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A sede do jornal “The Washington Post”: interesses do proprietário com a CIA devem ser revelados, exige ONG (Foto: Saul Loeb / AFP / Getty Images)

Nesta quarta-feira, 15, milhares de pessoas pretendem se concentrar em frente à sede do The Washington Post, no coração da capital dos Estados Unidos, a cinco quadras dos fundos da Casa Branca, para protestar contra “um poderoso jornal agora de propriedade de um multibilionário com grandes vínculos financeiros com a CIA”, a agência de inteligência e espionagem do governo norte-americano.

Trata-se de uma iniciativa da ONG pró-direitos civis RootsAction, que encaminhou ao jornal um documento com 32 mil assinaturas exigindo que o Post — um dos jornais mais respeitados e influentes do mundo — seja “inteiramente transparente com seus leitores a respeito do fato de que seu novo proprietário, Jeff Bezos, é o fundador e principal executivo da Amazon, a qual recentemente assinou um contrato de prestação de serviços com a CIA no valor de 600 milhões de dólares”.

No final de 2013, a Amazon venceu uma concorrência para construir um sistema computadorizado de armazenamento de dados em nuvem para a CIA.

O editor executivo do jornal, Martin Baron, rebateu a proposta da ONG, dizendo que ela vai “muito além das normas sobre conflitos de interesses em organizações de mídia”.

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Martin Baron, editor executivo do “Post”: jornal vem cobrindo sem limitações as atividades da CIA e outras agências (Foto: El Tiempo / Colômbia)

O jornalista acrescentou que as regras éticas seguidas pelo Post estão “entre as mais rigorosas” que existem no universo da imprensa, e que são “rigorosamente cumpridas”. Lembrou, ainda, que o jornal tem “rotineiramente” revelado conflitos de interesses “quando eles são relevantes” para as coberturas que realiza. Como exemplo, Baron cita que o jornal publicou matérias sobre os esforços da Amazon para obter o contrato com a CIA e os planos de Bezos para comprar o próprio jornal da família Graham, o que ocorreu em agosto do ano passado. (Leia a respeito aqui.)

Na tentativa de contestar as críticas sobre a postura do jornal, Baron esclareceu ainda que o Post tem sido “muito agressivo” em sua cobertura sobre a comunidade de inteligência, incluindo a CIA, a National Security Agency (NSA) — que, como se sabe, vinha espionando ilegalmente milhões de cidadãos americanos, além de chefes de Estado estrangeiros, como a presidente Dilma Rousseff — e outras agências.

Além de haver se destacado na cobertura das irregularidades da NSA, sustentou Baron, o jornal, mais recentemente, mostrou o envolvimento secreto da CIA na luta do governo colombiano contra os narcoguerrilheiros das chamadas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Assegurou, ainda, que nem a Amazon nem o próprio Bezos estiveram envolvidos — “nem jamais estarão” — na cobertura do jornal sobre a comunidade de informações.

A ONG, porém, insiste, em seus comunicados e convocações, que “não há nada normal na situação envolvendo a CIA, a Amazon, Bezos e The Washinigton Post — ou, pelo menos, não deveria haver”. Portanto, a exigência que os manifestantes pretendem fazer é a contida na petição: “A cobertura de The Washington Post sobre a CIA deveria sempre incluir a informação de que o único proprietário do jornal é também o principal acionista da Amazon — e que a Amazon vem atualmente obtendo enormes lucros diretamente da CIA”.

Uma bela discussão sobre ética e imprensa. A ver como continuará.

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6 Comentários

mmmmiau em 22 de janeiro de 2014

Putin e Xi Jimping nao tem esse problema.

JT em 15 de janeiro de 2014

Caro Setti, Me perdoe sair do tema, mas gostaria de compartilhar com você um texto que acabo de escrever sobre o que podemos aprender com os Shoppings, do ponto de vista urbanístico: http://www.jeantosetto.com/2014/01/shopping.html Grato!

Heleno Chagas em 15 de janeiro de 2014

Rosana Pinheiro-Machado é professora de Antropologia do Desenvolvimento na University of Oxford, UK, no Departamento de Desenvolvimento Internacional. Cientista social, doutora e pós-doutora em Antropologia pela UFRGS. Em 2012/2013, foi pesquisadora visitante da Universidade de Harvard no Fairbank Center for Chinese Studies. Em 2008, fez estágio doutoral na University College London (UCL), onde foi pesquisadora visitante em 2008. Entre 2010 a 2013, lecionou na graduação e pós-graduação da ESPM Sul, onde também coordenou área de pesquisas e publicações. Colabora como docente do Studio Clio, desenvolvendo atividades como cursos e missões culturais à China.

antropóloga Rosana Pinheiro-Machado em 15 de janeiro de 2014

Rosana é cientista social e antropóloga. Professora de Antropologia do Desenvolvimento da Universidade de Oxford. Escreve sobre a China, o Brasil, os BRICS e os países emergentes e em desenvolvimento em geral

Sergio G em 15 de janeiro de 2014

Tem gente que não tem mesmo o que fazer... Que falta faz um trabalho honesto...

PRDM em 14 de janeiro de 2014

Acho um tanto cretina e "jogar para torcida" as alegações desta ONG que, se for devidamente investigada, vamos descobrir que tem um bando de esqueletos nos armários. Todos conhecem, foram amplamente noticiadas, comentadas e esmiuçadas todas as fases destes negócios. Em segredo correm os financiamentos das ONGs em geral e, com o nível de loucura que grassa no mundo, com as práticas terroristas sendo aceitas e apoiadas e até incentivadas por boa parcela da população mundial, a vítima, em última analise, destas práticas, nenhum pais sério pode descartar a vigilância intensa como arma de defesa de seu território e interesses. O PT, a govrnNTA e seu criador são amiguinhos de cama e mesa das FARCs, a guerrilha, narcotraficante e terrorista, têm mesmo que ser muito vigiados! Esta ONG está provocando engasgos com moscas e engolindo manadas de elefantes!

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