No programa Palanque Eletrônico, da Rede Globo, que entrevistava durante uma hora os candidatos à Presidência da República em 1989, Lula, em resposta a uma pergunta minha, diz a uma bancada de jornalistas — ah, ironias da história — o seguinte:

— Duvido alguém detectar uma única denúncia de imoralidade, de corrupção, nas administrações do PT.

O programa foi ao ar, ao vivo, a 5 de outubro de 1989.

Comandados por Alexandre Garcia, os convidados para entrevistar Lula eram os jornalistas Lilian Witte Fibe e Carlos Monforte, da Globo, o sociólogo Herbert de Sousa, o Betinho, representando organizações não governamentais, o empresário Pedro Eberhardt e eu, na época diretor regional do Jornal do Brasil em São Paulo.

Em outro momento, perguntei a Lula se ele repetiria, como presidente, a atitude da prefeitura de Luiz Erundina em São Paulo, de ter cedido à pressão de grevistas e inchado em 13% as contas públicas com salários. O entrevistado errou meu nome (“meu querido Cláudio”) e respondeu com uma pergunta: “você conhece investimento mais extraordinário do que investir em salário?”.

Minha outra participação sublinhada neste vídeo traz questão a Lula sobre se seu partido juntaria forças ao PDT de Brizola, com quem à época vivia relação de amor e ódio. Ele me pediu desculpas pela troca de nome na pergunta anterior e emendou: “obrigatoriamente, não. Não é certo que haja esta aliança. É próprio da formação política dele, do caudilhismo, achar que ele é a figura mais importante, que o mundo gira em torno dele”.

Para Lula, porém, “estas questões pessoais entre nós não pesam nada, se for necessário fazer uma aliança estratégia para o segundo turno”. Disse, ainda, estar “convencido de que vou para o segundo turno”, e “obviamente vou trabalhar para que o Brizola apoie a Frente Brasil Popular no segundo turno”. O candidato também mencionou que pediria os apoios de Roberto Freire e Mário Covas, então considerados postulantes de esquerda à Presidência da República.

Entre as outras intervenções destacáveis de Lula ao longo da entrevista, uma das mais polêmicas foi o seguinte ataque à Polícia: “a Polícia nunca é solução; sempre é problema”. Também não passa batido sua reafirmação, com convicção exagerada: “nós somos favoráveis à suspensão da dívida externa”. E, para quem acompanharia, anos depois, o aparelhamento de estatais promovido por seu governo, chega a ser engraçado ver Lula afirmando que “para você moralizar uma empresa estatal, a diretoria tem que ser eleita, de acordo com a capacidade profissional, e para um mandato determinado”, entre outras coisas. Lula também deu voltas para explicar suas declarações de incentivo a invasões de terra.

(Assista à íntegra do programa aqui)

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