E mais: Bush e Lula atrapalhando-se na Casa Branca,o futuro da Secretaria Nacional Antidrogas, caminhadas políticas matinais, FHC e a Venezuela, uma análise sobre nosso custo de vida, o Natal mais nacional de todos e o elo entre Lula e ACM

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Que Ciro Gomes, que nada. Muito menos o ex-líder sindical bancário, funcionário do Banco do Brasil, engenheiro, especialista no assunto e deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP), igualmente cotado para o cargo. Lula já tem o candidato ideal para ocupar o Ministério da Previdência: trata-se de um certo Paulo Martins, diretor do sindicato dos servidores da Previdência e da Saúde. O homem é um brilho só, um gênio.

Ele acaba de participar do 2° Encontro Nacional sobre Assuntos de Aposentadoria dos Servidores Públicos, realizado em Luziânia (GO), na área metropolitana de Brasília, e acha, como o documento final do encontro, assinado pela Coordenação Nacional das Entidades de Servidores Federais (Cnesf), que o déficit da Previdência “é falso e artificialmente criado pelo governo”.

Ou seja, é uma miragem a extrema preocupação do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e seus assessores econômicos com um rombo que pode não apenas inviabilizar sua administração, mas quebrar o país e provocar, em poucos anos, uma situação inimaginável nas contas públicas e na própria governabilidade. É pura fumaça, coisa boba, o colossal buraco de 70 bilhões de reais até o final do ano apontado recentemente pelo ministro da Previdência, José Cecchin, como sendo o déficit previdenciário em 2002. (70 bilhões, vejam bem, são nove vezes mais o dinheiro que Lula terá para investir em todos os seus programas em 2003).

No I Forum Nacional de Seguro de Vida e Previdência Privada, em São Paulo, Cecchin também mostrou as cores da inacreditável injustiça do sistema: 20 milhões de trabalhadores aposentados pelo INSS produzem um déficit de 17 bilhões de reais na Previdência; enquanto isso, apenas 4 milhões de funcionários públicos da União, Estados e municípios turbinam uma cratera de 53 bilhões de reais.

Ou seja, cada aposentado pelo INSS leva a um déficit anual de 850 reais. Já cada funcionário público aposentado sangra os cofres nacionais em 13.250 reais. De longe, de muito longe, o grande problema das contas públicas hoje, portanto, é a questão da aposentadoria dos funcionários públicos, que saem da ativa com salário integral, seja qual for o valor da contribuição que tenham feito pela vida afora.

Para o genial Martins e seus companheiros, porém, esses números todos são fantasia pura e, segundo ele, “parte do déficit existe porque não houve novos concursos para funcionários públicos, o que aumentaria as contribuições”. Previsivelmente, Martins e seus companheiros de Cnesf já são desde já contra a reforma da Previdência que o PT está preparando, e que vazou dias atrás graças ao trabalho da excelente repórter Suely Caldas, do Estadão.

Em linhas muito gerais, o projeto prevê manter os direitos adquiridos – mesmo os salários nababescos de marajá existentes em muitos setores –, por serem garantia constitucional. Em compensação, cria um regime único de aposentadoria, com teto que pode chegar a um máximo de 2 mil reais, para trabalhadores da iniciativa privada e funcionários públicos contratados a partir da instituição do sistema.

Os que quiserem ganhar mais de pijama terão a opção de contratar uma previdência complementar com recursos próprios. Para os atuais funcionários – e é aí que está apertando o sapato da turma da Cnesf –, haverá uma regra de transição. Os detalhes ainda não se conhecem, mas ela deve funcionar mais ou menos assim: os que estiverem mais próximos da aposentadoria poderão ultrapassar o teto proporcionalmente ao salário que recebem e ao tempo que falta para ir para casa, mas os que ainda vêem o pijama de longe e ganham muito vão precisar rever seus planos.

Tudo isso é lero-lero para o pessoal da Cnesf. Segundo eles, “o modelo previdenciário não pode estar baseado ou vinculado à lógica do capital, do mercado e nem mesmo do cálculo atuarial”. (Cálculo atuarial é a conta que se faz para saber se o capital acumulado durante um período de contribuição será suficiente para pagar a aposentadoria pelo tempo de vida útil estimado para quem contribuiu).

A constatação é brilhante e, certamente, inédita no mundo das finanças, dos seguros e até da matemática. Na prática, quer dizer o seguinte: a turma da Cnesf quer se aposentar com salário integral, e os outros, os cidadãos que pagam imposto (todos nós), que se virem. Como fazer isso sem inviabilizar o futuro do Brasil é uma fórmula secreta, exclusivíssima, que certamente só a Cnesf possui. Que Lula chame, então, com urgência, o grande Paulo Martins para resolver esse enrosco.

Mão pra lá, mão pra cá

Esta é de testemunha ocular, e explica a pequena confusão de mãos ocorrida entre o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, no encontro entre ambos, na terça-feira, 10, no Salão Oval da Casa Branca.

Depois de os dois se cumprimentarem, Bush se preparava para sentar-se em sua poltrona diante da lareira para o começo da conversa formal quando, num gesto de cortesia, indicou com a mão a outra para Lula sentar-se.

Já meio inclinado, o presidente eleito entendeu que aquela mão esticada perto da dele se destinava, quem sabe, a um novo cumprimento, já que os fotógrafos, espremidos a um canto do Salão Oval, tiveram poucos segundos para o primeiro shake hands, e não teve dúvida: apertou de novo.

É por isso que o Tutty Vasques está certo: “Faltou intérprete na hora do aperto de mãos entre Lula e Bush. Os dois custaram a entender onde o outro queria pegar ao estender o braço. Por pouco o cumprimento não dá errado.”

Trombadas

Por alguma razão não se especula sobre quem ocupará a Secretaria Nacional Antidrogas, atualmente acumulada pelo ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso. De todo modo, um ex-graduado do Palácio do Planalto lembra que o cargo é espinhoso por razões administrativas e políticas:

– O sujeito lá tromba com o ministro da Justiça, tromba com a Polícia Federal, poderá trombar com o ministro-chefe da Segurança Institucional, se continuar subordinado a ele, e, como se não bastasse, tromba com a embaixada americana.

Caminhadas matinais (1)

Como mora em Brasília no Lago Sul, verdadeiro viveiro de figurões do governo e da política, o ex-presidente e senador José Sarney (PMDB-PA) se encontra com meia República em suas caminhadas matinais.

Costuma cruzar rota, por exemplo, com o ministro da Fazenda, Pedro Malan.

Caminhadas matinais (2)

Já em São Paulo, costumam cruzar caminhos no Parque do Ibirapuera dois poderosos de outras eras: Gustavo Loyola, presidente do Banco Central entre 1992 e 1993 (governo Itamar Franco) e entre 1995 e 1997 (governo FHC), e Lafaiete Coutinho, presidente da Caixa Econômica Federal entre 1991 e 1992 (governo Fernando Collor).

FHC no “eixo do mal”

As relações entre Lula e o contestado presidente da Venezuela, exageradas como “amizade”, volta e meia ameaçam embaraçar o presidente eleito – como aconteceu durante sua visita a Washington –, mas a verdade é que, em matéria de aproximação ideológica com o grupo de Hugo Chávez, o pioneiro, com décadas de antecedência, não é Lula, mas o presidente Fernando Henrique Cardoso. (Para conferir a relação que a direita religiosa republicana dos Estados Unidos faz entre Lula, Chávez e um suposto “eixo do mal” na América Latina, clique à direita em “O foco da demonização dos sapos barbudos”).

O sociólogo FHC, quando presidia o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), fundado em 1969, mantinha excelentes relações pessoais com um organismo semelhante na Venezuela, o Centro de Estudos del Desarollo (Cendes), e com vários de seus pesquisadores, todos de esquerda, como os economistas Fernando Travieso e José Augusto Silva Michelena e o sociólogo alemão Heinz Sonntag.

Faziam parte ou eram próximos do Cendes vários dirigentes do Movimiento al Socialismo (MAS), o partido de esquerda surgido das guerrilhas que, durante o primeiro dos dois mandatos do presidente Rafael Caldera (1968-1973), depuseram as armas. Um dos dirigentes do MAS, Teodoro Petkoff, amigo de FHC, tinha sido dirigente guerrilheiro e viria a ser ministro do Planejamento do segundo governo Caldera (1993-198). E o dirigente histórico do MAS Vicente Rangel é, hoje, o vice-presidente de Hugo Chávez.

Copom e inflação

Análise do economista-chefe do Banco Fibra (grupo Vicunha), Guilherme da Nóbrega, sobre os índices de custo de vida levantados pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da USP para a última semana de novembro (chamada pelos tecnocratas de “quadrissemana”), de 2,65%, e para a primeira de dezembro, 2,60%: “O ligeiro recuo do IPC-Fipe não significa que o Copom possa abrir mão de elevar juros na sua reunião da semana que vem. Sugere, apenas, que a inflação não está em aceleração permanente e explosiva”.

Nóbrega, jovem economista já respeitado por sua formação e atuação, é filho do ex-ministro da Fazenda e consultor Mailson da Nóbrega.

Natal made in Brazil

A alta do dólar bateu duro, duríssimo, nas importações feitas pelos supermercados. Segundo o empresário gaúcho João Carlos de Oliveira, que assume em janeiro a presidência da Associação Brasileira de Supermercados, em 1998 – auge da farra da importação –, 4% de tudo o que era colocado nas gôndolas vinha de fora.

Os índices foram caindo a partir da adoção da política de câmbio flutuante, no começo de 1999, e no final de 2001 já tinham desabado para 1,5%. Este ano, calcula, apenas 1% do que os supermercados vendem é importado, aí incluídos os tradicionais itens do cardápio de final de ano. Oliveira prevê:

–Teremos o Natal mais nacional dos últimos anos.

Salamaleque a ACM

Com a aparentemente certa nomeação do advogado Márcio Thomaz Bastos para o Ministério da Justiça, Lula pode não ter tido a intenção, mas de quebra fará um salamaleque ao senador eleito Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Thomaz Bastos, ligado a Lula desde pelo menos 1989, também é, mais que advogado de ACM, seu conselheiro.

Quando da renúncia de ACM à presidência do Senado em conseqüência do escândalo do painel eletrônico de votação, em maio do ano passado, Thomaz Bastos passou três dias inteiros em Brasília ao lado do senador, e foi quem revisou o discurso com que o senador jogou a toalha e voltou – temporariamente, como se viu – para a Bahia.

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