Atenção, leitor: você que adora A Voz do Brasil, o interessante acompanhamento de eventos apaixonantes como os trabalhos da Delegacia Regional do Ministério da Educação no Piauí ou as últimas decisões da Cobal; você que não perde, depois deste apetitoso programa de uma hora, mais meia hora com uma aula sobre a geografia do Afeganistão no “Projeto Minerva”; você que, quando tem algum compromisso no mesmo horário, deixa gravando para ouvir depois A Voz da Constituinte e que acorda mais cedo, às sextas-feiras, para emocionar-se até as lágrimas com a Conversa ao Pé do Rádio do presidente José Sarney, você vai ter mais com que se deleitar – dessa vez na televisão.

Tudo isso graças ao diligente deputado Maurílio Ferreira Lima, do PMDB de Pernambuco. Ele acha que todos nós, ouvintes de rádio, temos muito poucas informações obrigatórias vindas do generoso foco irradiador que é o Estado brasileiro. Assim sendo, apresentou um projeto que percorre os escaninhos da Câmara dos Deputados, em Brasília, estabelecendo que as emissoras de televisão terão permanentemente que conceder cinco minutos diários para os trabalhos de divulgação da Câmara e do Senado.

Tudo com a tradicional garantia de qualidade da Empresa Brasileira de Notícias, que agora mudou o nome para Empresa Brasileira de Comunicação. Isto quer dizer que, também na televisão, poderemos ter as sedutoras vozes femininas que enfeitam nossos rádios e as vozes masculinas que o Cid Moreira queria ter, mas não tem. Sem contar o texto esplêndido, que eleva os corações dos ouvintes e passará a enriquecer-lhes, também, a memória visual. Um deslumbre.

Se você, porém, tem um padrão informativo diferente e prefere, por exemplo, ouvir os noticiários das emissoras privadas, feitos por essa gente que insiste em chatear o governo em busca de informações que são do interesse dos cidadãos, mesmo que desagradem ao governo – os jornalistas que não têm emprego público –, ou, então, caso você seja detentor de outros padrões estéticos (quem sabe você gosta mais do visual da apresentadora Leila Richers, da Manchete, ou da Dóris Giesse, da Bandeirantes) e prefira não se render às maravilhas visuais que o jornalismo do Serviço de Divulgação da Câmara e do Senado pretendem nos oferecer, talvez não fique tão feliz.

Se você é jornalista, então, sinta-se publicamente atingido – porque o projeto do deputado tem como mensagem implícita a afirmação de que as centenas desses profissionais que ganham seus salários cobrindo as atividades da Câmara e do Senado estão desempenhando mal sua tarefa, tão mal que é preciso ter jornalistas pagos pelos cofres públicos para contar, em horário compulsório, o que deputados e senadores andam fazendo em Brasília.

Podemos imaginar o grau de isenção que teriam os noticiosos assim produzidos, porque a verdade é que as atividades dos congressistas têm que ter relevância para virar notícia. Se não são notícia, ou se constituem notícias que não agradam aos ilustres parlamentares, eles que mudem de conduta. Não é concebível que haja uma conspiração nacional de jornalistas de todos os cantos do país para ignorar o Congresso ou, quando é o caso, dele falar mal sem razão.

Quando esteve em São Paulo, há um ano, para o proveitoso Encontro Internacional de Jornalismo patrocinado pela IBM, o diretor de jornalismo da Canadian Broadcasting Corporation, William Morgan, mostrou-se perplexo com a incapacidade que boa parte dos brasileiros interessados no assunto manifestaram de distinguir entre uma televisão pública, como é o caso da CBC, e uma televisão estatal. A televisão pública, tal como é concebida em países como a Austrália, a Grã-Bretanha ou o Canadá, é aquela mantida em boa parte por fundos públicos, mas cuja composição de quadros e programação são decididos por profissionais independentes, sem qualquer vínculo com o governo e que constantemente criticam, esquadrinham e desnudam os governantes e suas mazelas. 

[Já] a emissora estatal é aquela em que, como ocorre no Brasil, o governo, por pagar a conta, quer transformar em agência de propaganda. A diferença pode ser dramatizada com uma história que Morgan contou na ocasião. Ele participava de um encontro de emissoras do Commonwealth britânico quando começou uma grande discussão sobre liberdade editorial. Lá pelas tantas, o diretor da emissora de uma pequena ex-colônia britânica, governada, como é de praxe, por um regime de partido único, pegou o microfone e decretou: “Bem, senhoras e senhores, devo dizer-lhes que eu pessoalmente nunca tive qualquer dificuldade para saber o que devo pôr no noticiário. O primeiro-ministro me telefona toda manhã e me diz.”

Tratava-se, sem dúvida, de uma emissora estatal. Já uma emissora pública, como a BBC de Londres, é outra coisa. Basta lembrar que depois da guerra das Malvinas, em 1982, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, insatisfeita com a cobertura proporcionada pela emissora, que considerou em alguns casos prejudicial aos interesses britânicos, ao invés de tentar alternativas impensáveis num país civilizado, como demitir a direção da emissora ou cortar as verbas que ela recebe do parlamento, pediu – a palavra é exatamente esta – que ouvintes e telespectadores escrevessem cartas de protesto à BBC.

Quem sabe o deputado Ferreira Lima não comece a se interessar por casos assim e, ruborizado de vergonha, retire correndo seu projeto?

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Documento original © Reprodução; Ilustração: Nicoliéllo

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