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Quando a polícia chegou ao Joe and Mary Italian-American Restaurant, na Knickerbocker Avenue, no Brooklin, Nova York, na tarde da última quinta-feira, um charuto ainda fumegava entre os lábios do cadáver de Carmine Galante. Ele tinha uma ferida a bala no rosto, provavelmente de uma pistola calibre 45, e o tiro de rifle que recebera no peito, quase à queima-roupa, teve um impacto tão brutal que o arrancou da mesa a que estava sentado e o jogou contra a parede do pequeno pátio traseiro do restaurante, onde ele almoçava ao ar livre com três outras pessoas. Dessas, só uma, não identificava, escapou com vida. Leonardo Coppola, de idade incerta, guarda-costas de Galante, e Giuseppe Turano, 48 anos, dono do restaurante, foram mortos. John, filho de Turano, de 17 anos, a primeira pessoa com quem os bandidos toparam, recebeu dois tiros de rifle nas costas e foi conduzido, em estado grave, a um hospital.

Galante, 69 anos, chefe de uma das cinco “famílias” da Máfia de Nova York e aspirante ao posto de capo di tutti capi da organização, tinha sido liquidado num cenário digno das execuções promovidas nos velhos tempos de Al Capone ou Lucky Luciano. O algo bucólico pátio batido de sol, pontilhado por barreiras e tomateiros, estava coalhado de sangue. Na mesa onde o chefão mafioso almoçava, coberta com uma toalha florida, havia uma salada de tomate e alface não terminada, alguns pãezinhos, pêssegos, uma jarra de vinho. Don Carmine teve um olho perfurado a bala. Metade do rosto de Coppola, o guarda-costas, fora arrancado a tiros. A metódica violência da execução aponta para uma direção: está em curso uma luta pelo poder na Máfia. Ou seja, foram profissionais altamente especializados, a soldo de um capo rival, os responsáveis pelo fim de Galante.

CADILLAC PRETO

O estilo de ação dos assassinos seguiu o mesmo modelo clássico do cenário. Enquanto um Cadillac preto com dois ocupantes fechou uma travessa para deixar livre o tráfego na avenida Knickerbocker, cinco dos criminosos, usando máscaras de esqui e portando automáticas e rifles, desceram em frente ao restaurante. Três chegaram num Mercury azul e os outros dois num carro de modelo antigo que vinha atrás. Esses dois ficaram vigiando a entrada.

Os três do Mercury, então, invadiram o restaurante. John Turano, o filho do proprietário, estava no salão da frente e foi sendo empurrado para a parte de trás do restaurante. No segundo salão, os bandidos ignoraram três fregueses e correram para o pátio. Don Galante não teve nem tempo de se levantar da mesa: ele, Coppola e Turano foram alvejados de uma distância de 1,5 metro. O jovem John tentou fugir – mas foi baleado pelas costas. E a misteriosa personagem que era o quarto comensal da mesa do Don assassinado desapareceu, ileso. Seria talvez um traidor entre o próprio pessoal do capo morto. À moda mafiosa, ele poderia ter revelado aos interessados o local e a hora do almoço do chefe, acompanhando-o, no entanto, para não despertar suspeitas.

As “famílias” de Nova York

FAMÍLIA GENOVESE – Frank Tieri

FAMÍLIA GAMBINO – Aniello Dellacroce

FAMÍLIA BONANNO – Carmine Galante

FAMÍLIA LUCCHESE – Anthony Corallo

FAMÍLIA COLOMBO – Thomas DiBella

As “famílias” ainda conservam o nome de seus antigos chefes em décadas passadas. Thomas Di Bella, atual chefe da “família” Colombo, nunca foi fotografado.

“REI DA DROGA”

O crime parece ser ainda parte da luta para a sucessão de Carlo Gambino, morto de morte natural em 1976, e último dos godfathers que dominaram a Máfia americana nas duas décadas anteriores. Seus contemporâneos ou já morreram ou gozam a aposentadoria em fortalezas particulares no “Cinturão do Sol” americano – na Flórida, no Arizona, na Califórnia. Gambino misturava uma extraordinária malícia com tato diplomático e férrea disciplina. Com isso, ele chegou a dominar a poderosa Máfia nova-iorquina e, conseqüentemente, estabelecer sua hegemonia sobre as 21 outras “famílias” espalhadas pelos Estados Unidos.

Don Carmine Galante teve topete para divergir do próprio Gambino em vida – criticando o capo, por exemplo, por não querer se envolver no tráfico de narcóticos. Em 1974, ao deixar a prisão depois de cumprir pena de doze anos por tráfico de drogas, Galante, até então membro do segundo escalão mafioso, começou a escalada que o levaria a ser o “rei da droga” em Nova York: ele se apoderou do controle da “família” Bonnano, cujo chefe havia deixado os negócios para viver no ócio em Tucson, Arizona. No começo, as coisas se complicaram: Philip Rastelli, líder de outra “subfamília”, teve que ser advertido com o fuzilamento de um de seus genros para deixar o caminho livre a Galante.

DISPUTA

Métodos pouco sutis foram uma constante na longa carreira criminosa desse Don, nascido em Nova York, filho de imigrantes sicilianos, que começou a delinqüir aos 10 anos de idade e passou mais de vinte em reformatórios e prisões. “Galante vinha forçando muito a barra”, diz o tenente Remo Franceschini, da polícia de Nova York, um especialista em Máfia que há anos seguia a carreira de Galante de perto, lembrando que o capo abertamente dizia querer controlar as “famílias” de Nova York. Para ele, Galante deve ter sido executado por ordens de Frank “Funzi” Tieri, atualmente chefe da “família” do extinto Vito Genovese. Outro especialista, Thomas Puccio, do Departamento de Justiça, acha que Galante não tinha chance de chegar ao topo. “Ele estava muito ligado ao velho sistema – agiotagem, jogo, narcóticos. Isso é muito arriscado hoje em dia para os gangsters. Ele não estava em sintonia com o tipo de extorsão ‘limpa’ que está mais em moda.”

Galante, pois, está de fora – mas não se descarta que a disputa entre os mafiosos continue. Afinal, a Máfia tem interesses em jogo, prostituição, pornografia, agiotagem, extorsões, narcóticos e um leque de atividades legais – de creches e pizzarias e empresas de coleta de lixo, até máquinas de vender cigarro, casas funerárias e lavanderias. E tudo isso, segundo diferentes cálculos do governo americano, movimenta nada menos que 48 bilhões de dólares – ou quatro vezes o volume anual de exportações do Brasil.

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