morte-prefeito

A elucidação do crime hediondo, horripilante de que foi vítima o prefeito petista de Sandro André, Celso Daniel, está merecendo uma enorme mobilização que vai das polícias Civil e Militar de São Paulo, além da Federal, sob pressão do governador Geraldo Alckmin, do secretário de Segurança paulista, Saulo Castro de Abreu Filho, do ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, e do próprio presidente Fernando Henrique Cardoso – sem contar, é claro, a justa cobrança indignada dos líderes, militantes e simpatizantes do PT e de vários setores da sociedade.

O trabalho, aparentemente, está produzindo os primeiros e ainda tênues resultados, e já pôde levantar um considerável elenco de dúvidas. Isso tudo não impede que olhares leigos, mas interessados, como o da coluna, também se dirijam ao caso, e tenham perguntas a fazer sobre a investigação criminal – só perguntas, por ora, e perguntas que talvez estejam martelando a mente dos cidadãos. A elas:

Pergunta 1:

É produtivo que a responsabilidade pela investigação de um crime de tal ordem de importância pipoque quatro vezes, em poucos dias, de uma a outra área da polícia? (Começou pela Delegacia Anti-Seqüestro de São Paulo – afinal, Daniel e o amigo que o conduzia numa Mitsubishi Pajero, o empresário Sérgio Gomes da Silva, foram abordados de forma violenta e o prefeito foi levado pelos bandidos. De lá, resolveu-se que o caso poderia caber à Delegacia Seccional de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, ao que tudo indica pela área em que o corpo de Daniel foi encontrado. Dali, pulou-se para o 26º Distrito Policial, no bairro do Sacomã, em cuja jurisdição a Pajero foi abordada. Finalmente, encaminhou-se o encargo para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, o DPPH da Polícia Civil.)

Pergunta 2:

Por que, num caso tão grave, e que envolvia um amigo tão próximo, o empresário Sérgio Gomes da Silva demorou 25 minutos para chamar a polícia? O seqüestro ocorreu por volta de 23h15 da sexta-feira, 18 de janeiro. O Comando de Policiamento Metropolitano (Copom) da PM foi informado por Gomes da Silva às 23h40. Apesar das críticas feitas à polícia de São Paulo, um telefonema de um simples cidadão pedindo socorro ao número 190 costuma ser atendido em três minutos.

Pergunta 3:

Como se explica que, em se tratando do prefeito de uma das maiores cidades do país – e do coordenador do programa de governo do candidato neste momento favorito às eleições presidenciais de 6 de outubro –, a Polícia Federal, acionada pelo ministro da Justiça, tenha demorado três longos dias para instaurar um inquérito sobre o caso?

Pergunta 4:

Por que a polícia paulista demorou tanto para produzir e divulgar o retrato falado de um dos delinqüentes, entre os seis que supostamente participaram da ação? O empresário foi ouvido em um primeiro depoimento pela polícia durante mais de três horas na madrugada de sábado, 19. O retrato falado foi divulgado apenas na terça-feira, 22. 

Pergunta 5:

Por que a polícia, febrilmente mobilizada diante da gravidade do ataque ao prefeito, avisada do encontro numa estrada secundária em Juquitiba, na Grande São Paulo, de um corpo com características muito semelhantes ao do prefeito, ainda assim demorou uma longa hora para chegar ao local, conforme queixa pública – e justa – do candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva?

Pergunta 6:

Por que a polícia demorou quatro dias para ouvir testemunhas-chave da ação dos bandidos – moradores do bairro do Sacomã que viram a abordagem de dois veículos (uma Blazer e, aparentemente, um Santana) à Pajero?

Pergunta 7:

Por que a polícia permitiu que a Pajero fosse removida para uma revendedora Mitsubishi e, ali, examinada antes da perícia dos especialistas do Instituto de Criminalística paulista? Em qualquer país civilizado do mundo, e até em alguns que não são, é inimaginável a interferência de estranhos na cena do crime, ou num objeto essencial a ela, antes do exame pericial. Inimaginável e gravíssimo.

Pergunta 8:

Por que a PM só começou uma grande operação de busca a Daniel por volta de 5 horas da madrugada, se fora avisada antes da meia-noite de sexta-feira do que parecia ser o seqüestro do prefeito?

Pergunta 9:

Por que a polícia conferiu tanta importância à inócua fita gravada pelo restaurante Rubayat, no bairro do Paraíso, que mostra o prefeito jantando com o amigo, e se esqueceu das cruciais, importantíssimas fitas de vídeo que a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) gravou – como o faz rotineiramente em inúmeros pontos da capital – nas imediações da área em que ocorreu a abordagem da Pajero? Quando alguma autoridade se lembrou desse detalhe, mais de 40 horas depois de ocorrida a ação dos criminosos, as fitas, como de rotina, já tinham sido apagadas. A polícia sabe perfeitamente que isso ocorre um par de horas depois das gravações, sempre que elas não registrem acidentes graves. É certo que nas ruas em que a ação criminosa ocorreu – as ruas Nossa Senhora da Saúde e Nossa Senhora das Mercês, próximo a cujo cruzamento teria começado a perseguição à Pajero – não há câmeras. Nas adjacências, porém, outras câmeras existentes poderiam ter registrado modelo, cor e placa dos dois veículos dos bandidos. Eventualmente, como aventou a Folha de S. Paulo, em competente trabalho de investigação, até mesmo a fisionomia de alguns dos facínoras.

Pergunta 10:

Por que, sendo a Pajero um veículo mais potente e tecnologicamente mais avançado do que os carros que a abordaram, o empresário Gomes da Silva não conseguiu escapar da perseguição?

Pergunta 11:

Por que Gomes da Silva disse que tentou fugir calcando o pé no acelerador, se o Instituto de Criminalística não achou qualquer indício disso no asfalto da rua nem nos pneus do veículo (o pneu furado por tiros dos bandidos, que, murcho, indicaria qualquer movimentação feita com o veículo, não tinha qualquer marca de ter rodado)?

Pergunta 12:

Por que Gomes da Silva alegou à polícia que a Pajero teve problemas de câmbio que inviabilizaram a fuga, se a polícia técnica encontrou o câmbio intacto, e funcionando?

Pergunta 13:

Por que Gomes da Silva disse à polícia (e tornou a repetir na entrevista coletiva à imprensa que concedeu hoje, dia 24) que as portas da Pajero se destravaram com o choque recebido da Blazer dos bandidos, se especialistas da Polícia Técnica verificaram que a) não existe nos veículos  Pajero qualquer sistema que destrave as portas após um impacto e b) as travas elétricas da Pajero, após o episódio, continuavam funcionando normalmente?

Pergunta 14:

Por que Gomes da Silva, que foi segurança do prefeito no passado, tinha porte de arma e andava armado, não sacou da arma – que segundo ele estava numa bolsa, no banco de trás – ou pediu que Daniel o fizesse, nem que fosse para uma tentativa de intimidar os bandidos?

Pergunta 15:

Se não sacou quando atacado, por que Gomes da Silva estava de arma em punho, no meio da rua, depois que o prefeito já tinha sido levado, conforme disse uma testemunha ocular ao Jornal Nacional da Rede Globo – e o próprio empresário confirmou na entrevista de hoje, sem contudo deixar claras as razões?

Pergunta 16:

Se não se tratava de um seqüestro, mas um atentado à vida do prefeito, por que ele foi morto só quatro ou cinco horas depois de capturado, e não executado em seguida?

Pergunta 17:

Se o objetivo era tirar a vida do prefeito, por que, além da demora em fazer isso, os criminosos o torturaram antes – seu corpo exibia fraturas no rosto e sinais de violência em várias outras partes do corpo?

Essas perguntas, naturalmente, nem de longe esgotam o elenco de dúvidas que cercam o caso. (Aqui mesmo em NO., o jornalista Walter Fontoura levanta outras.) Mas estão clamando por respostas.

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