Mario Vargas Llosa, o grande escritor peruano, encantou e arrebatou no “Roda Viva” da TV Cultura que foi ao ar a 19 de dezembro de 1994. Então dirigindo a Playboy, participei da bancada ao lado de Jorge Schwartz (USP), Claudinei Ferreira (CBN), Fábio Lucas (União Brasileira de Escritores), Hamilton dos Santos (Vogue/Marie Claire), Matinas Suzuki (Folha de S. Paulo), Geraldo Galvão Ferraz (Jornal da Tarde) e a tradutora Heloísa Jahn. A apresentação foi de Heródoto Barbeiro.

Os temas abordados foram vários, incluindo política, vida privada e, claro, literatura (“os grandes romances costumam ser produzidos em sociedades que estão profundamente convulsas”, apontou).

A partir de uma questão minha, Vargas Llosa atacou, com veemência, o conceito de nacionalismo. “É um patriotismo obrigatório, imposto pelo poder a partir do preconceito e da convenção social”, afirmou. “É um sentimento absolutamente negativo. O nacionalismo não se faz para afirmar algo, mas para rejeitar o que é de fora, parte de um complexo de insegurança diante do outro, do desconhecido, do estranho. É o espírito da tribo, o espírito primitivo, que está por trás das guerras, da intolerância”.

O escritor explicou, quando indagado por mim sobre seu pedido da nacionalidade espanhola, que temia ter seus direitos como peruanos cassados por seu principal rival político, o ditador Alberto Fujimori. Contou, ainda, que sofria perseguição do governo peruano, que teria inventado uma dívida sua relacionada a imposto de renda. “É um indício do que costumam fazer as ditaduras contra os seus críticos”, resumiu. Também falou do alívio por ter perdido as eleições presidenciais para Fujimori, em 1989: “pude voltar a ler”.

Outra das perguntas que lhe fiz referia-se a tema sensível: ele conheceu o pai somente aos 10 anos de idade, e teve com ele uma relação dificílima, inclusive por se opor ferozmente à vocação literária do filho, que considerava uma excentricidade, um absurdo, algo que não levaria a lugar algum.

Perguntei-lhe se seu enorme sucesso como escritor conferiu satisfação e alegria a seu pai .

A resposta é comovedora: “nunca soube”.

(Assista à íntegra dessa ótima entrevista aqui.)

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