Artigo de 2004: Marta e as faíscas do escândalo

Artigo de 2004: Marta e as faíscas do escândalo Waldomiro Diniz chega à Superintendência da Polícia Federal para prestar depoimento em processos sobre a Loterj, em 2004 (Foto: Bruno Stuckert - Folha Imagem / VEJA)

E mais: os planos de Genoíno, o fator Maluf, Maciel workaholic, Joaquim Barbosa madrugando, o bilionário discreto, o governo batendo cabeça, o calhamaço socialista-cristão de Luiz Francisco, as gatas do polo aquático, Duran clicando políticos – e uma má indicação de Lula

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Espalhando faíscas para todo lado, o escândalo Waldomiro Diniz, o ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil da Presidência que aparece num video de 2002 solicitando propina a um bicheiro, vai impactar a sucessão municipal mais importante nas eleições de outubro próximo: a disputa pela Prefeitura de São Paulo.

Com o enfraquecimento do chefe da Casa Civil, José Dirceu, ex-chefe de Diniz, estão próximas de zero as chances de o Palácio do Planalto impor à prefeita Marta Suplicy (PT), como desejavam vários corações e mentes da cúpula do governo, um nome do PMDB como vice em sua corrida para a reeleição.

De bandeja para Quércia

O problema de Marta é simples: com um vice do PMDB, ela não pode renunciar à Prefeitura – como determina a legislação eleitoral –no primeiro semestre de 2006 para candidatar-se ao governo do Estado porque entregaria de bandeja, por mais de dois anos e meio, a gestão da maior cidade do Brasil a algum cupincha do ex-governador Orestes Quércia, cacique peemedebista no Estado.

Tendo um vice do PT, Marta, reeleita, é candidata certa à sucessão do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Planos de Genoíno

O esboroamento da hipótese de um vice do PMDB na chapa de Marta atrapalha os planos do presidente do PT, José Genoíno. Embalado pela bela campanha que realizou em 2002 em São Paulo – quando tirou Paulo Maluf (PP) do segundo turno na eleição para governador e, embora derrotado por Alckmin, teve sonoros 8,5 milhões de votos –, Genoíno é desde então de novo candidatíssimo ao posto.

Se, porém, tiver no páreo a prefeita reeleita – e fortalecida –, precisará convencer o partido a realizar uma prévia para disputar o direito de concorrer com ela.

Caixa baixa

Por falar na eleição na capital, o ex-prefeito Paulo Maluf é de novo figura-chave. Se sair candidato, atrapalha qualquer nome de oposição a Marta Suplicy no PSDB e no PFL, ou numa aliança entre ambos. Maluf, porém, enfrenta uma novidade este ano: está sem dinheiro. Alguns compromissos da campanha de 2002 ainda não foram saldados.

O Carnaval de Maciel

Workaholic é workaholic. Num Congresso deserto de políticos e quase de funcionários durante o Carnaval, o gabinete do senador Marco Maciel (PFL-PE) funcionou normalmente.

Carnaval e caminhada

Foi austero também o Carnaval do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal. Cedinho no domingo ele já caminhava na pista de jogging do Parque da Cidade, em Brasília.

Tem 30 bilhões e parece normal

Ele foi na contramão do verso de Caetano Veloso em Vaca Profana, segundo o qual “de perto, ninguém é normal”.

Pouco reconhecido no Camarote da Brahma na Marquês de Sapucaí, discreto e comedido, o bilionário americano Paul Allen – quarto homem mais rico do mundo segundo o último ranking da revista Forbes, com 30 bilhões de dólares de patrimônio aos 47 anos de idade –, para quem o viu de perto, parecia normalíssimo.

Bate-cabeça e sinais de fumaça

O bate-cabeça no governo com o caso Waldomiro Diniz atingiu níveis inéditos.

Uma das muitas trapalhadas: no exato momento em que figurões petistas propunham, no Congresso, investigar a prestação de contas das duas campanhas presidenciais de FHC como contravapor às tentativas de se criar uma CPI sobre o caso, o próprio ex-chefe de Diniz, o ministro José Dirceu, mandava sinais de fumaça conciliatórios aos dois mais importantes governadores tucanos, Geraldo Alckmin (São Paulo) e Aécio Neves (Minas).

Luiz Francisco, a obra e o espanto

O que espanta nas resenhas que pingaram aqui e ali sobre o livro “Socialismo – Uma Utopia Cristã” (Editora Casa Amarela), do célebre procurador da República Luiz Francisco de Souza, não é a confusa mixórdia de idéias que ele expõe, já presente, aliás, em muitas de suas ações no cargo.

É a disposição dos resenhistas de enfrentar as intermináveis 1.149 páginas do tijolo.

Números relevantes

Seriam necessários 13 bilhões de reais por ano ao longo de 20 anos para universalizar o acesso ao saneamento básico no Brasil. O país, porém, vai investir no setor em 2004 2,7 bilhões – se a equipe econômica não cortar nada, bem entendido.

Números irrelevantes

O Palácio da Liberdade, sede do governo de Minas Gerais, tem 36,5 metros de frente, 52 de fundos e 30 de altura.

Gatas ausentes

Tendo desistido do time por razões profissionais – não ganham nada para treinar até cinco horas por dia e não recebem ajuda de custo quando viajam –, as três jogadoras titulares ausentes da seleção brasileira feminina de polo aquático que está disputando o torneio Pré-Olímpico da modalidade, em Roma, não desfalcam o time apenas no aspecto técnico.

É forte também a repercussão estética: as belas atletas da seleção abalaram torcidas e corações nos Jogos Panamericanos de Santo Domingo, no ano passado.

Castigo

O que terá o ex-capitão da seleção do tricampeonato no México, Carlos Alberto Torres, feito de mal aos deuses para merecer o cargo de técnico da seleção de futebol do Azerbaijão?

Cutucão do BBVA

A equipe econômica do governo não gostou nem um pouco, embora tenha silenciado a respeito, do cutucão deselegante e desnecessário aplicado ao Brasil pelo presidente do banco espanhol Bilbao Viscaya Argentaria, Francisco González, ao anunciar recente oferta pública para ampliar sua participação acionária no maior banco privado do México, o Bancomer.

González lembrou que o PIB per capita mexicano é o dobro do brasileiro, disse que o México é “de longe” a “mais importante economia da América Latina” e – referência não explícita, mas claríssima ao Brasil – é uma “economia que emergiu, e não uma economia emergente”.

Dor de cotovelo?

Nunca se sabe, mas vai ver é dor de cotovelo pelas dificuldades que o banco encontrou aqui. O BBVA desembarcou no Brasil em 1998 com pretensão de se tornar um dos maiores bancos do país. Comprou o falido Excel Econômico, torrou 1 bilhão de dólares e, quatro anos depois, com 438 agências, não tinha chegado a 2% do mercado.

Acabou vendido em janeiro do ano passado ao Bradesco por 816 milhões de dólares.

Em contraste, seu grande concorrente na Espanha, o Santander, no Brasil desde 1986, parece não ter queixas. Adquiriu o Meridional e o Banespa em 2000 e tem tido lucros reluzentes. O pico foi em 2002: 2,8 bilhão de reais. O resultado do ano passado, de 1,74 bi, também não é de jogar fora.

Livro (1): Duran e os políticos

Vai ver que é efeito das eleições de 2002, para as quais produziu todas as fotos de campanha do presidente Lula. O fato é que o fotógrafo J. R. Duran, cujas incansáveis lentes volta e meia deixam as belas mulheres para temas como a aventura em ralis ou a devastação causada pela guerra em Angola, se voltam agora para a política.

Para um futuro livro, Duran tem discretamente capturado retratos de políticos de diferentes partidos e tendências. “Cada um sai como quiser”, diz ele, que, cioso das suscetibilidades do meio, prefere que não se divulguem os nomes dos já fotografados.

Livro (2): o leite em São Paulo

Fotos e documentos de fazendas antigas, anúncios dos anos 50, as primeiras exposições, criadores célebres, a evolução da embalagem. “Leite na Paulicéia”, do jornalista João Castanho Dias (Editora Calandra), sai em abril, em formato de livro de arte, contando a história do leite em São Paulo.

O livro revela que são criadores de gado leiteiro, entre outros, os banqueiros Aloysio Faria (Alfa) e Lázaro Brandão (Bradesco), o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, o empresário Benjamim Steinbruch e o bicampeão mundial de futebol pelas seleções de 1958 e 1962 José Eli Miranda, o Zito.

Perguntar não ofende

Por que será que o senador José Sarney (PMDB-AP) – eleito pelo Amapá e cacique no Maranhão – tem tanto interesse assim em nomear o delegado da Receita Federal em São Paulo?

Ruim, mas bom

Engraçado o presidente Lula. Vai a Uberaba (MG) para a inauguração de um trecho do asfalto novo da BR-262 e recomenda ao povo que vote no então ministro dos Transportes, Anderson Adauto (PL), para prefeito. Mas Adauto está deixando o Ministério, entre outras razões, por um desempenho administrativo considerado fraco pelo governo.

Quer dizer que o que é ruim para o governo federal é bom para Uberaba?

Continua bispo

Deve ser por causa da folga do Carnaval dos funcionários. Afastado há uma semana da coordenação política da Igreja Universal do Reino de Deus e também da função de bispo pelo Conselho de Bispos da instituição por suposto envolvimento com Waldomiro Diniz, o deputado Carlos Alberto Rodrigues Pinto (PL-RJ) continua com o nome parlamentar de “Bispo Rodrigues” no site da Câmara dos Deputados.

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