Essa foi muito boa, não? Com a multidão que não sai das ruas exigindo sua renúncia, e depois de deitar e rolar no cargo que exerceu com gosto e mão de ferro por quase 30 anos — a ponto de já ir preparando o terreno para o filho Gamal sucedê-lo, como se o Egito fosse uma monarquia –, o eterno presidente do Egito Hosni Mubarak se declara “cheio” do poder.

Se ele está cheio, imaginemos, então, o povo, depois de três décadas de supressão de liberdades, repressão duríssima, censura à imprensa, corrupção, pobreza, péssimos serviços públicos e eleições fraudadas.

Povo que, por sinal, deu uma demonstração magnífica de civismo hoje, quando dezenas de milhares de pessoas rezaram, voltados para Meca, na agora famosa Praça Tahir, no Cairo, antes da grande manifestação anti-Mubarak que já está começando.

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14 Comentários

Lilian em 08 de fevereiro de 2011

Setti, Ditadura x Fanatismo religioso. O povo do Egito não deve seguir o caminho do Irã. Vamos aguardar os acontecimentos. Abraços!

costamcs em 06 de fevereiro de 2011

Ricardo, obrigado pela sua resposta. De fato o laicisismo não é mesmo a ausência da religião e da fé, mas a possibilidade de convivência entre elas. Tenho me arrepediado também com certos posicionamentos dito laicos mas que mais parecem uma censura religiosa. É que me assusta um pouco a possibilidade (ainda que dizem ser remota, não estou convencida disso) de o povo egípcio ser presa do fundamentalismo islâmico e aí as manifestações civis de outros religiosos é que serão impedidas. Rezo para que a transição para a democracia seja total e o povo árabe como um todo desfrute de paz e respeito ao próximo. Abraços, Marcia Soares Minha torcida é igual à sua, cara Marcia. E na verdade eu pisei na bola no texto. Eu escrevi "civismo" quando quis dizer "civilidade". Abração

Marco em 05 de fevereiro de 2011

Caro R. setti: Para não cometer injustiça, eles tem a qualidade da maior força de vontade q conheço para o trabalho. Abs.

Marco em 05 de fevereiro de 2011

Caro R. Setti: Esse povo conheço bem, são idiotas e infantil, realmente me supreendeu ! Abs.

José Saramago em 04 de fevereiro de 2011

Claro como água Por José Saramago Como sempre sucedeu, e há-de suceder sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém, averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios de que serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da conservação da vida. Ora, só um espírito perverso, panglossiano até ao cinismo, ousaria apregoar a felicidade de um mundo que, pelo contrário, ninguém deveria pretender que o aceitemos tal qual é, só pelo facto de ser, supostamente, o melhor dos mundos possíveis. É a própria e concreta situação do mundo chamado democrático, que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e próxima para tornar-se universal e inacessível. Por definição, o poder democrático terá de ser sempre provisório e conjuntural, dependerá da estabilidade do voto, da flutuação das ideologias ou dos interesses de classe, e, como tal, pode ser entendido como um barómetro orgânico que vai registando as variações da vontade política da sociedade. Mas, ontem como hoje, e hoje com uma amplitude cada vez maior, abundam os casos de mudanças políticas aparentemente radicais que tiveram como efeito radicais mudanças de governo, mas a que não se seguiram as mudanças económicas, culturais e sociais radicais que o resultado do sufrágio havia prometido. Dizer hoje governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou “conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro inalcançável lugar – o do poder económico e financeiro cujos contornos podemos perceber em filigrana, mas que invariavelmente se nos escapa quando tentamos chegar-lhe mais perto e inevitavelmente contra-ataca se tivermos a veleidade de querer reduzir ou regular o seu domínio, subordinando-o ao interesse geral. Por outras e mais claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os povos. E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo povo, que finalmente não é democrático porque não visa a felicidade do povo. O nosso antepassado das cavernas diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim, mas está contaminada”.

Joe em 04 de fevereiro de 2011

Prezado Setti, o Oriente Médio é um enigma que ultrapassa a minha capacidade de compreensão. Acredito que não só o povo do Egito, mas também a população de outros países árabes que estão sendo varridos pelos ventos das mudanças, pouco terão a comemorar quando a tempestade passar. Já vimos isso no Irã, que embora não árabe tem uma cultura similar, particularmente a religiosa, que substituiu uma ditadura secular do Xá Reza Pahlevi por uma ainda mais cruel dos imãs. Há 100 anos Max Weber teorizou que as religiões que tinham uma crença maior em "encantamentos" tinham uma propensão ao atraso econômico e social maior que outras. Os medos e tabus impostos por algumas religiões seriam impedientes ao desenvolvimento. É surpreendente que uma civilização altamente avançada como foi a árabe, tenha aberto mão do pensamento livre em favor de uma interpretação contestada por muitos estudiosos do islamismo, fazendo com que seus fiéis retrocedessem culturalmente. E digo aqui islamismo porque o post versa sobre os acontecimentos ocorridos em um país islâmico, contudo, o que se vê, de uma maneira geral, é o não desenvolvimento de um espírito econômico, social e democrático na imensa maioria dos países do continente africano. Fica então duas dúvidas, decorrentes de minha falta de conhecimento da área: Qual a razão de os países árabes e africanos não darem certo ? Max Weber estaria correto em suas análises ? A excelente questão que você levanta ainda tem um componente complicado e incômodo: o país africano mais desenvolvido, e mais democrático, é a África do Sul, formada por colonos europeus brancos dos quais uma vertente, os descendentes de holandeses, criaram a maluquice horrorosa do "apartheid" para segregar e oprimir a maioria negra. O país está há quase duas décadas sendo dirigido pela maioria negra, mas vale-se dos fundamentos institucionais e econômicos dos colonizadores racistas. Talvez a tese de Weber seja uma das explicações. Mas, tal como você, não consigo compreender como uma civilização que no passado foi tão avançada, como a árabe, tornou-se hoje presa de uma interpretação restritiva e castradora da religião islâmica.

carlos nascimento em 04 de fevereiro de 2011

Algo me diz que o sistema politico do planeta sofrerá grandes transformações, apreciamos vários contrastes, desde a queda do muro de Berlim, o processo ainda é lento, entretanto, verificamos que grandes tabús estão sendo derrubados: O Irã fez o eixo inverso, saiu do Xá de Reza, para um lunático, a Venezuela idem, vive hoje sob o manto de um idiota, Cuba agoniza, Sadam já está em outra morada, os Americanos estão pagando o preço do padrão de vida fora da produtividade e afundado num déficit público imoral, a China vive sua dubiedade, quer ser livre na economia e obscura na liberdade de seus habitantes, o Brasil saiu das trevas do militarismo e se afogou na CORRUPÇÃO da falsa democracia, não sei o que seja PIOR, realmente, que mundo estranho, agora chegou a vez dos árabes, em seu estranho e silencioso mundo de extremistas, sejam religiosos, sejam culturais, a implantação de Regimes democráticos por lá, parece ficção cientifica, custo a crer. Não sou defensor do RA, nem êle precisa disso, porém, a cultura do Oriente Médio não é fácil ter liberdade plena, todos terão que aprender e saber conviver com a maneira do mundo ocidental, essa transformação quem sabe não resulte num modelo melhor do que o nosso, que apesar de "democrático" tem o NOJO da corrupção, lá êles tem o hábito de cortar as mãos de quem é pego com a boca na botija, se mandarmos os nossos politicos para lá, será um caso de transformação imediata, a AMPUTAÇÃO DE MÃOS em escala sideral. Temos vários calcanhares de aquiles, o principal deles chama-se "ISRAEL", não podemos adiar por muito tempo uma SOLUÇÃO final para êsse imbóglio, os judeus e os palestinos precisam se acertar, em definitivo, dessa forma poderemos quem sabe termos um divisor de águas positivo no mundo. Observando tudo isso, some-se o problema da FÉ, realmente a religião está em decadência, buscam apenas e tão sómente a arrecadação dos "dizimos", esquecem que o modelo afunila e levam todos ao naufrágio, é hora de restabelecermos a SOLIDARIEDADE, RESPEITO e, principalmente a VERGONHA NA CARA.

caipira mermo em 04 de fevereiro de 2011

Ricardo O hómi "tá cheio", mas... não quer largar o osso. Temos muito desses aqui no Brasil.

vera scheidemann em 04 de fevereiro de 2011

Está até parecendo o Sarney, querendo que a gente acredite quando diz que faz um sacrifício por permanecer no poder ano após ano. Incrível semelhança, não ? Vera Parece os nossos generais-presidentes, que, docemente constrangidos, ao serem "eleitos", diziam "aceitar a convocação". Eu, hein? Abração, Vera.

costamcs em 04 de fevereiro de 2011

É certo que a queda de uma ditadura é um fato a se comemorar, ainda mais quando vem acompanhada de uma autêntica mobilização civil. Mas não entendi, Ricardo, o porquê da reza ser uma manifestação de civismo. Se você puder me ajudar... Abraços Marcia Soares Civismo parece coisa laica que não combina com religião, não é, cara Marcia? Acho que me expressei mal. O fato é que dezenas de milhares de pessoas, em vez de saírem em manifestação violenta, se recolheram em oração, com a fé deles, durante vários minutos, antes da manifestação. É coisa raríssima, quase impensável um comportamento desses.

Ana em 04 de fevereiro de 2011

No Brasil bem que poderia acontecer um acorda povão HEM...

Altamiro Martins em 04 de fevereiro de 2011

Setti, e não há quem diga -- e mesmo dentre os bravos rapazes da imprensa -- que existem ditaduras não apenas justificáveis, mas necessárias? Malabarismos retóricos e elasticidade moral o quanto bastem... Eis a repugnante receita dos cínicos!

Diocleciano em 04 de fevereiro de 2011

corrigindo: autoritário.

Diocleciano em 04 de fevereiro de 2011

Para esses ditadores eu defendo o mesmo destino que o Sadan Russein: ENFORCAMENTO EM PRAÇA PÚBLICA. Esse ditador egípcio era defendido até por setores da imprensa brasileira, Reinaldo Azevedo, sob o argumento absurdo de que se poderia instalar um regime ainda pior. Na verdade o regime era defendido por ser aliado dos EUA. Mas diante das prisões e agressão a jornalistas agora tentam, vergonhosamente, fazer um mea-culpa. É o caso do blogueiro Reinaldo Azevedo. Um verdadeiro democrata defende a queda de qualquer regime altoritário independende de quem seja aliado. Se o que está ocorrendo no Egito estivesse ocorrendo na Venezuela tenho certeza de que a opinião de certa imprensa brasileira seria totalmente outra.

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