As pessoas normais, horrorizadas com a tenebrosa sentença de morte por apedrejamento imposta pelo regime doidivanas do Irã contra Sakineh Mohammadi Ashtiani, a viúva mãe de dois filhos acusada de adultério, encontrarão facilmente razões para reação semelhante aqui mesmo ao lado do Brasil, bem pertinho, na vizinha Bolívia.

É cada vez maior o número de linchamentos ocorridos em diferentes localidades bolivianas como danos colaterais das “justiças indígenas”, idealizadas pelo regime de Evo Morales em nome de “tradições milenares”, que funcionam paralelamente à Justiça estatal, e – valha-nos Deus – foram incorporadas à Constituição do país, feita à imagem e semelhança do presidente ex-plantador de coca.

Muitos linchamentos se dão, justamente, por apedrejamento.

Essa delirante forma de “justiça”, a respeito da qual se ignora praticamente tudo fora da Bolívia, inclui vários tipos de penalidades, conforme o “delito” cometido. Uma delas, mais branda, é a admoestação pública, semelhante às humilhações impostas aos “contra-revolucionários” pelos “guardas vermelhos” durante a “Grande Revolução Cultural Proletária”, onda de terror e treva que assolou a China comunista entre 1966 e 1976.

Em algumas comunidades indígenas bolivianas, em nome das “forças da natureza”, humilha-se à força a pessoa “culpada” por algo considerado falta ou delito, que é coberta de cartazes ofensivos, vestida com trajes ridículos e obrigada a percorrer a aldeia em cima de um burro. Existem ainda os trabalhos comunitários forçados. E também o “desterro”, que consiste em despachar alguém por um certo tempo de sua comunidade de origem. Finalmente, o elenco prevê, para certos casos, o chicoteamento do réu.

O inacreditável é que tudo isso esteja fundado na Constituição e previsto em lei aprovada pelo Congresso controlado por Morales, com o pomposo título de “Ley Del Organo Judicial”. Morales e seus seguidores consideram os princípios jurídicos dos países civilizados como “ocidentais e racistas”, ao passo que a “justiça comunitária” seria gratuita, rápida e eficaz.

O problema é administrar a genial idéia. Na Bolívia há 36 diferentes comunidades indígenas, representando perto de 60% de seus quase 10 milhões de habitantes. Desde o ano passado, cada um desses 36 “povos originários” adquiriu o direito a ministrar justiça aos membros da respectiva comunidade segundo seu próprio “protocolo milenar”.

Como, porém, a idéia das “justiças indígenas” vinha sendo discutida muito antes da aprovação da nova Constituição de 2009, começaram a pipocar já em 2004 casos de justiçamento com as próprias mãos, e uma das formas adotadas pelas comunidades têm sido os linchamentos. Em junho passado, a ONU manifestou preocupação pelo “progressivo aumento” do número de linchamentos conhecidos – desde o ano passado, 30 casos e 77 tentativas. Não se sabe o número dos que jamais chegam ao conhecimento de qualquer autoridade ou ONG de direitos humanos.

O mais conhecido foi o massacre, em junho passado, de quatro policiais do departamento de Oruro, suspeitos de homicídios e extorsões. A polícia descobriu seus corpos enterrados de boca para baixo, para, conforme a tradição da comunidade aymará, a alma dos mortos não perseguir os assassinos. Alguns linchamentos chegaram a ser documentados pela mídia. Em novembro de 2008, por exemplo, onze moradores do vilarejo de Achacachi, na região leste do país, acusados de roubo, foram espancados e queimados em um estádio de futebol. Duas pessoas morreram e nove ficaram gravemente feridas. As imagens, exibidas pela rede de televisão espanhola Telecinco, são chocantes.

[HTML1]
Linchamentos, infelizmente, existem em muitos países, inclusive no Brasil, como notou em recente artigo o professor José de Souza Martins, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). A diferença é que aqui, apesar da bagunça nacional, o linchamento constitui crime gravíssimo, investigado pela polícia e, sempre que possível, punido pela Justiça.

Nem tudo está perdido na Bolívia, porém. Num próximo post, mostrarei que há resistências importantes aos abusos praticados em nome das “justiças indígenas”.

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × 1 =

18 Comentários

joão carlos em 15 de setembro de 2010

Culturas superiores, construtivas de verdadeira felicidade e, coerentes com a realidade de que o ser humano difere dos animais por ter o pensar e o raciocinar e,portanto a capacidade de evoluir não podem nunca se deixar sobrepujar por outras que ditam o contrário.

Marco em 14 de setembro de 2010

Pois é, Setti, o mesmo "modus Operandi " do Mst, juntos se tornam valentes "anônimos" escondidos na multidão,mas individualmente levam uma vida de covardia Pública. Os indígenas sempre foram e serão selvagens e anti-sociais. Isso não tem jeito ! E o Evo é o incitador !!!! Abs. Caro Marco, Obrigado por seu e-mail. Devo dizer, democraticamente, que não compartilho de sua opinião segundo a qual "os indígenas sempre foram e serão selvagens e anti-sociais", mas concordo integralmente em que o presidente Evo Morales é, sim, um incitador das insatisfações, muitas delas justíssimas, das populações indígenas da Bolívia. Um abraço cordial do Ricardo Setti

Renato em 14 de setembro de 2010

Olá Ricardo Mas no próprio vídeo da Telecinco, se eu entedi direito, diz que 'este é seu castigo, segundo o código indígena, que não compartilha o governo Evo Morales'. Um abraço e boa sorte! Caro Renato, Obrigado por sua leitura, seu e-mail e os votos de boa sorte. As tais "justiças indígenas" estão causando, como mencionei no post, grande confusão na Bolívia. O governo compartilha, sim, dos "códigos indígenas", mas tem condenado os linchamentos. Essa forma bárbara de punição tem sido levada a efeito por grupos em diferentes pontos da Bolívia, mas não é prevista pelas "justiças indígenas". Elas incluem, porém, "penas" humilhantes e, para certos casos, a barbaridade que é o chicoteamento do suposto culpado.

mariaa em 14 de setembro de 2010

Sr. Ricardo, seja bem vindo O sr. é mais um para defender este pobre Brasil que pelo jeito vai tomar o caminho de cuba, venezuela, bolivia e irã. tenho que achar um lugar para mudar depois de 3/10. Abraços. Cara Maria, Obrigado por seu email. Não fique tão pessimista. O Brasil é muito dinâmico. A ditadura parecia interminável, e acabou. Tudo passa e se modifica. Depende fundamentalmente das pessoas, não é? Um abraço do Ricardo Setti

José (Europa) em 14 de setembro de 2010

Parabéns, Ricardo Setti! Parabéns, Veja.com! Temos mais uma inteligência na praça! Sou leitor assíduo (e fã de Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes): pelo visto, também serei seu! Caro José, Gostaria mesmo de ter sua atenta leitura. Obrigado por seu e-mail. Espero que você continue lendo este blog, quando possível, e visitando também as seções "Política & Cia" (o título já diz), Tema Livre” (música, futebol, cinema, viagens etc) e “Bytes de Memória” (bastidores de reportagens e assuntos que não pude publicar por uma ou outra razão ao longo da carreira). Um abraço do Ricardo Setti

Pedro Erik em 13 de setembro de 2010

Caro Ricardo, Muito obrigado pela resposta. tendo a discordar, não creio na relação bela entre índio e natureza, nem ressaltaria o aspecto de higiene dos índios, mas concordo que toda civilização, como qualquer pessoa, pode nos ensinar algo. Vou refletir sobre sua resposta. Grande abraço, Pedro Erik

Pedro Erik em 13 de setembro de 2010

Caro Ricardo, Concordo plenamente com o leitor Rô, você chegou e já nos apresenta uma manchete. Ressalto, que podia ser uma manchete internacional. Sou leitor assíduo do Augusto Nunes, a quem considero meu amigo, e ele está certo em ressaltar sua capacidade. Sobre a Bolivia, a leitura do texto me fez lembrar o livro "História da Arte" de Gombrich. No livro, Gombrich diz que existe sim artes melhores do que outras. Para mim, existe sim civilizações melhores do que outras. A civilização indígena boliviana ou brasileira é inferior àquela formada na Europa. Se os governantes latino-americanos não entendem isso, regrediremos para o neolítico. Abraço, Pedro Erik PS: Pelo o que vi, você gosta de temas internacionais como eu. Se puder, visite meu site: thyselfolord.blogspot.com Caro Pedro Erik, Obrigado por seu email. Acho que cada civilização tem sua contribuição à Humanidade. Nossos índios, tão massacrados e tão maltratados desde a colonização portuguesa, têm muito a nos ensinar sobre o trato com a natureza, por exemplo. A boa relação dos brasileiros com a higiene proporcionada pela água é outra boa herança dos nossos índios, contrastando com hábitos europeus que ainda hoje deixam a desejar. Mas a civilização européia implantou certos valores, a começar pelos direitos humanos, que se tornaram universais. E não me parece razoável pinçar, das civilizações indígenas latino-americanas, o que ela possa ter de pior, como as "justiças indígenas" da Bolívia. De fato, gosto de temas internacionais. Tratei disso durante longos anos em minha carreira, especialmente em VEJA, mas, antes da revista, no Jornal da Tarde e, depois dela, na extinta Visão. Na primeira oportunidade visitarei seu blog. Um abraço cordial do Ricardo Setti

Nelson Luiz Pedra em 13 de setembro de 2010

Caro Ricardo,já estamos contigo.Bom retorno! Caro Nelson, É um prazer ler um email de boas-vindas tão simpático. Um abraço do Ricardo Setti

Carlos Brickmann em 13 de setembro de 2010

Justiça é justiça. Quando há adjetivos para qualificá-la, saia de perto: Justiça indígena está para a Justiça assim como a Inteligência dos grupos terroristas está para a inteligência. Querido amigo Carlinhos, Obrigado pelo seu email, como sempre revelando o brilho de seu talento. Um abraço do Ricardo Setti

em 13 de setembro de 2010

Caríssimo, que maravilha: você volta pro jornalismo e já vai descobrindo uma baita pauta como essa! Espero que VEJA faça a reportagem. E espero te ler sempre e mais. Parabéns, beijos, Rô Querida amiga Rô, Obrigado por seu email, por seu entusiasmo e por tudo o mais. É um prazer tê-la como leitora. Beijos do Ricardo Setti

armenio em 13 de setembro de 2010

Senhor Setti, parabéns por nos trazer informações tão importantes. E pensar que o PT está querendo nos transformar em uma nova Bolívia!Armenio

@MyrianDauer em 13 de setembro de 2010

Boa tarde! Meus parabéns vão para Veja e Ed. Abril por pescar de novo um peixão como vc. Bem vindo ao convívio da comunidade de leitores e apreciadores da Veja! Muito sucesso! Pelo post vc começou com o pé direito. Essa barbaridades na Bolívia vêm sendo denunciadas aqui e ali, mas o brasileiro está anestesiado diante de tanta pouca vergonha por aqui mesmo… Cara Myrian, Obrigado pela gentileza de seu e-mail e pelos elogios. Espero estar à altura deles. E, de fato, as barbaridades, não apenas na Bolívia, mas em nosso país, anestesiam as pessoas. Nosso papel, como jornalistas, é tentar ligar o sinal de alerta nas pessoas que nos lêem. Um abraço do Ricardo Setti

YCF em 13 de setembro de 2010

A MESMA "JUSTIÇA SOCIAL" INVENTADA PELA PETRALHADA Caro leitor, Obrigado por sua leitura. Esperemos que no Brasil não se chegue a nada parecido com as "justiças indígenas" da Bolívia, não? Cordial abraço. Ricardo Setti

Mauro Pereira em 13 de setembro de 2010

Caro Ricardo. Apesar de não ter procuração para tanto, seja bem vindo. Além de sua competência inquestionável, amigo do Augusto é meu amigo. Quanto ao "justiciamento" praticado pela Llena de Franja, não me surpreendo, pois é idêntico ao praticado pelo nosso (des)governo. A única diferença, é que aqui a "justiciada" é a Constituição. Sucesso Você tem toda razão, Mauro. Nossa Constituição tem sido linchada constantemente. Obrigado pela leitura. Amigo do Augusto, também é meu amigo.

PILINCHO em 13 de setembro de 2010

Amigo Setti, bem-vindo às "falas". Já estás na relação dos meus favoritos. Trazes a público os atos "democráticos" do Evo Cocalero, mui amigo do Filho do Brasil. Junte-se no caldeirão os ingredientes do Chávez e do Evo, acolheresse tudo, acrescente-se uma pitada de Dilmá, e temos um caldo explosivo terrivelmente destruidor, jamais produzido na Ibero-América. Um abraço quebra-costela, daqui da pampa continentina. PILINCHO Um caldo bem explosivo, meu caro. Grande abraço

cacalo kfouri em 13 de setembro de 2010

caro, que bom que voltou! e volta trazendo um assunto que não tinha sido noticiado no brasil até agora. esses chefetes disfarçados de democratas são um perigo. Obrigado por seu e-mail, caro amigo Cacalo. Conto com sua leitura rigorosa de sempre, que será uma honra e um prazer para mim. Abração do Ricardo Setti

Marcia em 13 de setembro de 2010

Parabéns Ricardo Setti, sua volta ao dia a dia das notícias deve ser celebrada! Texto seguro e vigoroso. Idéias claras. Pontos de vista equilibrados. Seja muito benvindo! Marcia Cara Marcia, Obrigado por seus elogios e pelas boas vindas. Vou fazer meu melhor para não decepcionar leitores especiais como você. Um abraço SETTI

Zélia Reis Giannotti em 13 de setembro de 2010

Eu não sabia dessas barbaridades. Que horror! E o nosso presidente vive se dizendo amigo desse senhor Evo Morales. Justiça indígena por quê? Não serve a Justiça que todos os demais cidadãos dispõem? Ficamos falando mal do Irã e temos um "amigo do Brasil" onde se cometem barbaridades. Pois é, Zélia. O presidente Evo Morales, ao colocar em prática idéias como essa, está preparando o estopim de uma grande crise na Bolívia. Eu não excluiria uma guerra civil. Na parte mais adiantada do país, encabeçada pela cidade de Santa Cruz de la Sierra, fala-se abertamente em uma autonomia que equivale quase a uma independência do restante da Bolívia. Radicalismo dá nisso. As "justiças indígenas" realmente abriram caminho para que ocorressem, como têm ocorrido, barbaridades e violações dos direitos humanos no país.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI