E mais: José Serra, o antes e o depois de Maciel, Ciro e seu marketing, Delfim aprova ideia de Maluf, eleições no Sul, o abaixo-assinado das patricinhas,  Lula e uma resposta da direita, e um deliciosos episódio envolvendo Jânio e Collor

………………………………………………………………………………………………………………………………………………

A síndrome da corrida de cavalos na eleição presidencial – ou seja, a inescapável curiosidade por especular quem, afinal, vai ganhar – acaba deixando em segundo plano questões importantes que a própria campanha suscita. E é obrigação do jornalista cutucá-las.

É o caso, justamente, daquilo que faz mover toda essa engrenagem, e mais a disputa para o Senado, a Câmara dos Deputados, os governos estaduais e as assembléias legislativas: dinheiro. Num país em que ninguém se entende a respeito de quase nada, como o Brasil, começa a haver um certo consenso sobre o tema: do jeito que está, o financiamento das campanhas não pode continuar.

Nesse sentido, foi bom que a atual corrida eleitoral tenha sido sacudida, lá no comecinho, por casos que batem nessa caixa preta: a montanha de notas de 50 reais apreendida na empresa da então governadora do Maranhão, Roseana Sarney; as acusações de suposta cobrança de propinas na prefeitura de Santo André (SP), governada pelo PT, que alimentariam “caixinhas” eleitorais do partido; a denúncia do Ministério Público contra funcionários do INSS por desvio de recursos de uma agência no Rio que supostamente beneficiariam a campanha da deputada Laura Carneiro (PFL-RJ); o surgimento de indícios de existência de um “caixa dois” no comitê para a reeleição do prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi (PFL), em 2000, de valor dez vezes superior ao declarado à Justiça Eleitoral.

As leis em vigor não têm impedido que candidatos tenham o chamado “caixa 2”, para onde escorre, por sua vez, dinheiro do “caixa 2” de empresas e pessoas físicas – ou seja, aquela dinheirama que não interessa aos doadores que apareça, por motivos políticos ou fiscais, ou porque têm origem ilegal ou criminosa.

Países civilizados, como a França e a Alemanha, adotaram o caminho do financiamento público. A idéia tem avançado no Brasil, e, de forma superficial, conta com o apoio teórico dos candidatos à Presidência e de outros setores.

A não iniciados, a idéia pode parecer esdrúxula ou absurda. Por que raios campanha eleitoral deve ser paga pelos cofres públicos? As respostas são muitas, mas, do ponto de vista pragmático, há duas enormes vantagens. Primeira: sai muito mais barato para o país, pela possibilidade que traz embutida de deter ou diminuir a roubalheira e a sonegação implícitas nos caixas 2. Segunda: facilita extraordinariamente a fiscalização, já que tudo o que não for dinheiro público na campanha será ilegal, permitindo a ação do Ministério Público e da Justiça.

Se o futuro presidente e o futuro Congresso quiserem mexer nesse vespeiro, já há meio caminho andado: o Senado aprovou recentemente um detalhado projeto do senador Sérgio Machado (PMDB-CE) a respeito, que agora espera votação na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados antes de ir ao plenário.

Coisa esquisita

O presidenciável tucano José Serra – além de parecer tio do Zuenir Ventura, como bem lembra o Tutty Vasques – continua conseguindo desconcertar com esquisitices até os que lhe são próximos.

A mais recente ocorreu nesta terça-feira, em São Paulo. Marcada para depois do jantar reunião de um grupo graúdo de tucanos de diferentes partes do país que discutem os rumos de sua campanha, Serra apareceu no confortável horário de quinze para a meia-noite. A reunião terminou às duas e meia da madrugada, com todos os políticos caindo pelas tabelas.

Mas Serra ainda tinha um compromisso para depois: às três – da madrugada, bem entendido – começou uma sessão de acupuntura.

Depois e antes

Frase que o vice-presidente Marco Maciel costuma sacar da algibeira, inclusive quando se discute o segundo turno da eleição presidencial:

— Não vamos colocar o depois antes do antes. Primeiro, vem o antes. Depois, o depois.

Novela mexicana

O experiente marqueteiro Chico Malfitani acha que a troca de posições nas intenções de voto entre os presidenciáveis Ciro Gomes (Frente Trabalhista) e José Serra (PSDB-PMDB) pode ser “90% explicada” pela diferença de qualidade entre os programas de TV de ambos no horário eleitoral gratuito. “O programa de Serra, como o de Lula, tem padrão de novela das oito da Globo”, diagnostica. “Já o de Ciro, como também o de Garotinho, está mais para novela mexicana”.

Malfitani acha que, além de qualidade técnica, faltam ao programa de Ciro uma estratégia clara e a capacidade de despertar “o desejo de ‘consumir’ o candidato” pelo eleitor. “Quem vende um produto deve dar motivos que justifiquem a ‘compra’ pelo consumidor “, explica. “A campanha do Serra está vendendo emprego. E a do Ciro?”

É um homem que sabe do que fala. Autor de criativos programas políticos do PT de São Paulo entre 1984 e 1992, sua coleção de êxitos ostenta a vitória de Luísa Erundina (hoje no PSB) contra Paulo Maluf (PPB) na disputa pela Prefeitura paulistana, em 1988, e a proeza de ter conduzido o ex-prefeito de Osasco Francisco Rossi (então no PDT) ao segundo turno contra o líder tucano Mário Covas na luta pelo governo do Estado, em 1994. Além disso, entre outras vitórias, conseguiu em 1996 emplacar a candidata Wilma Farias (PSB) na Prefeitura de Natal – enfrentando simultaneamente duas dinastias que há décadas mandam no Rio Grande do Norte, os Maia e os Alves.

Segundo ele, Ciro, independentemente dos problemas que enfrentou desde que saiu candidato, “é um excelente produto, muito melhor do que seu programa “. Ele ressalva, porém, que a famosa brincadeira sobre o principal papel de Patrícia Pillar, sua mulher, na campanha – “dormir” com o candidato, como disse Ciro –, foi grave: “A frase saiu no ‘Jornal Nacional’ e tudo. Não há marqueteiro que resolva”.

Registro histórico

As promessas do candidato do PPB ao governo de São Paulo, Paulo Maluf, de estabelecer horários sem pagamento de pedágio nas rodovias paulistas administradas pela iniciativa privada vêm tendo a tácita aprovação de políticos que passaram a vida defendendo a sacralidade de contratos assinados – como é o caso.

Um deles é o deputado e ex-czar da economia Delfim Netto (PPB-SP).

Está apertado, tchê

É de cachorro grande a briga pelas duas vagas do Rio Grande do Sul no Senado.

O que parecia uma eleição fácil do presidente da Assembléia Legislativa, Sérgio Zambiasi (PTB) e uma reeleição igualmente tranqüila do senador José Fogaça (PPB) está se apertando semana a semana.

Têm subido com firmeza nas pesquisas de intenção de voto a senadora Emília Fernandes — que foi eleita pelo PTB, bandeou-se para o PDT brizolista e hoje ostenta a estrela do PT na lapela do tailleur — e o também petista Paulo Paim, aquele deputado que todo ano tenta aumentar o salário mínimo mais do os cofres da Previdência e das prefeituras permitem.

Dólar a 3

Pode parecer surpreendente um economista de esquerda defender dólar alto, mas Tito Ryff, ex-secretário do Planejamento do Rio e assessor econômico do presidenciável Anthony Garotinho, acha que o Banco Central não deve tomar iniciativas para forçar a cotação da moeda americana para abaixo de 3 reais.

Explicação de Ryff: os efeitos inflacionários da alta já ocorreram e foram absorvidos, e o dólar na faixa dos 3 reais favorece as exportações e aumenta o saldo da balança comercial.

Radical (literalmente) chic

A aprovação do novo Plano Diretor da cidade de São Paulo pela Câmara Municipal trouxe à luz a instituição da emenda fantasma: várias pequenas modificações no plano foram introduzidas na calada da madrugada sem que se saiba ao certo que vereador apresentou o quê.

Uma delas altera de uso exclusivamente residencial para uso misto (ou seja, também comercial) uma única rua do bairro mais valorizado da cidade, a Vila Nova Conceição.

Por acaso – claro – é lá que fica, num conjunto de casas adaptadas que ocupa quase um quarteirão, a Daslu, a butique mais cara e exclusiva do Brasil.

A prefeita Marta Suplicy tem prazo até 16 de setembro para vetar itens da lei. Numa inédita mobilização, as vendedoras da Daslu – patricinhas recrutadas preferencialmente entre famílias que detêm poder político ou dinheiro, ou ambos – têm telefonado para moradores do bairro pedindo assinaturas num abaixo-assinado à prefeita em prol da manutenção da mudança.

Elas explicam que, pelo menos para este caso, vale também assinatura de empregada doméstica, zelador e porteiro.

Lula e a direita

Em recente conversa com empresários, Lula chamou para um canto o fazendeiro Luiz Suplicy Hafers, ex-presidente da tradicionalíssima – e conservadora – Sociedade Rural Brasileira, e pediu:

— Queria que você ajudasse no meu programa de governo.

Resposta de Hafers, um aristocrata que foi jogador de pólo a cavalo por décadas, é um dos poucos brasileiros que se declara “de direita”, vota em José Serra e acha que nenhum dos quatro presidenciáveis entende ou dá suficiente ênfase para a agricultura:

— Quando você for presidente eu colaboro. Agora, não.

Pró-memória

Maio de 1989. Manhã bonita em São Paulo. Oito horas e pouco, um jornalista entra na então grande – e, àquela altura, vazia – redação da sucursal paulista do Jornal do Brasil, no 15º andar de um moderno edifício defronte ao prédio-pirâmide da Federação das Indústrias, na Avenida Paulista. Só se ouve o zzz do ar condicionado e, ao fundo, um barulhinho de máquina de escrever:

— Plec, plec, plec…

O JB está prestes a se informatizar, e sólidas Olivetti ainda são dedilhadas pelos jornalistas. No caso, dedos ilustres: trata-se de Carlos Castello Branco, o Castellinho, o maior jornalista político do país, redigindo sua Coluna do Castello para o dia seguinte antes de ir para o aeroporto tomar o avião de volta a Brasília.

O jornalista cumprimenta Castellinho, oferece água e café, sugere que ocupe a sala do diretor da sucursal. Castellinho, cuja grandeza era proporcional à simplicidade, diz que não, obrigado, já está terminando o texto. É sobre o ex-presidente Jânio Quadros, de quem fora secretário de Imprensa durante sua breve Presidência e a quem, na véspera, veio visitar. Jânio insistiu – ou “ordenou”, conta Castellinho – que ele passasse a noite em sua casa. E assim foi.

Conversam sobre a campanha presidencial, já esquentando as turbinas.

Fernando Collor, governador de Alagoas, ainda não lidera as pesquisas de intenção de voto, mas disparou nas preferências e sobe em alta velocidade, impulsionado por dois programas de TV de divulgação obrigatória de dois pequenos partidos políticos. Jânio diz a Castello que sua saúde o impede de concorrer, hipótese em que, jacta-se, “passaria de trator” sobre os concorrentes.

Não concorrendo, apóia o ex-vice-presidente Aureliano Chaves, candidato do PFL, de nanicas intenções de voto.

A certa altura da conversa, inevitavelmente Castelinho menciona Collor. O ex-presidente, sempre um artista, dispara a pergunta:

– E quem é este senhor?

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

seis + 15 =

TWITTER DO SETTI