Artigo de 2004: Montadora vai embora

Artigo de 2004: Montadora vai embora Foto: domínio público

E também: greve da PF atrapalha operação gigante, os militares e a democracia, a dinastia dos Tumas, Rebelo ignorado, novos atritos no STF, o papo manjado do governo e uma série de boas reportagens sobre os EUA e o golpe militar

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O governo terá em breve uma péssima notícia. Uma montadora de automóveis de bom porte prepara-se para encerrar suas operações no Brasil.

O destino da fábrica brasileira desativada será – adivinhem? – a China, com seu imenso mercado potencial e, também, com sua sólida estabilidade de regras para os negócios.

Operação gigante

A força-tarefa que investiga a máfia dos combustíveis em São Paulo é uma das maiores já reunidas no país em todos os tempos para operação desse tipo. Auditores da Receita envolvidos na operação não se recordam de ter visto tão grande contingente de especialistas debruçados sobre o mesmo conjunto de bandalheiras.

A greve na Polícia Federal, porém, está atrapalhando os trabalhos e vai atrasar o estouro das quadrilhas.

“Calão duvidoso”

Seja qual for o final do caso gravações da conversa do subprocurador-geral da República José Roberto Santoro com o empresário da jogatina Carlinhos Cachoeira, uma coisa pelo menos é certa: poucas vezes terá vindo a público no país linguagem de tão baixo nível de parte de autoridade desse porte.

É o que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, reconhecido gentleman, eufemisticamente denominou de “calão duvidoso”.

Democracia, nada

Está tudo muito bom, está tudo muito bem – as Forças Armadas não comemoraram os 40 anos do 31 de março de 1964, há um clima geral de que o golpe daquele ano é uma página virada da história etc etc. Mesmo assim, ainda vale a pena conferir a ordem do dia do comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, alusiva à data.

Ali se fala, em exatos 2.801 caracteres, desse “fantástico povo brasileiro”, da nossa “gente pacificadora”, de “convivência harmônica”, de “paz”, de mudanças obtidas “com segurança e apoiadas no respeito ao próximo”. Não há, porém, uma única menção à grande conquista do país depois do fim da ditadura, em 1985: a democracia.

Militares e “insatisfação social”

Por falar nisso, em país civilizado já estaria no olho da rua o brigadeiro Luiz Carlos da Silva Bueno, comandante da Aeronáutica. Como é possível, numa democracia, que um comandante de Força, submetido ao ministro da Defesa – um civil – proclame, em nota oficial, a “possibilidade real de florescer insatisfação social” nas Forças Armadas em razão de defasagem salarial?

Ninguém contesta a corrosão do poder de compra dos salários dos militares e a necessidade de que recebam justa remuneração. Mas a questão está sendo tratada pelo chefe do brigadeiro, o ministro José Viegas, com as áreas competentes do governo, como a própria nota admite. Mesmo proclamando férrea adesão aos princípios da hierarquia e da disciplina, é de evidente impertinência esse trecho do documento de Silva Bueno.

Tuma e Tuminha

Cada vez mais senadores torcem o nariz para a influência, na casa, do deputado Robson Tuma (PFL-SP), o “Tuminha”. Ele é filho do senador Romeu Tuma (PFL-SP), 1º secretário da Mesa Diretora e, como tal, responsável por grande parte da administração do Senado – o que inclui, por exemplo, o apetitoso capítulo das nomeações.

Rebelo e Dirceu

Pergunta-se em Brasília até onde o presidente Lula vai permitir o esvaziamento do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo. Partidos da base aliada passam rotineiramente por cima de Rebelo, preferindo tratar de suas demandas com o chefe da Casa Civil, José Dirceu, quando não reivindicando tratar delas com o próprio Lula.

Para quem não sabe, mesmo com o caso Waldomiro Diniz ainda aspergindo fragmentos para todo lado, e a despeito da expressa recomendação do presidente para que se concentrasse em tarefas de “coordenação” dentro do governo, Dirceu tem operado intensamente no Congresso. Tecnicamente, seria a seara de Rebelo.

Só para registro

“Todo mundo sabe que tomamos a decisão de não ficar falando [mal] dos governos anteriores”, disse o presidente Lula nesta terça, 6, no Acre, depois de passar as últimas três semanas criticando a administração Fernando Henrique Cardoso dia sim, dia não.

Sigilo perpétuo

É curioso que em recente debate sobre os 40 anos do golpe de 1964 o corregedor-geral da União, v, tenha baixado o chanfalho no decreto baixado no final do governo passado por FHC que, na prática, permite que se prorrogue indefinidamente o sigilo em torno de determinados documentos públicos. Pires, no caso, referia-se a papéis que poderiam iluminar aspectos da chamada “Revolução”.

E é curioso porque o chefe do corregedor, o presidente Lula, poderia perfeitamente revogar ou alterar o documento – o famigerado decreto nº 4.553, de 2002 –, bastando, para isso, querer. Apesar de intensamente pressionado por pesquisadores, setores da comunidade acadêmica e do próprio governo, Lula até agora lavou solenemente as mãos.

Exemplo da Câmara

O Congresso, tão criticado, deu exemplo nesse terreno com a decisão de uma comissão especial da Câmara dos Deputados, tomada no final do ano passado e pouquíssimo divulgada, de liberar para consulta pública 63 documentos até então considerados secretos dos arquivos da Casa.

Eles se referem, entre outros temas, a determinadas passagens da Constituinte (1987-1988), a reuniões do colégio de líderes partidários em pleno fragor dos acontecimentos de 1964 e aos trabalhos da comissão externa que tentou localizar, nos anos 90, os restos mortais de vítimas da ditadura.

Tempo quente no STF (continuação)

O tempo voltou a ficar quente no Supremo Tribunal Federal, em recentes alfinetadas irônicas e ásperas trocas de palavras entre os ministros Sepúlveda Pertence e Marco Aurélio de Mello. Marco Aurélio chegou a considerar que certos comentários de Pertence pretendiam desqualificar suas credenciais como jurista.

Até as duas da manhã

Por falar em Supremo, o ministro Celso de Mello continua com a taça de mais caxias membro da corte. Não é raro permanecer em seu gabinete, trabalhando, até duas horas da manhã.

Números relevantes

957 municípios brasileiros não têm uma única biblioteca.

Números irrelevantes

A Ponte Juscelino Kubitschek sobre o Lago de Brasília – nova atração turística da capital – conta com três arcos que sustentam, por meio de estais de aço, três tabuleiros, cada um deles com um vão de 240 metros.

Tradução torta

Quando a crise amainar, vai-se verificar ser boa a idéia do presidente Lula de criar um organismo que centralize todo tipo de informação necessária aos investidores estrangeiros interessados em fazer negócios com ou no país. Ainda mais se essa tarefa ficar mesmo, como planejado, com o vice-presidente José Alencar, empresário experiente e competente.

O ruim é o nome que inventaram para a coisa: “sala de situação”. Mais uma bobagem inspirada de alguma forma no governo americano, tal como o ocorrido com o título de “Salão Oval” conferido à sala onde se realizam reuniões ministeriais no Palácio do Planalto, que o governo Lula herdou e não alterou.

Com o acréscimo de que a “sala de situação” tupiniquim não tem absolutamente nada a ver com o conceito americano de situation room, local onde se reúnem os graúdos de diferentes setores do governo encarregados de gerir uma crise grave, especialmente na área de segurança nacional.

Style news

O procurador Luiz Francisco de Souza está usando no pulso uma fitinha do Senhor do Bonfim.

Conversa velha

Se quer mesmo conter a insatisfação gritante que se observa nas fileiras de sua base de apoio, o governo precisaria fazer mais do que repetir chavões velhos como andar para a frente. O recente pacote de providências que o Planalto decidiu adotar para seduzir deputados e senadores recalcitrantes não passa de um cozido de velhas promessas e velhíssimas práticas que, governo vai, governo vem, são muito repetidas e pouco cumpridas.

É o caso, por exemplo, de determinar aos ministros uma “atenção especial” a congressistas que sistematicamente levam chá de cadeira na Esplanada. Idem a ordem para analisar com mais agilidade os pedidos de nomeações parados em mesas de burocratas – isso num governo que já está indo para o 16º mês e ainda se vê às voltas com cargos vagos.

Conselho político

Já a criação de um conselho político, integrado pelos presidentes dos partidos que apóiam o governo, é promessa que Lula fez antes da posse, mas não vai adiantar nada se, como tem ocorrido em outras áreas da administração, for criado mas não se reunir.

Novidades velhas

Os jovens jornalistas que, em diferentes publicações, fartaram-se de publicar matérias sobre o envolvimento do governo americano no golpe de 1964 muito provavelmente não leram as reportagens a respeito do mesmo assunto feitas em dezembro de 1976 pelo jornalista Marcos Sá Corrêa no “Jornal do Brasil” com base em vasta pesquisa de documentos na biblioteca presidencial Lyndon Johnson em Austin, Texas.

Elas foram publicadas em livro no ano seguinte, pela editora L&PM, sob o título “1964 Visto e Comentado pela Casa Branca”.

O livro, de 160 páginas, está esgotado, mas ainda pode ser encontrado em sebos.

Boa parte do que foi apresentado agora aos leitores com grande novidade já estava lá.

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