva do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), o organismo criado pelo presidente Lula para servir como um foro de discussões dos principais problemas do país e mastigar as diversas reformas antes de encaminhá-las ao Congresso, tem uma explicação.

Alguém preferir, a continuar ministro, ser candidato a prefeito de Camaçari (BA), por mais importância que tenham o pólo petroquímico e a atividade industrial na cidade, é sintoma mais do que significativo do encolhimento do papel CDES.

Criou e esvaziou

Quem tem esvaziado o CDES – uma boa iniciativa de Lula – é seu próprio idealizador. O presidente desconsiderou a maioria das recomendações do organismo sobre política econômica, por exemplo, não o consulta sobre uma série de temas relevantes e nem se reúne com seus integrantes – sequer como gesto de cortesia.

Não é de estranhar que vários empresários graúdos que o integram tenham seguidamente faltado a reuniões, mandando suplentes em seu lugar. Lula prometeu a Wagner que ele integrará o “núcleo duro” do governo e talvez, com isso, o CDES recupere importância.

Genros e psicanálise

As relações entre a deputada Luciana Genro (sem partido-RS) e seu pai, o novo ministro da Educação, Tarso Genro, constituem excelente material para a psicanálise.

Luciana se opôs sistematicamente a políticas do pai quando ambos militavam, dentro do PT, na política regional gaúcha, e, instalado o governo Lula, ficou do lado oposto às posturas moderadas de Tarso até ser expulsa do partido. Agora, promete lutar contra a reforma universitária que o novo ministro pretende implementar, por ela considerada uma “privatização branca”.

Papai, não

A deputada não se refere ao ministro como “meu pai”, mas como “o Tarso”.

Mera cortesia?

Deve ser por mera cortesia que a nova secretária especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire, ex-reitora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), promete dar continuidade aos trabalhos da ex-secretária Emília Fernandes.

Emília, guindada ao posto como recompensa por sua derrota na tentativa de se reeleger senadora pelo PT gaúcho, não fez, na Secretaria, decolar nem sequer seu mais vistoso projeto, um programa de combate à violência contra a mulher. E, apesar de ter a seu dispor uma verba raquítica para 2003, não conseguiu gastar 20% dela.

Os e-mails de “Zé”

Apesar do acúmulo de responsabilidades e poder, ainda mais depos que virou uma espécie de primeiro-ministro do governo Lula, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, encontra aqui e ali tempo para trocar e-mails com amigos.

Para tanto, utiliza-se de e-mails de secretárias, e assina, invariavelmente, “Zé”.

Sarney em todas

Agora que seu filho Fernando é vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o senador José Sarney (PMDB-AP) tem seus tentáculos familiares estendidos sobre quatro instituições: a CBF, o Senado – em que, além dele próprio, exerce mandato a filha Roseana (PFL-MA) –, a Câmara, onde atua o filho Zequinha (PV-MA), e a Academia Brasileira de Letras (ABL), na qual há 23 anos é titular da cadeira n° 38.

Marta, Quércia e cara feia

Logo, logo, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, vai fazer cara feia. Tem gente graúda no comando do PT lutando para que o PMDB indique o vice da chapa na qual a prefeita vai concorrer à reeleição, em outubro.

É uma manobra para favorecer a candidatura do presidente do PT, José Genoino, a governador do Estado, em 2006. Explica-se: se reeleita, apesar de nome forte à sucessão do governador Geraldo Alckmin (PSDB), a prefeita terá imensas dificuldades de abandonar o mandato pouco antes da metade, pois deixaria a prefeitura da maior cidade do país durante mais de dois anos sob controle do ex-governador Orestes Quércia, cacique do PMDB paulista.

Bola de ferro

É por isso que o jornalista Elio Gaspari diz que “o PT federal” está armando a colocação de uma “bola de ferro no tornozelo” da prefeita.

Neolulista

Data da eleição de 2002 o neolulismo de carteirinha de Quércia, depois de ter sido atacado pelo PT durante uma década e meia, desde que assumiu o governo de São Paulo, em 1987, como corrupto.

Contas públicas e transparência

Além de antipático e arrogante para quem vive falando em “cidadania”, é um ponta-pé na proclamada “transparência” que o PT sempre defendeu o veto da prefeita Marta Suplicy ao projeto aprovado pela Câmara Municipal – e apresentado, vejam só, por um vereador do PT – que obriga a Prefeitura de São Paulo a disponibilizar suas contas na internet.

Em Brasília, a mesma coisa

O veto parece seguir uma linha: também o governo federal, tal como ocorria em administrações anteriores, se recusa a ampliar o acesso aos dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi), hoje só possível – por meio de cadastramento prévio e senhas – a quem ultrapassa um cipoal de exigências feitas em nome da segurança do sistema.

Números relevantes

A idade média da frota brasileira de caminhões é de 18 anos.

Números irrelevantes

A governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho (PMDB), ganha 45 reais mais do que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).

Clonagem

Não é por nada, não, mas se você está acompanhando alguma coisa do noticiário sobre as eleições primárias do Partido Democrata nos Estados Unidos por algum canal de TV paga há de ter notado: o senador Ted Kennedy está cada vez mais parecido com Jô Soares.

Inclusive – ou sobretudo – na silhueta.

Modéstia à parte

O ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira teve um ataque de modéstia na “Carta semestral” que enviou a um mailing restrito de formadores de opinião entre o final do ano e o começo de 2004.

Lembrando o recente lançamento da quinta edição de sua obra “Desenvolvimento e Crise no Brasil”, Bresser escreveu: “Estou muito satisfeito com o esforço de atualizar este livro. Creio que é a mais completa análise disponível hoje sobre o desenvolvimento social, econômico, e político do Brasil no século XX”.

Perguntar não ofende

Só?

Não está mais

A leitora Vera Siqueira escreve para contar que não está mais no Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal, o mural “Sonho, Realidade e Esperança”, de Rubens Zevallos, a respeito do qual a coluna anterior, na nota “Números irrelevantes” (se quiser conferir clique, à direita, em “Visto para cá, visto para lá”), informava ter sido pintado, em óleo de tinta acrílica, em 42 módulos de madeira.

O mural foi retirado do Buriti para uma reforma do edifício, em 2000, e não voltou à parede que enfeitava.

Alckmin, o PFL e a Prefeitura

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) anda desgostoso com a candidatura do deputado José Aristodemo Pinotti (PFL-SP) a prefeito de São Paulo, mas, pelo menos até agora, não a pôs na conta de seu vice-governador, Cláudio Lembo, e do deputado Gilberto Kassab, caciques do partido que, no Estado, é aliado dos tucanos.

Um arguto observador da política paulista informa: o governador sabe que a candidatura Pinotti é invenção federal do senador Jorge Bornhausen (SC), presidente nacional do PFL, que a dupla paulista engoliu a contragosto.

Marchariam com Serra

Há seis meses, Lembo e Kassab foram ao atual presidente do PSDB,  o ex-senador, ex-ministro e ex-candidato à Presidência José Serra, para dizer que, se ele fosse o candidato do PSDB, já podia contar com o pefelê.

Serra negou a candidatura. Mas tem gente boa apostando que, em três meses, vai acabar topando. Aí o PFL vai rifar o deputado Pinotti.

Coisa de Fidel Castro

Com todo o respeito ao presidente Lula, mas essa história de fazer discurso até em encontro de pagode, como aconteceu na recente festa na Granja do Torto com a presença do cantor Zeca Pagodinho, parece coisa de Fidel Castro.

Um prende, outro solta

Durou pouco a alegria dos que comemoram a cadeia dura que o juiz Lafredo Lisboa, da 3ª Vara da Justiça Federal do Rio, impôs aos envolvidos no chamado escândalo do propinotudo – roubalheira e remessa ilegal de divisas de dinheiro público para o exterior.

A liminar que o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Nilson Naves, concedeu para libertar provisoriamente quatro dos condenados é sinal de que outros dos envolvidos logo deixarão de ver o sol nascer quadrado. Por mais fundamentadas que possam ser as razões do ministro, é mais um gesto que reforça a crença popular de que, quando, por justa razão, a polícia prende alguém do andar de cima, a Justiça sempre acaba soltando.

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