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O presidente francês François Hollande (bem no meio da foto) e seu ministério: o primeiro-ministro Ayrault está à sua direita e o chanceler Fabius, à sua esquerda (Foto: pcfbalaruc)

Deve ser o ministério mais politicamente correto do mundo, o do novo presidente da França, o socialista François Hollande.

Não me refiro apenas ao que já foi amplamente divulgado — que o ministério foi milimetricamente organizado para ter 17 homens e 17 mulheres.

Trata-se de um time multicultural e de origens multinacionais, digamos assim. Vejam alguns exemplos:

Na importante função de porta-voz do presidente e, além do mais, ministra dos Direitos da Mulher, está Najat Belkacem, nascida no Marrocos.

A ministra da Justiça, Christiane Taubira, nasceu aqui na América do Sul — na Guiana Francesa, considerada “província” da França — e é negra.

O chanceler Laurent Fabius é filho de pais judeus que se converteu ao catolicismo.

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O chanceler Fabius com Hollande: ex-rival, ex-crítico de um presidente europeísta, votou “não” à Constituição europeia em 2005 — o que praticamente liquidou o projeto (Foto:20minutes.fr)

O ministro da Economia, Pierre Moscovici — por sinal, ex-integrante, até 1984, da radicalíssima Liga Revolucionária Comunista –, é filho de imigrantes romenos.

O ministro do Interior, membro crucial do governo porque comanda a polícia, Manuel Valls, é espanhol de Barcelona naturalizado francês aos 19 anos, e filho de mãe suíça.

A escritora Aurelie Filippetti, ministra da Cultura, é neta de imigrantes italianos.

Quanto aos potenciais problemas que menciono no título, vamos lá:

1. Laurent Fabius, que já foi primeiro-ministro entre 1984 e 1986, sob o presidente também socialista François Mitterrand, pode ser visto por parceiros da França como muito reticente a que a União Europeia acentue acentue seu processo de integração. No plebiscito de 2005 sobre a Constituição europeia ele votou, com estardalhaço, no “não” — e a derrota da proposta na França foi decisiva para que uma Carta europeia única não vingasse.

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O primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault: contrariando promessa de Hollande de que não teria colaboradores com folha corrida, foi condenado em 1997 (Foto: veja.abril.com.br)

Também vamos ver como se dará sua relação com Hollande, de quem foi adversário dentro do Partido Socialista francês — a ponto de, tempos atrás, ter proferido sobre o presidente uma frase que provocou repercussão. Referindo-se à suposta falta postura política marcante de Hollande, Fabius declarou que o agora presidente parecia “um morango silvestre”.

2. Hollande prometeu solenemente que em seu governo não haveria ninguém que remotamente tivesse tido problemas com a Justiça. Pois bem, justamente o primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, foi condenado em 1997 a seis meses de cadeia e multa, com direito a susris, quando era prefeito de Nantes, no noroeste da França, por ter concedido por dois anos, sem concorrência pública, a publicação do Diário Oficial do município a um empresário próximo ao Partido Socialista.

Tecnicamente, por especifidades da legislação francesa, seu prontuário na Justiça hoje está limpo — mas a condenação ocorreu, e, na época, Ayrault nem recorreu da sentença.

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Marco em 21 de maio de 2012

Dom Setti: Pois é, esse é sempre o problema do socialismo, nunca é feito tradicionalmente, ou por mera questão lógica. Mas sempre por indicação de alguma coisa subjetiva, e não maioria das vezes em áreas de pessoas sem nenhum conhecimento particular no órgãos assunto. O q importa é a acomodação do sistema cambista eleitoral, como forma de alocação. Abs. PS: Esse é problema do Brasil, nesses últimos tempos, os ministros são captados por recompensas politicas, são bem servidos nesses cargos e a população paga essa conta cara e ineficaz.

Kitty em 21 de maio de 2012

Olá Ricardo! Um ótimo artigo sobre o Prêmio Nobel Vargas Llosa no The Economist: A Latin American Liberal//A great writer who has become his region's conscience.///www.economist.com Espero que goste! um abração--Kitty

Ismael em 21 de maio de 2012

Por que não 34 mulheres? ou 34 franco-árabes? Como se pode escalar um time com bases raciais, de gênero ou opção sexual e deixar a meritocracia de lado? O pior é ter já de cara um socialista envolvido em caso de favorecimento ilítico de amigo com dinheiro público. Começou bem mal esse Hollande.

Kitty em 20 de maio de 2012

Boa noite, caro Ricardo! Sem dúvidas um Ministério, aparentemente, coeso e bem equilibrado. Compor um Ministério que contemple todas as forças que apoiaram o candidato que derrotou Sarkozy, não deve ter sido uma tarefa fácil. Nos bastidores, as pressões sobre a escolha dos colaboradores deve ter sido forte.É quase impossível pensar que o novo presidente pudesse ter um plantel de ministros completamente afinados com suas próprias idéias.O mandatário francês terá de conviver com aqueles que em algum momento teve divergências sobre determinados assuntos.Em política não existe amizade ou simpatia, existem interesses! Enquanto aos dois ou três problemas que Hollande terá que enfrentar, vai depender de seu feeling político para aceitar sugestões ou impor,se for necessário, um alinhamento compatível com as necessidades do país.O que pode ser preocupante,no meu ver, é o relacionamento de Laurent Fabius com o presidente Hollande na hora de tomar decisões importantes como quando o ex-rival votou um rotundo "NÃO" à Constituição Europeia em 2005, o que praticamente fulminou o projeto.Prestaremos atenção às propostas de Alemanha para chegar a um consenso sobre crescimento versus austeridade, aí veremos qual é o posicionamento do ex-crítico. Estamos cansados de ver como velhos inimigos se transformam em diletos amigos. Se não fosse assim, como você explicaria a súbita amizade entre Collor e Lula? No entanto, uma falha para mim é o terceiro item: a promessa solene que, em seu governo ninguém deveria ter pendências com a Justiça. Mas há sim um ministro--Jean Marc Ayrault-- que pesa sobre ele uma condenação. Bom, Ricardo, o Hollande não é perfeito, é um político e sabe que lá como aqui nos primeiros 100 dias povo e presidente estão numa perfeita lua de Mel, e conta sobre tudo, com a pouca memória do povo que esquece rapidamente as promessa de campanha!..Se a economia vai bem, o esquecimento continua, e se a crise fica braba, haverá lá também a fila dos indignados e cobrarão a conta! Os franceses não gostam de apertar o cinto, nem abrir mão dos benesses adquiridos durante o tempo de bonança.Vamos ver o espetáculo do crescimento do governo socialista de François Hollande! Pagando pra ver!! Peço desculpas pela pretensão de fazer uma analise política bastante complexa, não foi essa a minha intenção, apenas gosto de participar. Seu texto sim é excelente! Um abraço cordial////Kitty

Franco em 20 de maio de 2012

1. Considero que qualquer governo com essa quantidade de ministros não passa de uma quadrilha. Não tem como ter eficiência e o chefe deles todos não tem como ficar de olho. É o cenário perfeito para roubalheira. 2. Será que além das cotas para minorias há uma cota para qualificados e competentes?

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