Artigo de 2002: Luta de vida ou morte para Quércia

Artigo de 2002: Luta de vida ou morte para Quércia Quércia faz campanha para o Senado em 2002 (Reprodução: Vimeo)

E mais: Delfim Neto e seu recorde pessoal, a intimidade de Lula e ACM, as gravatas de Sergio Amaral e Genoíno, governadores eleitos no primeiro turno, derrota do PMDB em Goiás, Coronel Ubiratan candidato e o casamento de Ana Paula Padrão

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Tudo bem que há coisas mais importantes em jogo nas eleições deste domingo. Mas vale a pena prestar atenção à disputa em São Paulo, e não apenas à de governador. A luta pelo Senado também é interessante.

Nela, o ex-governador Orestes Quércia (PMDB) está empenhado numa luta de vida ou morte pela sobrevivência política e, junto com ela, pela sobrevida do quercismo, fenômeno cujas linhas gerais lembram o estilo do ex-governador Newton Cardoso em Minas: controle férreo do partido, sobretudo no interior, populismo, muita obra pública, muita gastança, muita acusação de corrupção por parte dos adversários e um belo déficit nas contas públicas a ser deixado para os sucessores.

Quércia irrompeu com barulho no cenário nacional nas célebres eleições de 1974 em que o regime militar foi derrotado, na disputa pelo Senado, em 14 dos então 22 Estados. Mesmo sendo um desconhecido ex-deputado estadual e ex-prefeito de Campinas, massacrou nas urnas uma instituição – o respeitadíssimo senador pela Arena Carlos Alberto de Carvalho Pinto, ex-governador (1959-1963), ex-ministro da Fazenda (1963) e paulista de nobre extirpe quatrocentona, sobrinho-neto do presidente Rodrigues Alves (1902-1906).

Eleito, Quércia foi um senador medíocre, preferindo voltar-se com energia à construção do MDB em todo o Estado. Essa estratégia tornou-o forte o suficiente para integrar, como vice, a chapa que levou ao governo em 1982 o senador Franco Montoro, já no PMDB.Vice-governador, continuou cevando diretórios municipais. Na eleição de 1986, saiu candidato à sucessão de Montoro, derrotou Paulo Maluf (PDS, hoje PPB) e o empresário Antônio Ermírio de Moraes (PTB) e chegou ao Palácio dos Bandeirantes.

Fez um governo frenético em obras, mas polêmico nos métodos o suficiente para que toda a ala histórica do PMDB, à frente Montoro e Mário Covas, deixasse o partido e, junto com outros líderes como Fernando Henrique Cardoso, Pimenta da Veiga (MG) e José Richa (PR), fundasse o PSDB. Como governador, teceu uma rede de influência e amizades por todo o país, numa eclética combinação que incluía intelectuais de esquerda e o empresário Roberto Marinho. Contra todas as previsões, conseguiu em 1990 eleger como sucessor seu obscuro secretário de Segurança, Luiz Antônio Fleury Filho (hoje deputado pelo PTB). Teria proferido a célebre frase:

— Quebrei o Banespa [banco do estado, hoje privado], mas elegi o Fleury.

Fora do poder, acabou rompendo com Fleury e aos poucos viu o PMDB paulista ser sugado pelas lideranças tucanas e também pelo malufismo – a ponto de hoje ser um partido de grotões, sem governar nenhuma cidade importante. Foi candidato a presidente em 1994, mas teve votação ridícula – quinto lugar, menos de 5% dos votos e abaixo de Enéas. Em 1998, tentou voltar ao governo de São Paulo, e amargou novo quinto lugar.

Agora, joga todas as fichas na eleição para senador. Tomou de assalto o horário eleitoral do PMDB, aparecendo nos horários do candidato a governador, deputado Lamartine Posella, cuja única função na campanha foi servir de “escada” para Quércia. Apareceu, claro, no horário destinado aos candidatos ao Senado. E, “indicando” candidatos, sendo indicados por eles ou figurando, ao fundo, em imagens na tela, ocupou também os horários dos candidatos a deputado estadual e federal.

Mesmo assim, disputa voto a voto a segunda vaga de senador com o deputado Aloizio Mercadante (PT), que teve migalhas no horário eleitoral. O instituto Datafolha registra um empate entre Mercadante e Quércia. O Ibope já dá o petista com sete pontos de vantagem, e subindo. De camarote, assiste à briga o senador Romeu Tuma (PFL), virtualmente reeleito para a primeira vaga com apoio do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Números de Delfim

Amigos do deputado Delfim Netto (PPB-SP) estão animados. Acham que ele supera domingo os 177 mil votos que teve nas eleições de 1998. O número de Delfim no PPB facilita: é 1111.

Intimidade

Um ou outro telefonema trocado no curso da disputa eleitoral com o ex-senador Antônio Carlos Magalhães foi suficiente para perceber que Lula chama o cacique baiano de “Antônio Carlos” e de “você”.

O presidenciável do PT, assim, figura na raríssima categoria das pessoas que não tratam ACM de “senhor” e “senador”, à qual não pertencem sequer os dois ex-governadores da Bahia que, com ele, compõem a atual chapa do PFL: Paulo Souto, candidato ao governo, e César Borges, candidato ao Senado.

Fashion news (1)

O nó da gravata do ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, é o maior de toda a Esplanada dos Ministérios.

Desde o fim do regime militar, só é batido em tamanho pelo vasto repolho com que o ex-ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal Paulo Brossard enfeitava o pescoço.

Via rápida 

As últimas pesquisas confiáveis de intenção de voto permitem dizer que pelo menos dez dos 27 governadores de Estado serão eleitos no primeiro turno. Desses, quatro concorrem à reeleição e já estão com a mão na taça: Jorge Viana (PT-AC), Marconi Perillo (PSDB-GO), Zeca do PT (MS) e Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE).

Os demais são o presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves (PSDB-MG), o ex-governador e atual senador Paulo Souto (PFL-BA), o ex-prefeito de Manaus Eduardo Braga (PPS-AM), o atual senador e ex-prefeito de Vitória Paulo Hartung (PSB-ES), o ex-governador João Alves (PFL-SE) e o deputado estadual Marcelo Miranda (PFL-TO).

Poderão vencer no primeiro turno outros sete candidatos a governador — mas, esta altura, é arriscado apostar todas as fichas nisso, a começar pelos casos de Rosinha Garotinho (PSB-RJ), Joaquim Roriz (PMDB-DF) e Lúcio Alcântara (PSDB-CE). Eles lideraram com folga e maioria absoluta de intenções de votos durante quase toda a campanha, mas viram essa distância encurtar nesses dias finais. Só as pesquisas divulgadas na véspera e no dia da eleição vão permitir uma resposta.

Vassalagem eleitoral

Se se confirmarem as pesquisas de intenção de voto em Goiás, o PMDB estará sendo punido pela segunda vez consecutiva por um ato de vassalagem eleitoral ocorrido em 1998.

O então governador (hoje senador) Maguito Vilela podia ser candidato à reeleição, com excelentes chances para seu partido. Tão boas que Maguito, compreensivo, concordou em não concorrer, cedendo a vaga de candidato – e, pensava-se, automaticamente também a de governador eleito – a seu mentor e cacique histórico do PMDB, o hoje senador e ex-governador Íris Rezende.

Pois bem, Rezende foi surpreendido com a ida para o segundo turno do desconhecido deputado tucano Marconi Perillo, e acabou sendo derrotado. Maguito se elegeu senador e, este ano, está tentando voltar ao governo. As pesquisas indicam que ele será derrotado por Perillo já no primeiro turno.

Como senador, Maguito foi o responsável pelo que o jornalista Juca Kfouri chama de “estupro” na Lei Pelé – com emenda que eliminou a obrigatoriedade de os clubes de futebol se tornarem empresas, medida que os especialistas consideram indispensável à moralização do futebol.

Bem feito, portanto, que perca de novo nas urnas.

Fashion news (2)

O deputado José Genoino, ex-guerrilheiro e candidato do PT ao governo de São Paulo, aderiu às clássicas regimental ties – gravatas “listradas, que originalmente respeitavam as cores das escolas ou dos regimentos britânicos”, como ensina a inigualável Glorinha Kalil em seu livro Chic Homem (Editora Senac).

Livre, leve, solto e candidato

Você se lembra do massacre do Carandiru — dia em que 111 presidiários na Casa de Detenção de São Paulo foram mortos pela tropa de choque da PM, em outubro de 1992? O comandante daquela ação da PM, coronel Ubiratan Guimarães, foi condenado nove anos depois, por decisão unânime dos jurados, a 632 anos de prisão pela morte de 102 dos 111 presos e por cinco tentativas de homicídio.

Pois bem, o coronel Ubiratan está livre, leve e solto — aguardando o julgamento em liberdade, graças às maravilhas legais de Pindorama, segundo as quais qualquer criminoso condenado a pena superior a 20 anos tem, automaticamente, direito a um novo julgamento. Agora, como se não bastasse, ele também é candidato a deputado estadual.

Em nome da coligação que apóia Paulo Maluf (PPB) para o governo estadual, o coronel usa o horário eleitoral gratuito para esculhambar a política de segurança do governador tucano Geraldo Alckmin.

Melhor perder

De um ex-ministro da Fazenda pós-regime militar sobre a perspectiva de uma vitória do PT na corrida presidencial:

— A melhor coisa que poderia acontecer ao Lula seria perder a eleição. Governar vai destruir a biografia dele.

O sino da Ana Paula

Esta provavelmente nem Ana Paula Padrão, apresentadora do Jornal da Globo, saiba. Ana Paula se casou no dia 21 de setembro, na cobertura em que vive com o marido, no elegante bairro da Vila Nova Conceição, em São Paulo. Para incrementar o charme da cerimônia, o marido, o empresário Walter Brasil Mundell, conseguiu fazer com que o padre da vizinha igreja de São Dimas excepcionalmente fizesse repicar os sinos fora de hora –às seis e meia da tarde, quando o casamento começou.

Foi uma beleza, uma emoção a mais – ainda que os sinos de São Dimas não existam. A igreja recorre a som de badalos gravados, que vão ao ar via um amplificador de som instalado na torre.

 

 

 

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