Artigo de 2003: Lula incorpora a felicidade ao exercício do poder

Artigo de 2003: Lula incorpora a felicidade ao exercício do poder Lula, no Palácio da Alvorada, a 8 de fevereiro de 2003 (Foto: Rose Brasil - Agência Brasil)

E mais: mais fidelidade partidária, preguiça na TV Câmara, Renan “louco”, Pinotti malufando, clima pesado no BNDES, o Rolls-Royce “zero bala” da posse de Lula, Ananias vai ao Canadá, uma lenda sobre Friedenreich, mais Corinthians – e um festival de más notícias

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Reparem bem no presidente Luiz Inácio Lula da Silva: apesar do peso imenso de ter que governar o Brasil, é o retrato acabado da felicidade. A dívida pública é um problemaço, o orçamento é minguado demais para a explosão das demandas sociais que sua eleição deflagrou, o cenário internacional não está brincadeira – mas observem o ar radiante do presidente.

O governo vem tendo no geral um bom começo, mas há não poucos tropeços e problemas: trapalhadas no programa Fome Zero, resistências à reforma da Previdência antes mesmo de ela ser esboçada, ranger de dentes entre os radicais do PT, demandas de governadores quebrados. Mas Lula parece blindado: preside a uma interminável reunião chata e sai leve como uma pluma, faz uma longa viagem que mal lhe dá tempo de tomar banho e trocar de roupa e já ressurge, lépido e risonho, para o compromisso seguinte. E, feliz, para pavor do esquema de segurança do Palácio do Planalto, mergulha nos braços do povo – seja em suas viagens pelo país, seja em suas chegadas ou saídas do Palácio da Alvorada, da Granja do Torto ou do edifício em que fica seu apartamento, em São Bernardo do Campo (SP).

Estamos falando aqui de algo mais do que simplesmente gostar do poder. Isto, afinal, é característica genética de quem milita na política. O que distingue Lula é um tipo especial de estado de espírito, diferente do de seus antecessores imediatos. Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), como se sabe, adorava ser presidente. Mas carregou para o posto muito de sua personalidade irônica e do seu pendor analítico e racional de professor e cientista social. Isso o fazia ver e viver a função que exercia com pouca – se é que com alguma – emoção.

Seu antecessor, Itamar Franco (1992-1995), talvez por ter sido um presidente de circunstância – um vice que assume nunca é a mesma coisa que um presidente eleito – parecia permanentemente às turras com o cargo e com o que ele envolve. Entrava no Palácio do Planalto por uma porta lateral, andava em carro velho, reclamava da política de juros de seu próprio governo, trombava com a imprensa. Passava a impressão de um presidente infeliz e chorão, louco para ir embora para casa.

Com Fernando Collor (1990-1992), não se pode falar, propriamente, em felicidade: ele exerceu o poder com uma sofreguidão paranóica, bebendo a garrafa pelo gargalo – e deu no que deu. José Sarney (1985-1990), outro presidente de circunstância, obviamente gostava dos palácios, tanto que batalhou na Constituinte para ficar com cinco anos de mandato, contra os quatro com os quais Tancredo Neves, de quem foi vice, havia se comprometido. Mas Sarney viveu seus cinco anos assombrado pelo peso gigantesco de substituir aquele presidente que foi sem nunca ter sido, morto dramaticamente antes de receber a faixa verde e amarela em meio à colossal expectativa da população após o fim do regime militar. Tentou de toda forma ganhar, pelo sucesso na economia – que não veio – a legitimidade que lhe faltava em votos. Seu desfrute do poder foi tortuoso e errático.

Já com Lula, tudo tem sido diferente. O presidente dorme tarde, acorda cedo, trabalha muito, está cercado de problemas e parece cada dia mais feliz: toda uma vida de batalhas, quatro derrotas eleitorais, frustrações sem fim, a amarga perda da Presidência na reta final, em 1989 – mas agora, enfim, ele está lá, bafejado por 53 milhões de votos. A fisionomia de Lula reflete a alegria que, visivelmente, lhe vai na alma. Confiram: até na foto oficial ele exsuda esse estado de graça.

Pois eis aí a grande novidade da política brasileira: quer se goste ou não de Lula ou do PT, quer se aplaudam ou se vaiem os primeiros passos do governo, não é possível negar que temos um presidente que incorporou a felicidade ao exercício do poder. Como diria Nelson Rodrigues, Lula está atravessado de luz como um santo de vitral. É impossível prever o que vai acontecer com os rumos de seu governo e com seus índices de popularidade nos próximos quatro anos – mas, para o país, é bom ver um presidente começar plenamente feliz com o que faz.

Menos ruim

Finalizado o troca-troca de legendas entre os deputados no sábado, dia 1º – data-limite para aferição do tamanho das bancadas na Câmara, que vai determinar o espaço no horário gratuito de TV e rádio para as eleições de 2004 e 2006 –, 37 haviam mudado de partido antes de tomar posse.

Feio, mas já esteve pior: em 1999, foram 49 os que viraram casaca.

Sumindo, sumindo…

Foi até cômico: troca de partido daqui e de lá, quando o dia terminou os três deputados eleitos pelo PST e o único que chegou à Câmara pelo PSDC tinham debandado.

Com isso, os dois partidos desapareceram do mapa em Brasília.

Preguiça na TV Câmara

A TV Câmara ainda tem chão para chegar a um padrão mínimo de qualidade jornalística. Durante a transmissão da longa sessão de eleição de João Paulo Cunha (PT-SP) como novo presidente da Câmara dos Deputados, no domingo, 2, suas câmeras ficaram quase todo o tempo preguiçosamente focalizadas na mesa que dirigia os trabalhos enquanto cada um dos mais de quinhentos deputados presentes (do total de 513), devidamente chamados pelo nome, prestavam um a um o juramento constitucional.

Ou seja, os telespectadores foram privados de identificar quem era quem – sobretudo no caso dos 213 deputados novatos ou que voltavam de legislaturas antigas.

O mesmo trabalho preguiçoso se repetiu durante os pequenos discursos que, durante horas a fio, centenas de deputados fizeram no microfone de apartes. A TV Câmara só identificava, com seu gerador de caracteres, os deputados que foram reeleitos, embora tenha tido quatro meses, desde as eleições, para levantar nome e fisionomia de cada um dos novos.

Microfone aberto

A sessão de sábado, dia 1°, que elegeu o senador José Sarney (PMDB-AP) presidente do Senado começou tendo os trabalhos conduzidos pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), 2º secretário da Mesa diretora em fim de mandato. Quando estava para encerrar a votação, Paes de Barros foi alertado por uma funcionária da Mesa de que o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), ainda não tinha votado.

Sem notar que o microfone estava aberto, o senador – sabe-se lá por quê – reclamou:

– O Calheiros está louco.

Pinotti já malufou

As voltas que o mundo dá, como diria o Ancelmo Gois: o deputado José Aristodemo Pinotti (PMDB-SP), que concorreu à 1ª secretaria da Câmara como “avulso” – candidato não indicado oficialmente pela bancada de seu partido –, em nome dos dissidentes pró-Lula do PMDB e perdeu para Geddel Vieira Lima (PMDB), já foi, com essa rebeldia toda, um entusiasmado eleitor de Paulo Maluf (PPB).

Mesmo tendo sido secretário da Saúde no governo Franco Montoro (1983-1987), um dos fundadores do PSDB e mentor de Mário Covas, Pinotti apoiou Maluf contra Covas no segundo turno da eleição para governador de São Paulo, em 1998. Maluf venceu o primeiro turno, com 5,3 milhões de votos contra 3,8 milhões de Covas. O terceiro colocado foi Francisco Rossi, então do PDT, que Pinotti apoiava. No segundo, Covas virou o jogo e derrotou Maluf por 9,8 milhões de votos contra 7,9 milhões.

Style news

Um espanto o estilo do deputado Luiz Couto (PT-PB): ele já desfilou pelo Congresso usando a gravata rodeando o pescoço por fora do colarinho.

O clima no BNDES

O novo presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, tem, como se sabe, trombado aqui e ali com seu chefe, o ministro do Desenvolvimento, Luís Fernando Furlan, e com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci.

Até aí tudo bem – não é incomum isso ocorrer em começo de governo. Mas, sendo economista de nomeada, Lessa não deveria também trombar com modernos conceitos de administração. Causam espanto suas recentes declarações aos repórteres Antonio Gois e Pedro Soares, da Folha de S. Paulo, sobre o clima negativo supostamente existente entre os quadros do banco quanto a mudanças que seriam feitas “de cima para baixo” pelo novo comando.

Lessa admitiu a existência de um “clima de medo”, e acrescentou: “Mas, contra bruxarias, nada posso. Eu não me considero, como presidente do banco, obrigado a promover uma grande consulta interna da opinião de seus funcionários antes de assumir. Isso beira o ridículo”.

Não é possível que o economista não conheça o conceito de “clima organizacional”, com o qual lida qualquer dirigente de empresa privada. Inúmeras empresas de consultoria realizam trabalhos de pesquisa de clima organizacional para clientes – há algumas especializadas basicamente nisso –, com o objetivo de balizar os executivos sobre a quantas anda o moral dos funcionários e sugerir medidas para, em caso de necessidade, melhorá-lo.

O clima organizacional, diz o manual da boa administração, é fator essencial para que se atinjam ou não os objetivos da empresa, e sobretudo para que ela utilize ou não o potencial de que dispõe.

Garagem do Planalto

O Rolls-Royce conversível 1953 da Presidência com que o presidente Lula desfilou em sua posse – e que foi doado ao então presidente Getúlio Vargas no mesmo ano pela Rainha Elizabeth II, da Inglaterra – ainda não chegou aos 25.000 quilômetros rodados em meio século de uso.

Patrus e a Previdência

O deputado Patrus Ananias (PT-MG), ex-prefeito de Belo Horizonte e figura de proa do partido, acaba de voltar de viagem ao Canadá, onde foi estudar, entre outras coisas, como funciona a Previdência. Ficou encantado com o que viu.

Detalhe: os funcionários públicos, no Canadá, se aposentam ganhando por volta de 60% da média do salário dos últimos cinco anos trabalhados.

Bola na rede (1)

Comentando a nota principal da coluna anterior, “Romário não deve chegar aos mil gols” (clique ao lado, se quiser conferir), alguns internautas enviaram mensagens perguntando sobre se existem dúvidas a respeito do recorde mundial de Pelé – os famosos, mitológicos 1.281 gols marcados.

Bem, o mesmo jornalista Celso Unzelte, fonte dos dados da coluna anterior, é quem lembra a lenda de que Arthur Friedenreich, o “Fried”, filho de alemão com negra que foi o primeiro grande craque do futebol brasileiro, teria feito 1.329 gols. Esse número chegou a aparecer no Guinness Book of  Records, com a ressalva de que eram “gols não documentados”. Diz Unzelte: “Acho difícil que nos anos 10 e 20, época de poucos jogos e clubes, alguém tenha chegado a tanto”. E conta: “Recentemente, o jornalista Alexandre da Costa ocupou-se de um levantamento dos gols de Fried a partir de jornais da época. Chegou a 556”.

A versão brasileira do Guinness, disponível na Internet em http://www.livrodosrecordes.hpg.ig.com.br/index.htm, corretamente assinala Pelé como o indisputável maior artilheiro da história.

Bola na rede (2)

Já está no ar o site em que Unzelte consolidou – e atualiza a cada partida – todos os dados estatísticos possíveis e imagináveis do Corinthians desde sua fundação, em 1910, jogo a jogo, jogador a jogador. Para os corintianos, e para quem apenas gosta de futebol, é imperdível: www.almanaquedotimao.com.br

Viva a má notícia

Inundações, desabamentos, mortes: a chuvarada deste começo de ano mereceu, como sempre, vasta cobertura na mídia.

Mas onde estão as reportagens sobre o outro lado? Mostrando, por exemplo, que as represas encheram, que diminuiu ou acabou o risco de apagão e que Estados e regiões metropolitanas com problemas de falta d’água podem estar livres dele no verão?

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