Parece não haver dúvida de que o Barcelona é o melhor time de futebol do mundo. À genialidade do futebol que a equipe exibe em campo, porém, não corresponde – como muita gente imagina – uma administração impecável. O novo presidente do Barça, Sandro Rosell, eleito em junho passado para um mandato de seis anos, recebeu do anterior, Joan Laporta, um clube que alegava ter 11,1 milhões de euros de lucro líquido e uma reserva de 100 milhões de euros para contratações.

A verdade, porém, é bem outra. Uma auditoria – algo previsto nos estatutos do clube a cada mudança de diretoria – a cargo da renomada empresa britânica Deloitte revelou que o Barça, o mais bem sucedido clube de futebol do mundo, está mal das pernas. A situação se transformou em tal escândalo que Rosell precisou encomendar outro estudo, ainda mais profundo, à empresa internacional de auditoria KPMG. Vazou uma informação de que Laporta teria torrado 420 mil euros do clube em jóias e relógios.

VENDENDO JOGADOR PARA PAGAR SALÁRIO – Os números finais da KPMG serão mostrados em reunião do presidente com os 19 diretores do clube marcada para o próximo dia 17. Rosell não revelou em detalhes todos os resultados da auditoria anterior, a da Deloitte, mas os 11 milhões de superávit, ao terminar a peneira da consultoria, transformaram-se num buraco de 77,1 milhões de euros.

Rosell admitiu que o Barcelona atravessava uma “delicada fase econômica”, teve que recorrer a um empréstimo de 155 milhões de euros – valor estimado da construção do novo estádio do Corinthians – junto a um grupo de dez bancos “para compromissos de curto prazo” e, para pagar os salários de julho, precisou vender o zagueiro ucraniano Dmytro Chygrynskiy – alguém que o técnico Pep Gardiola lutou muito para contratar, em agosto do ano passado – ao mesmo clube a quem o Barça o havia contratado, o Shakhtar Donestsk.

FIM DO PROJETO DO NOVO CAMP NOU – O clube, que fatura quase meio bilhão de euros por ano, ainda não se levantou financeiramente. Para atingir a meta, Rosell acelerou a área de marketing, com novos e mais caros contratos e iniciou severos cortes de despesas.

Entre as medidas de austeridade, mandou cancelar o megaprojeto de seu antecessor de construir um novo Camp Nou, o legendário estádio do clube, inaugurado em 1957, desenhado pelo arquiteto britânico Norman Foster, o mesmo autor da remodelação da sede do histórico Reichstag que se transformou no fantástico edifício do Bundestag, o Parlamento alemão, em Berlim.

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O Estadi Futbol Club Barcelona, conhecido como Camp Nou (Campo Novo, em catalão), um estádio 5 estrelas segundo a UEFA

O projeto era tão delirante que previa a progressiva demolição do atual Camp Nou enquanto se contruía o novo no mesmo lugar – tudo isso com o estádio sendo utilizado para as partidas do clube. Deveria custar entre 400 e 500 milhões de euros. Rosell prefere modernizar o estádio aos poucos.

IBRAHIMOVIC EMPRESTADO DE GRAÇA – Para por em dia os salários de julho, Chygrynskiy, que custara 25 milhões de euros, voltou para casa por apenas 10 milhões – e eis aí um problema que Rosell não resolveu no clube: as contratações miliardárias que são, em seguida, dilapidadas. Joga-se dinheiro do clube fora, agora como antes.

O atacante sueco Ibrahimovic, depois de contratado a peso de ouro no ano passado ao Inter de Milão – 48 ou 55 milhões de euros, nunca se soube ao certo, mais o artilheiro Eto’o por 20 milhões, quando valia pelo menos o dobro — acaba de ser emprestado ao Milan, sem custo algum exceto o pagamento de seu alto salário (12 milhões de euros por ano). E, quando terminar o empréstimo de um ano, o time de Silvio Berlusconi pode ficar com seu passe por 24 milhões, menos da metade do que custou.

O Barça liberou, já na gestão Rosell, sem receber um só tostão, dois veteranos ainda em boa forma, o atacante francês Thierry Henry, 33 anos, e o zagueiro mexicano Rafael “Rafa” Márquez, 31, ambos contratados pelo New York Red Bulls. O brasileiro Keirrisson, comprado ao Palmeiras por 14 milhões de euros, não disputou uma só partida, e vem sendo emprestado para lá e para cá. Há outros exemplos, mas podemos parar por aqui.

SE TUDO ISSO FOSSE NO BRASIL… – O ex-presidente Laporta, que tem ambições políticas – defende a separação da Catalunha, cuja capital é Barcelona, da Espanha e pretende se candidatar a chefe do governo da região –, pode ser varrido de cena pelos problemas que deixou para trás.

Seu ex-aliado Rosell e os novos diretores têm encontrado no clube sinais de nepotismo, compra de ativos por valor superior ao de mercado, inclusão no caixa do clube de dinheiro a entrar no futuro, assinatura de contratos sem as necessárias garantias e o não reconhecimento, como perdas contábeis, de indenizações pagas pelo Barça por ordem judicial.

Se tudo isso tivesse ocorrido no futebol brasileiro, os comentários seriam os de sempre, e em torno de duas premissas verdadeiras: falta profissionalismo e sobra safadeza no nosso futebol.

Ocorrendo no maior time do mundo, porém, as trapalhadas de gestão do Barça vinham passando batido, até agora, quando não dá mais para varrer a poeira para baixo do tapete.

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3 Comentários

carlos nascimento em 22 de setembro de 2010

(off topic) Caro Setti, Precisamos debater o caso Santos x Neymar x Dorival, nessa estória toda quem tem culpa maior. O Santos que não soube controlar sua estrela !!! Dorival jr. que acabou sendo envolvido, perdendo o comando e se excedendo na puni~ção!!! O jogador que está deslumbrado e fora de controle !!! Os pais do atleta que não conseguem educar corretamente!!! A mídia que exagera nos adjetivos !!!! Abraços Carlos Nascimento.

Marco em 21 de setembro de 2010

Caro R.Setti: Mas essa eu asso no dedo, qualquer problema com esse Clube, o maior patrimônio desse Clube é a sua torcida e a biografia no mundo. Se esse Club quiser viver só de amistosos, recupera em 6 meses qualquer dívida ! Forte Abs. Forte Abs.

Marcos em 21 de setembro de 2010

(em off) Muito interessante a reportagem; sem esta transparência que vc nos proporcionou passa mesmo tudo batido. Cá entre nós, e o que devia estar pensando enquanto escrevia, falta transparência em 'tudo', muito além do futebol .. Em termos de empresas de 'consultoria', todas - internacionais, o mercado classifica de Big Four: - Delloite ..(erro de digitação na 1a menção) - KPMG - PricewaterhouseCoopers - Ernst & Young Outros erros de digitação que vi .. "..Camp Nou enquanto se contruía o novo no mesmo .." "O Barça liberou há já na gestão.."

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