2003 — “Por que nós, brasileiros, dizemos não à guerra [do Iraque]” (vários autores)

2003 — “Por que nós, brasileiros, dizemos não à guerra [do Iraque]” (vários autores)

Santo Deus, o que estou eu fazendo num livro ao lado, entre outros jornalistas e escritores, de criaturas como Emir Sader e Frei Betto, de quem não poderia discordar mais — em quase tudo?

É que a causa era justa: mostrar, cada um sob seu ponto de vista, por que era um absurdo a guerra que o então presidente George W. Bush estava na iminência de decretar contra o Iraque de Saddam Hussein, sob o pretexto — que depois se viu inteiramente mentiroso — de que o ditador armazenava armas de destruição em massa.

O que se segue é o texto que escrevi para o livro:

O tirano Saddam Hussein é responsável por um dos regimes mais cruéis, sanguinários e corruptos do mundo, que desde o início, há quase três décadas, significou um pesadelo para os cidadãos do Iraque. Dos anos 80 para cá, essa ditadura sinistra passou a ser também,. e cada vez mais, uma ameaça a seus vizinhos, à segurança e à paz internacionais.

Esta é uma primeira e obrigatória constatação prévia a qualquer coisa que se diga ou escreva sobre o Iraque e sobre as motivações de uma guerra contra Saddam, sob pena de se cometer uma grave ofensa à verdade, à ética e à decência.

Pelos antecedentes do ditador, que recorreu a armas químicas proibidas em convenções internacionais na guerra contra o Irã (1980-1988) e para massacrar 100 mil de seus próprios concidadãos de etnia curda, é possível, é mesmo provável que ele não tenha cumprido as determinações sobre desarmamento impostas pelas Nações Unidas após sua derrota na Guerra do Golfo, em 1991. Mesmo assim, o ataque ao Iraque decidido pelo presidente norte-americano George W. Bush à revelia da ONU e contra grande parte da opinião pública e dos governos do mundo é uma insensatez, uma agressão ao direito internacional e uma ação cujas consequências, além de implicarem a morte de um número incalculável de inocentes, encerram um pacote enorme de graves riscos – inclusive, ou sobretudo, para os Estados Unidos.

Os riscos são numerosos, e não é fácil nem prudente hierarquizá-los por sua gravidade. Mas eles devem ser relacionados. Para nós, brasileiros, ela não poderia vir em pior momento – quando o país, cercado por vulnerabilidades externas em sua economia, está envolvido num combate à inflação que, até aqui, tem custado o indispensável crescimento econômico. A guerra impacta fortemente o mercado internacional do petróleo, semeia incertezas por todo lado e paralisa uma economia mundial já em baixa rotação.

No plano das relações internacionais, uma guerra sem a ONU – pior, contra a ONU – constitui um golpe duríssimo, talvez mortal, num feixe de normas de convivência que começou a ser erguido sobre os escombros terríveis da II Guerra Mundial e vem sendo pacientemente edificado há quase 60 anos pelo conjunto das nações do mundo.

A ONU tem defeitos? Claro, muitos. Limitações? Sem dúvida – inúmeras. Pode ser acusada como omissa, leniente ou até cúmplice de injustiças ou situações intoleráveis? A resposta é sim.

Mesmo assim, a ONU, seu Conselho de Segurança, sua Assembleia Geral e o grande número de organizações que gravitam em sua órbita, preocupando-se com uma enorme gama de problemas mundiais – da saúde ao trabalho, das crianças à fome, ao comércio ou à proliferação das armas químicas –, são o que de melhor o engenho humano conseguiu por em marcha para substituir a lei da selva que, através dos milênios, presidiu a convivência entre povos e nações.

Pode-se argumentar, para relativizar o cenário de riscos de enfraquecimento da ONU e do grau de ordem mundial por ela representado, lembrando decisões cruciais no campo das relações internacionais – até guerras decididas por conjuntos de países –tomadas à margem da organização, para o bem ou para o mal.

Como a guerra de Kosovo, em 1999, por exemplo, quando a OTAN, a aliança militar ocidental, martelando o regime criminoso de Slobodan Milosevic na então Iugoslávia, deteve – tardiamente, embora – o processo de “limpeza étnica” contra a maioria de descendência albanesa na província.

É verdade. Mas a decisão sobre Kosovo se deu diante das evidências de que a Rússia, por sua ancestrais ligações com a Sérvia – nação dominante da Iugoslávia – vetaria uma ação militar do Conselho de Segurança. O que se fez, então, foi deixar de recorrer à ONU e, com os Estados Unidos à frente, e amplo apoio europeu, ir à luta contra Milosevic.

No caso do recurso americano à força contra Saddam, porém, não se trata de passar ao largo da organização. Aqui, em meio a um processo de sanções contra o regime iraquiano que a ONU vem supervisionando desde o final da Guerra do Golfo, há doze anos, ocorre um frontal desrespeito, e consequente desmoralização, das decisões de seu órgão mais vital, o Conselho de Segurança.

Em nenhum momento nenhum dos membros permanentes do Conselho ignorou o perigo Saddam. O que mesmo a França, transformada pelos fatos numa espécie de símbolo de resistência à guerra, sempre argumentou esteve na direção do bom senso: mais tempo para os inspetores da ONU completarem seu trabalho de detecção de armas de destruição em massa, mais provas e evidências para justificar o drástico recurso às armas.

O que se tentou evitar foi a sofreguidão americana em ter a guerra como virtualmente primeira, e não última opção.

Além do grave esgarçamento do principal foro de discussões do mundo, a guerra de Bush contra Saddam significa um gigantesco obstáculo, mais um, no processo de paz no Oriente Médio – precisamente o oposto do que o presidente americano promete. O ataque ao Iraque retira dos Estados Unidos legitimidade como patrocinador do processo de paz entre Israel e os palestinos e expõe o Estado judeu a uma hostilidade ainda maior por parte do mundo árabe e, por extensão, do muçulmano.

Pior: por agora atropelar regimes árabes e muçulmanos fiéis aliados de Washington – a ponto de suprirem tropas e logística para a Guerra do Golfo –, Bush transmite uma imagem de desdém pelo universo onde fermentou o caldo de cultura gerador do hediondo ataque terrorista de 11 de setembro de 2001.

A guerra contra o Iraque, apresentada por Bush como uma etapa a mais na luta sagrada dos Estados Unidos contra o terrorismo, tende a adicionar mais combustível à fogueira do antiamericanismo, funcionando, assim, exatamente na direção contrária à imaginada pela Casa Branca.

A guerra ao Iraque, nas circunstâncias ditadas pelos fundamentalistas da direita cristã postados ao redor do presidente americano, traz também um grave abalo nas relações dos Estados Unidos com seus aliados europeus, majoritariamente favoráveis a um processo de negociação que jogasse mais para frente um ultimato à ditadura de Saddam.

De quebra, espalha trincas no próprio projeto de construção de uma Europa unida, tal o grau de divergências semeadas pela posição americana entre o eixo franco-alemão, de um lado, e o Reino Unido, de outro. E também complica o processo de aproximação com a Rússia empreendido por Washington desde o fim da União Soviética, em 1991.

Declarações fanfarronas, arrogantes e chauvinistas de membros do governo americano, depreciando países que são parte do legado do que a Humanidade produziu de melhor, como a França e a Alemanha, só fizeram calar mais fundo, e em dimensão além da política, o fosso entre um e outro lado do Atlântico.

O fel destilado pela Casa Branca se derramou perigosamente pela opinião pública dos Estados Unidos – no Congresso, na mídia, em sites na internet, em importantes correntes de opinião. A reação em vários setores da opinião pública dos países europeus, infelizmente, correu para a mesma direção.

Mas é preciso, é crucial ter discernimento para enxergar, de um lado, Bush e as políticas que ele defende e, de outro, a imensa herança positiva que os Estados Unidos representam para a civilização.

Uma coisa é o movimento contra a guerra de Bush e as críticas feitas a suas motivações – sejam elas as de caráter estratégico e geopolítico, como a de conferir estabilidade ao Golfo Pérsico, fonte de dois terços das reservas de petróleo do planeta, sejam as de desviar a atenção do eleitorado americano do fracasso no desmantelamento da rede terrorista Al Qaeda, com as ameaças aos direitos civis que o processo tem acarretado.

Outra coisa, bem outra, são os componentes perigosos e inaceitáveis contidos em muitas das manifestações supostamente anti-Bush.

Ao se voltar a fustigar o “imperialismo americano” em praças públicas mundo afora, em muitos casos joga-se no mesmo cesto os valores que informaram os Estados Unidos, e de lá se irradiaram para o mundo – do conceito que hoje conhecemos como República moderna à operacionalização da democracia.

O que está em questão, deve-se ter em mente, é a Casa Branca, são suas políticas, é um governo truculento e arrogante, mas efêmero, com data para terminar – não o país glorioso das liberdades civis, do jazz e do blues, da fabulosa indústria do entretenimento, das inigualáveis conquistas tecnológicas, a nação ainda hoje, e apesar de tudo, capaz de absorver sozinha mais imigrantes que todos os demais países somados.

A postura contra a ação no Iraque não pode se confundir com o medonho, mas indisfarçável, quase audível “bem feito” que, de várias partes do mundo, se seguiu à tragédia das torres gêmeas.

Quem hoje vocifera genericamente contra “os Estados Unidos”, e não contra um governo atrás da supremacia a qualquer preço, desprezando, no caminho, até aliados tradicionais, deveria se lembrar da nação generosa que salvou a Humanidade da barbárie nazista na II Guerra Mundial (a Rússia foi outro protagonista decisivo, mas não vem ao caso agora).

Roosevelt e Truman empenharam, em valores de hoje, inacreditáveis 2 trilhões de dólares na empreitada além-mar. Mais que isso: 16 milhões de soldados americanos foram mobilizados. Enfrentando a máquina bélica nazista nos campos de batalha da Europa ou lutando para libertar o Pacífico do imperialismo militarista japonês, perto de 700 mil voltaram para casa feridos e mutilados. Meio milhão tombaram.

Quem visita a costa da Normandia, no norte da França, ainda hoje encontra por todo lado as marcas da libertação, cuja grande arrancada materializou-se na maior e mais difícil operação militar da História – o Dia D, 6 de junho de 1944, quando quase inimagináveis 5.000 navios e 11.000 aviões operaram no desembarque de 200 mil homens, liderados por americanos e britânicos, através das ultrafortificadas linhas alemãs.

Locais como o grande cemitério de Coleville-sur-Mer que, com seu mar de cruzes de mármore brancas, salpicadas por estrelas de Davi, assinalam a última morada de milhares e milhares de homens, mortos na flor da idade, são testemunho eloquente do que os Estados Unidos fizeram pela Europa e pelo mundo.

É importante que isso, e muito mais, não seja esquecido em meio à frustração e ao rancor causados pela guerra decidida por George W. Bush.