2003 — “Cem Quilos de Ouro” (de Fernando Morais)

2003 — “Cem Quilos de Ouro” (de Fernando Morais)

ORELHA DO LIVRO Fernando Morais tem sangue, nervos, vísceras e alma de repórter.

Nas redações onde trabalhou, bastava vê-lo macambúzio, com cara de cachorro sem dono, para logo saber que estava momentaneamente sem alguma missão “na rua”.

Sua tarefa de momento podia ser fundamental, importante, nobilíssima – editar reportagens alheias, melhorar textos, cuidar de uma editoria inteira. Não importava. A realização mesmo estava em sair correndo, pegar o primeiro avião – ou o primeiro táxi – e ir atrás de alguma história.

O autor conquistou milhões de leitores com sua obra jornalística em livro, que inclui um impressionante trabalho de recuperação da história contemporânea do país em títulos como Olga, Chatô, o rei do Brasil e Corações sujos.

Mas muitos leitores não tiveram contato com outro Fernando Morais: o repórter versátil, atilado e competente que começou muito jovem e há quase quatro décadas – com longos intervalos determinados pela carreira política e o trabalho de escritor – espalhou incontáveis boas histórias por jornais e revistas.

Daí o interesse e a oportunidade deste livro. Se vai agradar a leitores fiéis e seduzir novos, será especialmente bem recebido por uma categoria especial de interessados: os estudantes de comunicação, que encontrarão preciosas lições de jornalismo tanto nas 12 matérias que o integram como nos making of que antecedem cada uma delas.

Em todas avulta o repórter. Que, com garra, percorre o Saara atrás de guerrilheiros de uma república fantasma. Com infinita paciência, espera durante intermináveis 73 dias num hotel pela primeira entrevista de Fidel Castro depois do golpe militar de 1964. Com olhar atento, nota obras de Lênin nas estantes do ex-presidente Fernando Collor. Com habilidade, leva Frei Betto a confessar que resistir ao desejo sexual equivale “à solidão do deserto”.

Vá em frente e deixe-se conduzir, leitor. Você está em ótimas mãos.

(Cem quilos de ouro e outras histórias de um repórter, Companhia das Letras, 2003, 328 páginas)