A decisão – posteriormente revogada – do governo brasileiro de expulsar jornalista amaricano que publicou matéria sobre Lula e a bebida reacende debate existente desde que a nossa profissão foi inventada; episódio fortaleceu os princípios básicos da imprensa do país

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A imprensa brasileira saiu engrandecida do grotesco episódio da expulsão do jornalista Larry Rohter, depois revogada, por causa da matéria publicada por The New York Times sobre a relação do presidente Lula com o álcool.

É preciso deixar isso claro, em alto e bom som, embora nós, jornalistas, tenhamos o hábito do autoflagelo.

De uma maneira geral, nossos jornais, revistas, emissoras de televisão e rádio e serviços noticiosos na internet fizeram uma boa cobertura do episódio, com seus heróis e vilões, conselheiros prudentes ou trapalhões do presidente, puxa-sacos do poder, vozes da sensatez e oportunistas de ocasião.

Ficamos sabendo das atitudes do presidente e de seu círculo próximo, da atuação de políticos do governo e da oposição, da reação de entidades e pessoas ligadas aos direitos humanos e à liberdade de imprensa, e da ação nos bastidores levada a efeito pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, junto aos advogados de Rohter que finalmente solucionou o affaire, retirando o país – por ora – da incômoda companhia de repúblicas de bananas.

Além da boa qualidade da reportagem, a profusão de artigos, comentários e editoriais teve um teor e densidade poucas vezes vistos em crises semelhantes, o que obviamente inclui a esplêndida contribuição dada por este Observatório em sua edição passada.

Dissecaram-se questões como o papel da liberdade de imprensa numa democracia, a evidência de que ela não é um privilégio dos jornalistas, mas um direito do público e um esteio do Estado de Direito, a necessidade de se recorrer à Justiça – e não a gestos censores ditatoriais – na hipótese de supostos abusos, os limites entre o público e o privado, a diferença entre a pessoa física do presidente e a instituição da Presidência, a descabelada versão oficiosa de que The New York Times, crítico implacável do presidente americano George W. Bush, funcionaria como instrumento de sua política externa, o embuste do nacionalismo de fundo de quintal contido no imbroglio todo, e por aí vai.

Mas talvez haja um ponto, unzinho só, que ainda seja oportuno discutir com vagar nessa história (inglória) toda. É a questão sobre se a imprensa tem o direito de escrutinar a vida pessoal do – ou de um – presidente da República.

De forma velada, indireta, nas entrelinhas, nunca abertamente, houve uma enorme e indisfarçável contrariedade no governo, a começar do próprio Lula, com essa atitude da mídia. Até em sutilezas como o trecho da primeira nota oficial da Presidência que se referia a “hábitos sociais” do presidente.

O governo provavelmente não atacou esse ponto porque, a despeito de notórias inclinações stalinistas presentes em vários de seus quadros, sabe que esse é um assunto já resolvido nas democracias.

O direito à privacidade – o direito “de ser deixado em paz”, que segundo célebre voto do legendário ministro liberal da Suprema Corte americana William O. Douglas é “o início de toda a liberdade” – é diferente para o cidadão comum e para quem busca voluntariamente a exposição ao público, especialmente o homem público, mais especialmente ainda o político, que chega ao cargo que ocupa pelo voto do eleitor.

O divórcio de Marta

O direito deste será necessariamente mais restrito, e o reconhecimento dessa limitação, que começou por decisões da própria Suprema Corte dos Estados Unidos, inclui, hoje, farta jurisprudência nos tribunais brasileiros.

A pergunta sobre o que é, afinal, que o público tem a ver com a vida particular, os hábitos pessoais, as tendências e inclinações privadas do político já foi exaustivamente respondida. No cerne da resposta está a constatação de que esse elenco comportamental fornece, ao eleitor que julgará o político nas urnas – seja ele um vereador de uma cidadezinha do Tocantins ou o presidente da República – elementos fundamentais sobre sua personalidade e seu caráter.

Daí o tema estar presente nos códigos de ética de todas as grandes publicações, inclusive no Brasil. “Cidadãos que têm vida pública perdem, por isso, pelo menos parte do direito à privacidade”, diz o Manual de Redação e Estilo de O Globo. Para o Manual da Folha de S. Paulo, “a vida particular de personagem público que busca essa condição por vontade própria tem interesse social”.

E acrescenta, com total propriedade: “Isso é verdade em especial para os governantes ou candidatos a governantes: suas decisões são pautadas em parte por características de personalidade e elas afetam a vida de todos os seus governados”.

De fato. A informação sobre um político que entre quatro paredes toma drogas pesadas ou pratica violência contra a própria mulher é altamente relevante e reveladora de seu caráter. Saber da condição gay de um deputado ou uma senadora constitui um direito do eleitor, até porque, a despeito do inquestionável direito de cada um buscar a felicidade do modo que lhe aprouver, amplos setores sociais, como estamos cansados de saber, continuam não aceitando a homossexualidade.

Mesmo um passo personalíssimo e perfeitamente corriqueiro – como um divórcio – pode ser de grande interesse público se sua divulgação ou ocultação tiverem, por exemplo, capacidade de influir nos resultados de uma eleição. Se  o jornalista reúne condições de levantar documentadamente uma história a respeito desses assuntos, a ele cabe o direito, e em alguns casos a obrigação, de levá-la ao público.

Não faltam exemplos, no Brasil e lá fora. Um caso muito pouco analisado até hoje é o da separação da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), de seu então marido, o também petista senador Eduardo Suplicy, no início de 2001. A prefeita, obviamente, tem como qualquer mortal todo o direito de divorciar-se, de se casar de novo e de buscar a felicidade pessoal.

Ocorre, porém, que o afastamento do casal, sobejamente conhecido por inúmeras pessoas próximas de um e de outro, e por jornalistas, ainda durante o transcurso da campanha eleitoral de 2000, foi cuidadosamente mantido oculto do público pelo evidente receio de que a enorme simpatia popular pelo senador levasse a então candidata a perder votos. O anúncio da separação ocorreria somente em abril do ano seguinte, no meio do quarto mês de governo da prefeita.

O tom grosseiro de fofoca machista dedicado por vários veículos à separação e ao namoro da prefeita com seu futuro marido, o publicitário franco-argentino Luís Favre, torna difícil defender a cobertura de um assunto como esse. Nem por isso ela, decentemente realizada, deixa de ser legítima.

Hermes da Fonseca, Clinton, Collor…

Decentemente, é bom que se repita. Não foi decente a cobertura sobre supostos hábitos pessoais do então presidente Fernando Collor (1990-1992), inclusive uma forma heterodoxa de consumir cocaína.

O clima de histeria que se criou contra o presidente diante da montanha de evidências de corrupção que irrompeu da chamada CPI do Caso PC Farias fez grande parte da mídia perder a noção de limites, e o volume de histórias sem qualquer comprovação que em consequência veio à tona permanece sendo uma feia nódoa na folha de serviços da imprensa brasileira.

Diferente foi o célebre episódio envolvendo o senador norte-americano Gary Hart, o democrata do Colorado que era favorito absoluto para a indicação de seu partido às eleições presidenciais de 1988 em seu país, em que enfrentaria George Bush pai – um entre tantos casos em que aventuras extraconjugais, homossexualidade, assédio sexual ou excesso de bebidas relatados pela imprensa derrubaram figurões. Ele posava de marido fiel e desafiou a imprensa a provar o contrário.

Não demorou para repórteres desencavarem a foto de uma garota de biquíni sentada em seu colo a bordo de um iate e, em detalhes, apurarem com total pertinência diferentes histórias do candidato pulando a cerca. Apesar do moralismo americano, o que efetivamente derrubou Hart terminou sendo menos o adultério do que a circunstância de ser apanhado em grossa mentira.

O presidente Bill Clinton (1993-2001) sabe como poucos o peso de um escândalo do tipo Hart. Apesar de sua enorme popularidade, seu reconhecido carisma e os excelentes indicadores de seu governo, esteve a milímetros de ter seu impeachment decretado pelo Congresso em fevereiro de 1999 por causa do envolvimento com a estagiária Monica Lewinski.

Um dos malabarismos jurídicos que salvou Clinton foi o fato de que suas negativas ao longo do escândalo terem, todas, passado por rigoroso crivo de advogados de forma a, tecnicamente, não poderem ser tidas como mentiras, embora fossem. (Houve toda uma guerra de filigranas, por exemplo, sobre se sexo oral, que ocorreu, é ou não uma relação sexual, algo que o presidente declarou nunca ter havido).

Os poderosos, obviamente, detestam o escrutínio da imprensa, exceto quando resolvem usar sua vida pessoal como instrumento de marketing. A manobra é tão antiga quanto a República. Basta lembrar, em épocas tão separadas no tempo, o frisson provocado pelo casamento do presidente Hermes da Fonseca (1910-1914), marechal do Exército, com a caricaturista e precursora do feminismo Nair de Teffé, 31 anos mais jovem do que ele.

Ou a simpatia multiplicada pela mídia em torno do casal de filhos pequenos do presidente João Goulart (1961-1964), sem contar o fascínio exercido pela primeira-dama Maria Thereza, que Jango postou a seu lado, bela e elegantíssima, no palanque do famoso e fatídico comício de 13 de março de 1964 na Central do Brasil, no Rio, que praticamente selaria sua queda.

Ninguém lançou mão desse tipo de recurso com a intensidade e a frequência de Collor. As exibições de jetski no Lago Paranoá, em Brasília, os treinos de karatê, certas fotos atléticas à beira da piscina da Casa da Dinda, a prática de jogging com as célebres camisetas contendo recados constituíram nacos da vida privada a serviço da pública.

Até suas rusgas com a primeira-dama, Rosane – aparecer sem a aliança de casado, tratar friamente a mulher em público – estiveram a serviço de algum propósito, uma vez que coube ao próprio Collor a iniciativa de desvelá-las.

Itamar, FHC e Mainardi

Nem o presidente Itamar Franco (1992-1995), com seus laivos de matuto mineiro, deixou de lado esse tipo de prática. Ele manteve com rigor, é verdade, a privacidade de suas duas filhas e de sua primeira mulher, mãe delas.

Mas o terrível episódio da “modelo” sem calcinha no Sambódromo do Rio não passou de um lance marqueteiro, destinado a criar a imagem de um presidente divorciado e conquistador – com o detalhe que não deu certo.

Quem não se lembra de outros – das mulheres com quem o presidente se deixava fotografar, insinuando namoro, e, depois, seus altos e baixos com namoradas propriamente ditas? Apesar de turrão e fechado, Itamar se expunha propositalmente em determinadas ocasiões para ser notícia.

Sobre a vida pessoal do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), desde sua primeira eleição, em 1994, circularam determinados rumores aptos a provocar forte impacto político. Setores de esquerda acusavam a mídia de acobertar o fato por suposta simpatia ou subserviência ao presidente.

A verdade, contudo, é que houve tentativas de ir a fundo no assunto. Eu próprio fui protagonista de uma delas, em 1998 – ano da reeleição de FHC –, quando era diretor de Redação de Playboy.

A revista tinha uma tradição de jornalismo “duro” desde seu lançamento, em 1975 – boa parte dos maiores jornalistas do país ali publicaram reportagens e entrevistas sobre importantes temas da agenda brasileira. O constante questionamento sobre esse tabu em relação a FHC mexia com os brios da redação, e com os meus próprios.

Numa longa reunião com o então redator-chefe Marcos Emílio Gomes – de longe um dos mais talentosos, competentes e tenazes jornalistas com quem já trabalhei em 39 anos de carreira –, combinamos que ele próprio entraria fundo na apuração. Teria o tempo e todos os meios necessários.

Marcos deixou suas funções na redação e mergulhou no assunto. Dedicou o melhor de suas energias à tarefa, viajou a Brasília, vasculhou todas as fontes possíveis e imagináveis. Em vão. Não houve como obter um único elemento jornalisticamente válido para comprovar a história que circulava, e nada se publicou.

Só há uma coisa errada nessa questão de a imprensa brasileira investigar a vida privada de homens públicos: nós o fazemos muito menos do que o necessário.

O colunista de Veja Diogo Mainardi viu-se absurdamente usado por acólitos presidenciais como uma suposta fonte não confiável da reportagem do Times, quando ele teve apenas citada no texto de Larry Rohter uma opinião – uma opinião, não uma informação – expressa várias semanas antes, e aliás correta, de que o presidente Lula deveria beber menos em público para não dar mau exemplo.

Pois acabou sendo dele, na penúltima edição de Veja, a frase definitiva em relação ao escrutínio da vida particular dos políticos por nós, jornalista: “Na realidade, não há nenhuma pergunta que não possa ser feita a um político. E não há nenhuma pergunta que um político possa se recusar a responder”.

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