Artigo de 2004: Mantega pode desiludir os “desenvolvimentistas”

Artigo de 2004: Mantega pode desiludir os “desenvolvimentistas” Guido Mantega, em imagem de março de 2004 (Foto: Agência Brasl)

E também: Monica Bergamo perto de Veja, os não-cumprimentos a Marta, polêmica sobre a anistia dos Capiberibe, Dida sobe no ranking de jogos pela Seleção, a omissão de Gil em leilões importantes, Sarney plagiando Elio Gaspari – e FHC e a ABL

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Os “desenvolvimentistas” dentro e fora do governo e do PT que imaginam ter um aliado no novo presidente do BNDES, Guido Mantega, deveriam ir devagar com o andor. É bom lembrar que Mantega, ainda como principal assessor econômico do candidato Lula, em 2002, teve um importante papel nas discussões que a equipe do hoje presidente da República travava a respeito de um tema tabu para o petismo tradicional e que os “desenvolvimentistas” demonizam: a autonomia operacional do Banco Central.

A idéia vinha sendo discutida dentro de um pacote de propostas destinadas a acalmar o chamado “mercado” diante da perspectiva dos sapos barbudos do PT chegarem ao poder. E tomou forma dois meses antes da eleição presidencial, em agosto, em Londres, uma das escalas – a outra foi Frankfurt, na Alemanha – da viagem feita por Mantega com o objetivo de avistar-se com diversos investidores europeus interessados na cena brasileira e nos propósitos do provável governo petista, com agenda organizada pelo Deutsche Bank.

Em Londres, o hoje presidente do BNDES participou de longas reuniões com diretores do Bank of England, o BC do Reino Unido, para entender e ver de perto seu funcionamento. Fez anotações e trouxe consigo vasto material a respeito. O Bank of England adquiriu autonomia operacional em seguida à primeira vitória eleitoral do primeiro-ministro trabalhista Tony Blair, em 1997, e os resultados de seu trabalho a partir de então são considerados excelentes.

Relato a Lula

De volta, Mantega apresentou um relato entusiástico do que viu e ouviu a Lula. Também levou as informações às reuniões realizadas periodicamente pelos hoje ministros Antônio Palocci, da Fazenda, e José Dirceu, da Casa Civil, com o grupo de economistas que colaborou com o programa econômico do PT, entre os quais o ex-ministro do Planejamento João Sayad, os professores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Ricardo Carneiro, Luiz Gonzaga Belluzzo e Luciano Coutinho e, quando a campanha eleitoral permitia, o economista e agora senador Aloizio Mercadante (PT-SP).

Monica Bergamo na mira de Veja

Por um triz a revista Veja não rouba da Folha de S. Paulo a colunista Monica Bergamo. A intervenção do diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, e uma promoção derrubaram a proposta de Veja.

O vôo solitário de Marta

Tem sabor amargo, pelo jeito, a vida pós-derrota eleitoral. Que o diga a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Em sua última viagem a Brasília, ela foi um dos últimos passageiros a embarcar no vôo das 20h20 da TAM para São Paulo. De tailleur, colar de contas, colo discretamente à mostra, estava só, e só permaneceu o tempo todo, numa poltrona do corredor, na parte central do avião, com um assento vago entre ela e o passageiro da janela.

Durante o vôo, Marta leu um pocket book e, embora o Airbus estivesse lotado, um único passageiro dirigiu-lhe um cumprimento.

Era a favor, ficou contra

Mais sobre Marta: a chateação da corrente majoritária do PT com seu discurso na recente reunião do Diretório Nacional do partido não se refere apenas ao fato de que a prefeita incluiu a política econômica do governo Lula como uma das causas de sua derrota para José Serra (PSDB) nas eleições de outubro. Tem a ver, adicionalmente, com a circunstância de que, até então, Marta se declarava ferrenha defensora dos rumos econômicos do governo.

Nem por cortesia

Entre os que não cumprimentaram a prefeita estava a deputada Zulaiê Cobra Ribeiro (PSDB-SP).

Anistia e imoralidade

O Senado só retirou de sua pauta de votações o projeto de lei que concede anistia ao senador João Capiberibe (PSB-AP) e à sua mulher, deputada Janete Capiberibe (também PSB-AP), cassados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob a acusação de compra de votos nas eleições de 2002, porque uma liminar em mandado de segurança concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) manteve os dois parlamentares nos postos até decisão final do caso pelo plenário da Corte.

Nem por isso o projeto, apoiado por 42 dos 81 senadores, deixa de ser absurdo e imoral. O fato dos Capiberibe terem sido presos políticos (1970-1971) e exilados (1971-1979) durante o regime militar ou a coragem do senador em combater o crime organizado infiltrado nos três Poderes do Estado durante seu mandato de governador do Amapá (1995-2003) não têm nada a ver com uma decisão soberana da Justiça.

FHC cedeu em caso parecido

Se o Supremo mantiver a condenação do casal e o projeto for reapresentado e, como manda o corporativismo do Congresso, chegar a ser aprovado, olho no que fará o presidente Lula.

Confrontado com caso semelhante logo no início de seu primeiro mandato, em 1995 – o recém-reeleito senador Humberto Lucena (PMDB-PB) tivera seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral por uso da Gráfica do Senado para imprimir propaganda eleitoral –, o presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) cedeu ao corporativismo e a argumentos em prol da “governabilidade” e sancionou o projeto do Congresso que anistiava Lucena. (O senador viria a falecer em 1998).

Sem essa

Eleito, entre outras coisas, para fazer uma diferença moral na política brasileira, FHC começaria, ali, a abandonar na prática essa causa.

A fala do embaixador

Interlocutores recentes do embaixador da China no Brasil, Jiang Yuande, saem das conversas impressionados com seu português corretíssimo, fluente – e de leve sotaque levemente.

Dida sobe na tabela

Com o pentacampeão Marcos fora de combate e, portanto, dos planos do técnico Carlos Alberto Parreira, o goleiro Dida vem escalando aos poucos a tabela dos craques que mais vezes atuaram pela seleção brasileira de futebol. Na derrota por 1 a 0 para o Equador, no dia 17 passado – em que tomou um gol indefensável –, Dida completou 72 partidas pela seleção e, com isso, ultrapassou as 71 de Zico.

Ele já deixara para trás o grande Gerson (70 jogos) e Júnior (69). Agora, é o 15º atleta que mais defendeu a seleção principal, ao lado de Branco.

O Palmeiras em números

É ouro puro, para torcedor de futebol de qualquer time, o recém-lançado “Almanaque do Palmeiras” (Editora Abril), dos jornalistas Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti. Em 546 páginas, é possível encontrar praticamente tudo sobre o Verdão – fichas técnicas de todos os 4.954 jogos desde a fundação do clube, em 1914 (até a partida Palmeiras 1 x Cruzeiro 3, no dia 7 de setembro passado), biografias dos 1.264 jogadores que vestiram a camisa nesses 90 anos, total de troféus, relação completa de adversários, principais artilheiros – e por aí vai.

O “Almanaque” informa o jogador que mais atuou pelo Palmeiras em sua história: o hoje vereador eleito pelo PC do B em São Paulo Ademir da Guia, com impressionantes 901 partidas entre 1962 e 1977. Embora atuasse no meio de campo, o “Divino” é também o terceiro maior artilheiro do clube, com 153 gols, atrás apenas do centroavante Heitor (1916-1931), com 284 gols, e do centroavante César “Maluco” (1967-1984), com 180.

Fim do mistério?

Agora que Frei Betto anuncia que deixará o governo, talvez se esclareça o que, afinal, ele fazia no Palácio do Planalto.

A Justiça Militar escapou

Apesar de incompleta, a reforma do Judiciário recém-aprovada pelo Congresso vem recebendo um número maior de aplausos do que de críticas: a possibilidade de o STF abrir mão de julgar causas de pequeno interesse social vai desafogar seus trabalhos, a súmula vinculante – mecanismo segundo o qual os tribunais e juízes devem, em casos julgados repetidamente pelo Supremo, decidir conforme a orientação da corte – trará maior agilidade e previsibilidade à Justiça, a quarentena de três anos para juízes aposentados poderem advogar no tribunal ou vara em que trabalhavam é moralizadora etc.

Mas a Justiça Militar – que, além de cara e desnecessária, é obsoleta e absurda num Estado democrático moderno – escapou novamente da extinção, como já ocorrera, entre outras ocasiões, durante a Constituinte (1987-1988).

Nem pensar

É sonho de uma noite de verão de setores do PT imaginar que o presidente Lula possa tirar do cargo o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.

Para onde vai a História

Está certo que o Ministério da Cultura mal tem dinheiro para suas despesas do dia-a-dia. Investimento, então… Mas bem que o ministro Gilberto Gil poderia encarregar alguém de pelo menos estar presente em grandes leilões em que se apregoa, de alguma forma, parte da memória nacional que em outros países estaria em museus e outras instituições públicas.

Entre os dias 9 d 11 passados, por exemplo, o leiloeiro Luiz Fernando Moreira Dutra, de São Paulo, passou adiante uma imponente coleção de louça e cristais utilizados por D. João VI, D. Pedro I, a imperatriz D. Amélia, D. Pedro II, a princesa Isabel e um grande número de personalidades do Império, a começar pela Marquesa de Santos.

Portinari, Di, Djanira…

Por falar em leilão, nada menos que 37 desenhos de Portinari estarão sendo passados adiante pelo martelo do leiloeiro Roberto Castello nos dias 30, 1º, 2 e 3 próximos, à Rua Colômbia, 157, em São Paulo. De quebra, óleos de Di Cavalcanti, Eliseu Visconti, Cícero Dias e Djanira, entre outros.

Involuntário, mas plágio

Em recente artigo na “Folha de S. Paulo” em que canta as maravilhas do livro, o senador José Sarney (PMDB-AP) afirma que, às previsões de morte do livro diante do progresso dos meios eletrônicos, responde “que o livro nunca acabará, porque ele é a maior das descobertas tecnológicas: cai e não quebra, não precisa de energia e, portanto, de ligar ou desligar. Pode ser levado para qualquer lugar, banheiro ou cama, com o que certamente os monitores de televisão não concorrem”.

O ex-presidente pode não saber que cometeu plágio involuntário, mas suas considerações são quase literalmente idênticas às feitas pelo jornalista Elio Gaspari em palestra a alunos do Curso Abril de Jornalismo em Revistas, em fevereiro de 1993, em São Paulo.

A Varig e a fome

Se houvesse no Congresso tantos deputados e senadores preocupados com a fome quantos são os que se empenham, em discursos, reuniões e outras manifestações, a defender uma solução para a situação pré-falimentar da Varig, cada brasileiro já estaria comendo três refeições por dia.

FHC e a Academia

Pode ser que o ex-presidente Fernando Henrique tenha, mesmo, feito sondagens para ver qual seria a receptividade de sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, na vaga decorrente da morte do economista Celso Furtado. Pode ser. Mas o sociólogo FHC, tornado político matreiro, sabe perfeitamente que ainda não assentaram as paixões despertadas por seu reinado de oito anos.

Falou-se da mesma forma de seu nome quando da morte do jornalista Roberto Marinho, em agosto de 2003. Mas FHC, consultado pelo amigo comum de um dos candidatos em Paris, onde se encontrava, deixou claro que não disputaria a vaga – sobretudo porque seu ex-vice, Marco Maciel – finalmente escolhido – estava no páreo.

Fôlego

Fortalecido no governo depois da demissão de seu maior crítico – o ex-presidente do BNDES Carlos Lessa –, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já é um fenômeno de longevidade entre os brasileiros que o antecederam no cargo desde a criação do BC, em 1965.

Com somente 1 ano, 10 meses e 25 dias na cadeira de couro em que dirige o BC, completados neste 25 de novembro, Meirelles já é mais longevo do que 16 dos 26 presidentes que o BC já teve.

Censura

É um escândalo que um juiz de Direito, em plena capital da República, proíba a divulgação de uma reportagem, como fez o titular da 9ª Vara Cível de Brasília em relação a um trabalho da “Folha de S. Paulo” informando que o advogado Erick Vidigal, filho do presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Edson Vidigal, tornou-se réu em processo criminal na Justiça Federal em Mato Grosso.

O fato de o mesmo juiz censor ter voltado atrás, sob espessa argumentação técnica, não retira a extrema gravidade do caso.

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