Artigo de 2005: Lula silencia sobre o que realmente interessa

Artigo de 2005: Lula silencia sobre o que realmente interessa Ilustração: Petite Street

E também: Dirceu ainda enrola sobre Waldomiro Diniz, Bolsonaro dá as caras, um lembrete sobre o caso Pedro Collor, Sarney sai de fininho, rusgas no Conselho de Segurança da ONU, os 114 prefeitos cassados e a imprensa pegando leve com o drama de Pelé

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O presidente Lula perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado com o desastrado discurso – uma vez mais, de improviso – que pronunciou em Luziânia (GO). Qualificar de “bobagens” crescentes suspeitas de corrupção no governo, dizer que são problema apenas do Congresso as gravíssimas denúncias do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) sobre suborno pago a deputados para apoiarem sua administração e proclamar-se, com a conhecida e inabalável admiração por si próprio, a suprema autoridade em moral e ética do país para enfrentar a ladroagem são atitudes que não terão o condão de varrer a crise para debaixo do tapete.

Pelo contrário.

Lula falou, e fala, e fala, e fala – mas até agora manteve silêncio de pedra sobre um ponto fulcral para aferir o cumprimento de suas responsabilidades constitucionais: se foi realmente informado, ou não, a respeito do pagamento do tal “mensalão” a deputados da base governista, conforme depoimentos não somente de Jefferson, mas também do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). A dúvida sobre sua possível omissão, portanto, permanece.

Com discursos como o de Luziânia, o presidente acaba estimulando a delirante, absurda “teoria” lançada ao ar pelo “camarada de armas” José Dirceu sobre uma conspiração golpista “das elites e da mídia” em andamento no país.

Fontelles, Lula e Deus

Lula pode, quem sabe, ser o homem mais honesto do país ou do planeta, mas o procurador-geral da República, Cláudio Fontelles, encerra melancolicamente uma gestão em que mostrou coragem e independência ao sequer cogitar da possibilidade de oficiar ao presidente sobre se ele tinha ou não conhecimento do pagamento do “mensalão” a deputados.

Fontelles, que decidiu investigar as denúncias de Jefferson, dirigiu ofícios a respeito a vários ministros, e incompreensivelmente excluiu Lula da lista, como se ele, tal qual Deus, estivesse acima do bem e do mal.

Perguntar não ofende

Agora que a ministra Dilma Roussef assumiu seu pesado fardo, agora que é desde ontem, dia 21, apenas um deputado entre 513 e está, como ele próprio disse, não no Planalto, mas na planície, agora que tem as mãos livres para defender o governo, o PT e a própria honra – por que não teria antes? –, que tal o deputado José Dirceu (PT-SP) cumprir a promessa de “colocar os pingos nos iis” e “não deixar nada sem resposta” sobre o caso de seu ex-assessor Waldomiro Diniz, aquele filmado enquanto pedia dinheiro a um empresário da jogatina?

Dirceu fez a promessa no dia 16 de março de 2004, no Fórum Nacional de Prefeitos e Prefeitas do PT, 32 longos dias após a divulgação do vídeo. Disse: “Gostaria de falar o que não posso falar, vou deixar para falar daqui a 15 ou 30 dias”.

De lá para esta quinta, 23 de junho, já se passaram um ano, três meses e sete dias – e nada.

Fim da picada

As provocações do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) feitas durante o discurso de retorno de Dirceu à Câmara passaram dos limites mesmo para quem, como o ex-capitão, possui considerável déficit de compostura para desempenhar um mandato popular.

Não custa lembrar

Pedro Collor, quando deu sua famosa entrevista à revista “Veja”, em 1992, também não tinha provas.

Caindo do cavalo

Apesar de ter sido o preferido do Planalto para presidir a CPI que apura roubalheira nos Correios, o senador Delcídio Amaral (PT-MS), garante pessoas que o conhecem de perto, vai surpreender.

Elas asseguram que, se o governo o imagina manobrando para esvaziar a CPI ou dando uma mãozinha para tornar raquíticos os resultados dela, vai cair do cavalo.

Os ataques a sua gestão na Diretoria de Gás da Petrobras durante parte da gestão FHC – os quais o senador identificou como partindo do atual diretor, o colega petista Ildo Sauer – reforçariam ainda mais sua disposição pela isenção, dizem tais pessoas. Mesmo depois que a diretoria da Petrobras, em nota oficial, livrou-o de qualquer responsabilidade por prejuízos na gestão de usinas termelétricas alimentadas a gás.

Proposta à grande imprensa

Se “mensalão” é o apelido, francamente cafajeste, para o dinheiro que deputados de partidos “aliados” ao governo embolsariam em troca de apoiá-lo, que tal nós, jornalistas, passarmos a usar com mais freqüência a palavra certa para definir a prática – suborno?

Ou seja, o ato ou efeito de subornar – segundo o “Aurélio”, “dar dinheiro ou outros valores a, para conseguir vantagens, coisa oposta à justiça, ao dever ou à moral (…)”.

Sobrou para Palocci

Pouco antes do escândalo do suposto suborno em favor do governo na Câmara dos Deputados, o vice-presidente José Alencar se desentendeu com o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, diante do presidente Lula. O episódio, conforme relato de uma testemunha, ocorreu depois de uma longa reunião com várias outras pessoas, quando o presidente, o vice, o ministro e mais um ou dois personagens relaxavam e alguns dos circunstantes – não todos –tomavam drinques.

Acabou sobrando para quem não estava presente e nem chegou a ser citado diretamente: o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Alencar, a certa altura, criticou diretamente para Lula a política econômica do governo.

No final, os dois acabaram se abraçando.

“Mensalón” no Prata

A curiosidade manifestada pelo vice-presidente da Argentina e presidente do Senado do país vizinho, Daniel Scioli, sobre o que seria o tal de “mensalón” – publicada pela seção “Painel” da “Folha de S. Paulo” – poderia ser saciada pelo senador José Sarney (PMDB-AP). Em artigo na própria “Folha”, o ex-presidente conta que, na Argentina, país em que há muitos anos tem um batalhão de amigos, fala-se em deputados que embolsam sobresueldos.

Paris, toujours Paris

Por falar no ex-presidente, toda a sua lacrimosa solidariedade ao presidente Lula não impediu que ele deixasse de dar uma mão ao presidente. Com sua vasta experiência de meio século na política, sua capacidade de articulação e a liderança que ainda mantém no Congresso, o moderado Sarney cairia como uma luva como presidente da CPI que está apurando roubalheira nos Correios.

Mas ele não aceitou candidatar-se. Depois, em pleno fragor da maior crise do governo Lula, docemente constrangido por cumprir compromisso assumido meses atrás, deu uma passadinha em Paris para fazer uma palestra.

Sobre literatura.

Conselho da ONU e pá de cal

Com toda a barulheira em torno do chamado “escândalo do mensalão” diminuíram os holofotes sobre a pretensão do governo brasileiro a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Mas o fato é que a decisão formal dos Estados Unidos de apoiarem a ampliação do CS em somente dois integrantes, sendo um deles o Japão e o outro “um país em desenvolvimento”, representa quase uma pá de cal nas pretensões do Itamaraty. Isto porque a China, que até hoje não engoliu a barbárie praticada em seu território pelos invasores japoneses no período precedente à II Guerra Mundial e durante o conflito, não apoiará qualquer medida de reforma da ONU que beneficie o Japão. E a China, como se sabe, é uma das cinco potências com direito de veto às decisões da organização.

Só para nós

Os chineses haviam deixado claro o veto aos japoneses quando o chamado G-4 – grupo que inclui Brasil, Japão, Alemanha e Índia – apresentou, a 16 de maio, sua proposta de ampliação do CS dos atuais 15 membros (cinco deles permanentes) para 21. A formalização pró-Japão dos Estados Unidos só piorou o impasse.

Diante dele, vale pouquíssimo a declaração do G-4 de que os novos países-membros do CS abririam mão por 15 anos do uso do poder de veto que pretendem. Mesmo porque ninguém imagina que os atuais Cinco Grandes – EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China – queiram dividir com qualquer outro país o privilégio estabelecido desde a fundação da ONU, em 1945.

Robinho e as estatais

Com as investigações sobre corrupção no Correio, espera-se que o governo tenha sepultado a hipótese infeliz de atender ao pleito do Santos Futebol Clube para manter no Brasil o atacante Robinho: fazer um grupo de estatais contratarem o craque como garoto-propaganda de uma campanha para “manter talentos [do futebol] no país”.

Muita gente do PT e do governo gosta da idéia, a começar pelo líder governista no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). Mas tem absoluta razão quanto ao tema o deputado Sílvio Torres (PSDB-SP), que foi relator da CPI da CBF/Nike entre 2000 e 2001 e segundo o qual antes de pensar em impedir a revoada para o exterior de jogadores de futebol é preciso, em nome do desenvolvimento e do futuro do Brasil, “pensar em como segurar nossos cientistas, mestres e doutores”.

Números relevantes

A Câmara dos Deputados já cassou o mandato de 18 de seus integrantes desde a redemocratização do país, em 1985. No período democrático anterior (1945-1964), um único deputado perdeu o mandato por ação dos colegas.

Números irrelevantes

O mastro em que fica hasteada a grande bandeira nacional na Praça dos Três Poderes, em Brasília, é formado por 24 hastes metálicas que representam os Estados da Federação existentes na época de sua inauguração, em 1972.

Escola Lula de entrevistas

A julgar pelo virtual cala-boca do presidente do PT, José Genoino, aos jornalistas que queriam fazer réplicas durante a desastrosa entrevista em que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, responderia às acusações de que seria o operador do suborno pago a deputados para apoiarem o governo, o exemplo do presidente Lula em sua primeira entrevista coletiva frutificou.

As coisas como elas são

É saudável, quase refrescante quando gente do governo diz as coisas como elas são. É o caso da recente declaração do secretário-executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, sobre a míngua financeira da pasta do ministro Gilberto Gil, que teve congeladas pela área econômica do governo quase 60% (perto de 300 milhões de reais) das verbas a ela destinadas pelo Orçamento:

“É escandaloso. Estamos com editais na rua, com vencedores [de promoções do Ministério] e não temos dinheiro para pagá-los. (…) Não há dinheiro para nenhum investimento em projeto cultural”.

O petróleo é deles?

Por continuar oportuna, repete-se aqui pergunta já feita semanas atrás: o que têm a dizer os nossos nacionalistas e estatizadores de plantão agora que massas ululantes saem às ruas da Bolívia pedindo a plena nacionalização do petróleo e do gás natural – dos quais, por acaso, o maior explorador estrangeiro é a para eles sacrossanta Petrobras?

Muy amigo

Por sinal, um dos maiores insufladores das manifestações – e, por tabela, das hostilidades contra a Petrobras – é o deputado e líder dos plantadores de coca Evo Morales, que se diz “amigo de idéias e de coração” do presidente Lula.

Nem tudo está perdido

Fala-se muito mal do Judiciário no Brasil, mas é alentadora a estatística levantada pelo “Estadão” junto a Tribunais Regionais Eleitorais do Brasil inteiro dando conta de que nada menos do que 114 prefeitos em 15 diferentes Estados eleitos em 2004 foram cassados pela Justiça Eleitoral por violações à lei que vão da compra de votos ao abuso do poder econômico ou o uso da máquina administrativa.

O novo romance de J. R. Duran

O fotógrafo J. R. Duran acaba de mandar os originais de seu segundo romance, “Santos”, para a Editora Francis. A história, centrada num seqüestro, se passa durante os anos Sarney (1985-1990), após o final da ditadura militar. Junto com o bem recebido livro de ficção de estréia, “Lisboa” (2003), o novo romance integra o que Duran chama de “uma trilogia geográfica” e deve ser lançado ainda este ano.

O terceiro volume da trilogia deveria intitular-se “Macau” (a ex-possessão portuguesa na China que voltou à soberania de Pequim no final de 1999) mas, com o enredo avançado, Duran leu uma história semelhante à que imaginara e mudou o plano de vôo.

Muita responsabilidade, pouco salário

Enquanto governos em todos os níveis – federal, estaduais e municipais – torram dinheiro e não conseguem ou não querem cortar mordomias e super-salários de que desfruta uma minoria de funcionários privilegiados, o recente episódio da recusa do sociólogo Benedito Mariano de aceitar ser o ouvidor das polícias Civil e Militar de São Paulo serve de motivo de reflexão aos administradores públicos sobre a questão da correta remuneração dos servidores, inclusive em cargos de grande importância.

Mariano, o primeiro ouvidor da polícia paulista – no governo Mário Covas, entre 1995 e 2000 –, é o atual secretário de Gestão Estratégica da prefeitura petista de Osasco, uma das grandes cidades do Estado, e recusou o convite do governador Geraldo Alckmin (PSDB), entre outras razões, pelo baixo salário da equipe responsável pelo duríssimo (e perigoso) encargo de fiscalizar os atos de uma força policial de 140 mil homens.

O pessoal não recebe reajuste real há dez anos. Pelo salário oferecido ao ouvidor – 3.500 reais por mês –, pode-se imaginar os dos demais.

O drama de Pelé, e uma omissão

A grande mídia em geral mostrou-se generosa para com Pelé, e falha para com o leitor, ao aceitar sem grandes contestações as respostas do Rei diante do drama que enfrenta com a prisão por ordem judicial de seu filho, Edinho, por alegado envolvimento com o tráfico de drogas.

Na entrevista coletiva em que chorou diante dos jornalistas, Pelé declarou-se “surpreendido” diante da alegação de Edinho de que seria “viciado em maconha”. Amigos da família garantem que Pelé foi apanhado de surpresa nessa matéria, sim, mas há cerca de nove anos.

Podando os “cargos de confiança”

Os eventuais leitores são testemunha de quantas vezes esta coluna insistiu no assunto, mas o momento é propício para voltar a ele uma vez mais: boa parte da podridão dentro do Estado começa com os cargos de livre provimento, de nomeação política. Milhares de pessoas estranhas à administração pública são, a cada mudança de governo, colocadas dentro da máquina estatal, e muitss delas exclusivamente com objetivos escusos, a começar pelo de arranjar dinheiro para campanhas eleitorais.

Assim, é bem-vinda a iniciativa da direção do PT que – diz o presidente do partido, José Genoino – pretende apresentar emenda à Constituição com o objetivo de reduzir drasticamente, ao mínimo, o número dos chamados “cargos de confiança”.

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