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Imenso cartaz publicitário da L’Oréal na fachada do Museu D’Orsay, em maio de 2011 (Foto: J.P. Quiñonero – ABC)

Quando, há três anos, o venerando Louvre, museu mais visitado do mundo – 8,9 milhões apenas em 2011 – inaugurou duas filiais do McDonald’s em suas instalações, os mais radicais defensores do purismo artístico foram capazes de jurar que o próprio Leonardo da Vinci reviraria na tumba.

Para os críticos, um polo artístico de tamanha magnitude em Paris, lar de obras de valor incalculável – entre as quais Mona Lisa, de Da Vinci – é absolutamente incompatível com uma cadeia multinacional de lanchonetes que, na ótica de muita gente, simboliza o pior do capitalismo ou algo até além, segundo certos franceses: o conceito de fast food.

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Interior do café McDonald’s do Louvre: alvo de críticas (Foto: McDonald’s)

Era só o começo

A polêmica gerada pela parceria, no entanto, parece não ter inibido a investida rumo ao big money de grandes museus e edifícios históricos públicos de Paris, parte fundamental da razão pela qual a cidade está entre as mais visitadas do planeta (em 2012, de acordo com estudo da Mastercard, deve receber 16 milhões de turistas, perdendo apenas para a Londres olímpica).

Um apetite financeiro que se explica parcialmente pelas turbulências econômicas impostas pela crise europeia. Ainda que, para 2012, o Ministério da Cultura francês tenha dedicado mais de um terço de sua verba total de 2 bilhões de euros (5 bilhoes de reais) à restauração de monumentos nacionais e manutenção de museus, o encarecimento de algumas atividades relacionadas à preservação fazem com que o dinheiro público – mais de 50% do orçamento, no caso do Louvre – não seja suficiente. Abrir o leque de ofertas passa a ser tentador.

Fachadas dominadas pela publicidade

Um exemplo ainda mais claro de que as políticas de financiamento dos centros culturais parisienses de referência estão mudando foi o aluguel, no ano passado, da fachada do Musée D’Orsay, a Meca do Impressionismo onde repousam quadros de Monet, Van Gogh, Renoir e Degas, entre muitos outros, à gigante dos cosméticos L’Oréal.

Em maio de 2011, portanto, quem passava em frente desta deslumbrante antiga estação de trens erguida em 1900, e que desde sua conversão em museu, em 1986, já recebeu 70 milhões de visitantes, era capaz de prestar mais atenção na fotografia da modelo Inès de la Fressange, garota-propaganda da marca, do que em seu belíssimo relógio secular. Mas os dirigentes do D’Orsay foram em frente: a Chanel, espécie de marca-símbolo da França, também exibiu, ali, um outdoor institucional, com o nome da grife e a imagem de um frasco gigante de perfume.

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Tela do iPad envolve o Palácio de Justiça de Paris (Foto: J.P. Quiñonero – ABC)

Outro baluarte patrimonial parisiense, o Palácio da Justiça, sede dos reis franceses entre os séculos X e XIV, foi coberto com uma imensa tela publicitária do IPad durante uma recente reforma.

São sintomas, no mínimo, curiosos de como a relação entre a cultura e as esferas pública e privada estão se reconfigurando nesta nova fase da economia europeia. Nem a França escapa.

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2 Comentários

Willer em 17 de junho de 2012

Aberração é a palavra apropriada, existem certos limites impostos tanto pelo bom senso quanto pela Unesco, não sei até que ponto a descaracterização infringe regras estabelecidas, ou mesmo se elas são aplicáveis ao caso, espero que os franceses resistam.

SergioD em 17 de junho de 2012

Ricardo, o que fizeram com a fachado do Musée D´Orsay é equivalente a um estupro. Um dos prédios mais bonitos de Paris, uma antiga estação ferroviária, não merecia uma aberração dessas. Abraços

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