O general Douglas MacArthur, o herói americano da guerra no Pacífico, não quis nada parecido ao ato quase privado de rendição da Alemanha nazista, em Reims, na França, a 7 de maio do 1945, onde o marechal-de-campo alemão Wilhelm Keitel assinou a capitulação perante o marechal-do-ar britânico Sir Arthur Tedder, representante do supremo comandante aliado, o general americano Dwight Eisenhower, o do marechal soviético Giorgi Jukov. “MacArthur queria todo mundo lá, e que o mundo assistisse”, contou em suas memórias o grande repórter americano Theodore White, um dos poucos privilegiados jornalistas a testemunhar tudo pessoalmente.

O convés do Missouri regurgitava de vencedores: 53 generais do Exército e da Força Aérea americanos, um número equivalente de almirantes, uma dezena de generais dos Fuzileiros, e generais, em uniforme de gala, de vários dos países Aliados – União Soviética, China, Grã-Bretanha, França, Holanda, Austrália. E havia, é claro, os marinheiros anônimos – milhares deles, espalhados por toda parte, dependurados nas portentosas torres dos canhões do encouraçado. “Seria algo para eles recordarem para sempre, para contar a seus filhos e netos”, lembraria White quatro décadas depois. “Nenhum de nós sabia que esta seria a última guerra que os Estados Unidos iriam clara e conclusivamente vencer”.

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No mastro principal do grande vaso de guerra fora hasteado um símbolo – a mesma bandeira que tremulava no Capitólio dos Estados Unidos no dia do ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, no Havaí, a 7 de dezembro do 1941, que levou o presidente Franklin Roosevelt a declarar guerra ao Japão. No mar resplandecente da baia de Tóquio, ao largo do porto de Yokohama, o Missouri era escoltado por dois cruzadores, o USS Iowa de um lado, o USS South Dakota do outro. Várias outras belonaves estavam ancoradas por perto.

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O couraçado U.S.S. Missouri Foto: Pinterest

Próximo das 9 horas, um silvo agudo fez saber que chegara a delegação japonesa. O primeiro a subir a bordo foi o recém-designado ministro do Exterior, Mamoru Shigemitsu. Aparência envelhecida, com chapéu de seda, paletó escuro e calças listradas. Shigemitsu usava uma perna mecânica e uma bengala. Antes da guerra, por sua posição favorável a não hostilizar os EUA, ele perdera a perna num atentado cometido por nacionalistas radicais. A Shigemitsu seguiu-se o chefe do Estado Maior japonês, Yoshijiro Umezu, rígido, rosto sem expressão exceto pelas mandíbulas cerradas, uniforme impecável, galonas douradas nos ombros e condecorações no peito, que se suicidaria dias depois, cometendo o harakiri.

Eram 9h08 quando o coronel MacArthur surgiu no convés do Missouri. Suas mãos tremiam levemente enquanto lia o histórico discurso que preparara. O general contaria, mais tarde, em suas memórias, que se inspirou no discurso do Gettysburg, pronunciado pelo presidente Abraham Lincoln em 1863 depois de uma vitória crucial do Norte contra o Sul na Guerra Civil americana (1860-1865). “Falo pelos milhares de lábios silenciosos, para sempre mudos entre as selvas e as praias”, começou MacArthur. Em Tóquio, o imperador Hiroito, recluso em seu palácio desde que proclamara a rendição do Japão em discurso à nação, 18 dias antes, ouvia a fala de MacArthur pelo rádio. “É minha mais profunda esperança que depois dessa solene ocasião”, continuou o general, “um mundo melhor emerja de todo o sangue e a carnificina do passado – um mundo fundado na fé e no entendimento, dedicado à dignidade do homem e ao cumprimento de seus anseios mais preciosos por liberdade, tolerância e justiça”.

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Depois, como supremo comandante das forças aliadas no Pacífico, e olhando diretamente para a delegação japonesa, indicou onde os vencidos deveriam assinar os termos da rendição incondicional. Shigemitsu teve que recorrer a uma cadeira: sentou-se, tirou o chapéu de seda e assinou. Umezu, chefe do Estado Maior, não quis sentar-se, retirou suas luvas brancas, inclinou-se para a mesa e também assinou. MacArthur conduziu uma breve oração pela paz. Foi então que aconteceu.

Como se milimetricamente cronometrado com o movimento de Umezu de novamente pôr-se ereto, ouviu-se nos céus ao longe um zumbido, que logo se transformou numa espécie de rugido. O céu quase se cobria com o poderio da Força Aérea dos Estados Unidos: exatamente 436 das superfortalezas B-29 que haviam tão decisivamente ajudado a ganhar a Guerra do Pacífico pelo ar e haviam decolado horas antes de bases na Ilha de Guam, em Saipan, uma das Ilhas Marianas, e outros pontos, em coordenação perfeita, se aproximavam em formação, baixando de altitude ao divisar o Missouri. Acima dos B- 29, voava em levas sucessivas uma inacreditável esquadrilha de 1.500 diferentes aviões de guerra. Do Missouri, a imensa esquadrilha se dirigiu, em ondas, para Tóquio, e várias vezes passou sobre a capital do império que aterrorizara a Ásia.

A guerra no Pacífico tinha durado quatro anos. A cerimônia no Missouri, que pôs termo a ela, durou 28 minutos. Emocionado, como todos os presentes, White relembraria em suas memórias: “Pensávamos que tinha sido a última de todas as guerras”.

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