Artigo de 2003: Muita reivindicação, pouca solução

Artigo de 2003: Muita reivindicação, pouca solução Ilustração: domínio público

E mais: o “não” à New Yorker brasileira, dúvidas sobre Benedita, os novos rumos de Thomaz Souto Corrêa, Graziano cobra petistas, a maratona de Berzoini, vereadores e a Daslu, uma imprensa bovina, mais de Marta e o conde – e uma história frase do Dr. Ulysses

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Era inevitável acontecer, e está acontecendo: dezenas de entidades sindicais do funcionalismo público estão se reunindo para formar uma central própria, e deixando, em conseqüência, a Central Única dos Trabalhadores (CUT). As divergências sobre a reforma da Previdência entre sindicatos de servidores e outros setores da CUT, desde há um mês presidida pelo metalúrgico Luiz Marinho, atingiram seu ponto alto com a oposição da central à greve do funcionalismo convocada para a próxima terça-feira, dia 8. Agora, um congresso nacional no começo de setembro vai formalizar o racha.

Marinho, ligado ao comando do PT e ao Palácio do Planalto, vem tendo em relação à reforma proposta pelo governo uma postura consideravelmente mais conciliatória do que boa parte dos sindicatos de funcionários, que arregaçaram as mangas e afiaram as garras para enfrentar o projeto enviado ao Congresso pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Além da recente manifestação de 30 mil pessoas em Brasília, as armas incluíram e ainda incluem manifestos, dilúvios de cartas e e-mails para parlamentares, corpo-a-corpo com deputados e senadores, manifestações de rua e, agora, a tentativa de greve geral. (Alguns setores, como fiscais da Receita Federal, já realizaram ou realizam greves curtas). Estão em marcha, também, levantamentos de intenção de votos dos parlamentares, com o objetivo de expor publicamente as posições dos favoráveis às reformas, no tradicional e odioso patrulhamento sindical destinado a classificá-los como “traidores” do funcionalismo. E, em vários Estados, campanhas de publicidade na TV têm combatido aspectos das mudanças pretendidas pelo governo.

A grande maioria das entidades do funcionalismo se opõe ferozmente à cobrança de contribuição previdenciária dos inativos e à criação de fundos de previdência complementar para futuros servidores que pretenderem se aposentar com vencimentos acima do novo teto comum a funcionários públicos e trabalhadores da iniciativa privada (R$ 2.400,00). Entidades poderosas, como as de magistrados, querem a manutenção das aposentadorias integrais ou mesmo sistema especial, à parte. Diversas outras se opõem à fixação de idades mínimas para a aposentadoria – 55 anos para mulheres, 60 anos para homens, mantidas algumas exceções já existentes na Constituição. E por aí vai. Essas posturas, é claro, encontram eco em setores políticos, a começar pela ala radical do PT.

A reforma da Previdência engendrada pelo ministro Ricardo Berzoini, obviamente, não é perfeita. Muitos consideram, por exemplo, excessiva sua ênfase fiscal, embora nesta já esteja embutida a preocupação social cobrada por alguns críticos. Outros a acusam de não conferir qualquer importância ao INSS, que tem problemas graves, nem à cobrança da colossal dívida de empresários para com a Previdência. Além disso, o pacote estaria passando de trator sobre os atuais servidores, submetidos a uma regra de transição draconiana e insensível. E o governo divulga dados contestáveis sobre o verdadeiro déficit da Previdência pública, já que sistematicamente omite, entre outras coisas, a falta de contrapartida de União, Estados e municípios à contribuição mensal dos atuais funcionários.

O problema é que a preocupação sobre como resolver as questões cruciais da Previdência raramente aparece entre a maioria dos sindicatos de funcionários, cuja cantilena tem fustigado os ouvidos da opinião pública com o que parece ser um único e exclusivo objetivo: salvar o seu. As entidades vêm sistematicamente mostrando ter muito a reivindicar, mas pouco ou nada a sugerir sobre como evitar a derrocada de um sistema que privilegia uma minoria de funcionários e cujas contas, com um rombo cada vez maior e mais assustador, são pagas pelo conjunto da sociedade.

“The New Yorker” em português?

Um grande grupo de comunicação brasileiro tentou comprar os direitos para o Brasil da sofisticadérrima revista semanal The New Yorker.

Recebeu um “não” como resposta da The Condé Nast Publishing Inc., dona do título.

Contabilidade de botequim

Os recém-divulgados resultados das contas públicas – números já fechados – relativos a maio mostram, novamente, o cavalar esforço de ajuste feito pelo governo, com a obtenção de superávits primários bem superiores aos 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) acertados com o Fundo Monetário Internacional (FMI) – e vários furos acima dos 3,5% e, depois, 3,75% do PIB obtidos nos tempos do arrocho do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan: precisos 5,73% do PIB.

Os quase 37 bilhões de economia acumulados em cinco meses por União, Estados, municípios e empresas estatais para pagar juros superam em perto de 2,5 bilhões o combinado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para todo o primeiro semestre deste ano. Isso tudo é música para o chamado mercado, sobretudo porque a dívida do setor público chega agora a 53,6% do PIB, depois de já ter estado em 62%.

As cifras, porém, se examinados à luz da velha contabilidade de botequim, como vem fazendo esta coluna, dão um frio na barriga: mesmo com uma economia de 37 bilhões, feita à custa dos imensos sacrifícios conhecidos, a conta dos juros da dívida pública – só a dos juros, sem o abatimento de 1 ceitil do principal – superou os 65 bilhões. Ou seja, nesse período, o governo precisou ir buscar no mercado os 28 bi que faltaram.

Sinal amarelo

A pelo menos um colaborador qualificado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou escapar suas sérias dúvidas a respeito da capacidade administrativa da ministra Benedita da Silva, da Ação Social.

O cadastro também é do PT

Teve duas passagens duras a intervenção do ministro da Segurança Alimentar, José Graziano, no recente Encontro Nacional de Vereadores e Deputados Estaduais do PT, em Brasília. Ele considerou “vergonhoso” o cadastro único de famílias carentes herdado da administração FHC pela de Lula e puxou as orelhas de vereadores e deputados petistas por suposto desinteresse diante do programa Fome Zero.

Ficou faltando, porém, dizer que, se o cadastro é efetivamente “vergonhoso”, os quase 200 prefeitos, os 35 vices e os 2.500 vereadores do PT têm sua parcela de culpa. Como se sabe, boa parte da responsabilidade pela elaboração dos diversos cadastros de carentes disponíveis cabe a quem tem com eles maior proximidade: as autoridades municipais.

Ainda bem

A notícia de que Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente executivo e diretor editorial da Editora Abril, deixa suas funções executivas depois de quatro décadas só não é um desastre para a empresa e para a imprensa brasileira porque ele continuará, entre outras tarefas, a ser consultor da Abril na área editorial.

Internacionalmente respeitado como um grande fazedor de revistas, e, disparado, o mais competente da imprensa brasileira no ramo, Thomaz é literalmente insubstituível.

Semântica

Se você quer arranjar problemas com a secretária de um empresário ou executivo influente em São Paulo, chame-a de secretária. A velha e boa profissão de secretária, digna e utilíssima, está desaparecendo nesses meios. Não há mais secretárias. São, agora, todas “assistentes”.

Maratona

O ministro Ricardo Berzoini já contabilizou a participação em 160 encontros, mesas-redondas e debates sobre a reforma da Previdência em todo o país desde sua posse no cargo, em janeiro.

Outro empresário no PT

Nelson Fernandes, ex-integrante do alto comando da campanha presidencial de Ciro Gomes, acaba de deixar o PPS e se filiar ao PT para se candidatar a prefeito do balneário de Guarujá (SP). É mais um empresário de porte a ingressar no partido de Lula.

Fernandes possui uma rede de 22 lojas de artigos de couro em shopping centers em diferentes cidades, a Inovathi, e já foi proprietário da Le Postiche, cadeia do mesmo ramo que, além do negócio próprio, chegou a ter 110 lojas franqueadas.

Ele disputou a prefeitura do Guarujá em 2000 pelo PPS, perdendo para o prefeito Maurici Mariano (PTB), candidato à reeleição.

Com a camisa da seleção

Além de servir para desgastar a imagem da seleção pentacampeã mundial de futebol, a recente Copa das Confederações não serviu para rigorosamente nada, nem para as estatísticas dos craques: nenhum dos que atuaram nos três jogos figura entre os dez jogadores que mais vezes jogaram pela seleção.

O goleiro Dida tem a melhor posição entre os 22 que Parreira levou para a França, segundo as estatísticas irretocáveis do jornalista Celso Unzelte, autor, entre outros, dos best-sellers “O Livro de Ouro do Futebol Brasileiro” (Ediouro, 2002) e “Almanaque do Timão” (Abril Multimídia, 2000). Dida pulou de 56 para 59 partidas, mas continua no mesmo posto de o 26º jogador que mais vestiu a camisa amarela.

Os dez que mais atuaram são, na verdade, onze, pois dois jogadores empatam na décima posição. Os onze são:  Cafu (115 jogos), Taffarel (101), Djalma Santos (98), Roberto Carlos (95), Gilmar – o grande goleiro do Corinthians e do Santos e titular das copas de 1958 e 1962 (94), Pelé, Rivelino e Dunga (91), Aldair (81), Jairzinho e Leão (80).

Como se pode constatar pela lista, o lateral Roberto Carlos, do Real Madri, em grande forma aos 30 anos recém-completados, tem boa chance de se tornar o segundo da lista, pois, tal como Cafu, deve disputar as eliminatórias para a Copa de 2006 a partir de setembro – e elas prevêem 18 partidas para cada uma das 10 seleções participantes do grupo do Brasil.

Números irrelevantes

O Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República, tem 4.283 metros quadrados de área construída.

Números relevantes

A produção brasileira de aguardente de cana atingiu 1,3 bilhão de litros em 2002, segundo a Federação Nacional das Associações de Produtores da Cachaça de Alambique (Fenaca).

Style news

Fez sucesso entre amigos que o encontraram no restaurante Parigi, em São Paulo, o novo visual do deputado e ex-ministro Luiz Carlos Santos (PFL-SP): uma brilhante cabeleira grisalha, quase branca.

O MP, os vereadores e a Daslu

Está certo que a autonomia do Ministério Público representa uma conquista da sociedade incorporada pela Constituição de 1988 – e não seria exagero se a Carta, como queriam muitos, tivesse transformado o MP num quarto poder, em vez de mantê-lo ligado ao Executivo.

Mas o MP, aqui e ali, tanto na União como nos Estados, incorre em exageros. É o caso do promotor de São Paulo Sílvio Marques, que estuda a possibilidade de processar por improbidade os vereadores paulistanos responsáveis pela aprovação de recente projeto de lei da prefeita Marta Suplicy anistiando, sob uma série de condições, comerciantes indevidamente instalados em áreas residenciais.

É até compreensível a braveza do promotor, igual à de muita gente, ao constatar que certas ruas foram colocadas a dedo na lei, como a chique João Lourenço, no bairro de Vila Nova Conceição, onde se situa a butique mais cara do Brasil, a Daslu. Mas os vereadores exerceram, para o bem ou para o mal, prerrogativas que a Constituição lhes atribui. Quem deve cassá-los, se for o caso, é o eleitor.

Mediawatch (1)

Jornais e revistas, em fase de amargo aperto financeiro, poderiam economizar mais do que têm feito se, em vez de mandar determinados coleguinhas para a cobertura em viagens oficiais do presidente da República, enviassem, em seu lugar, gravadores. É impressionante como nessas viagens, pelo Brasil ou no exterior, a esmagadora maioria das reportagens limita-se a pouco mais do que transcrever discursos e declarações. Repórteres deixaram de fazer aquilo que remonta à própria origem ancestral do ofício: ver e contar o que viram.

A recente visita à Colômbia de Lula, convidado de honra da 14ª reunião de cúpula da Comunidade Andina de Nações, foi exemplo típico. Houve repórter de determinado jornal que, em seu texto de encerramento, se esqueceu até de dizer em qual país fica a cidade-sede do encontro, El Carmen de Viboral.

Prioridades

Pela cotação desta quarta-feira, 2, os 600 milhões de dólares a serem injetados pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na fusão da Varig com a TAM equivalem a 12 vezes o que o governo vai gastar com o programa Primeiro Emprego, que visa dar trabalho a 100 mil jovens brasileiros este ano.

Mediawatch (2)

Poucas vezes se viu tanta asneira quanto a torrente de machismo basbaque despejada sobretudo pela TV, mas não apenas por ela, diante do trio de arbitragem feminino que apitou o jogo São Paulo e Guarani, em Campinas (SP), no domingo, 29.

Só mesmo o imenso fair-play da juíza Sílvia Regina de Oliveira e das bandeirinhas Ana Paula de Oliveira e Aline Lambert pôde fingir que eram elogios as declarações de surpresa ante o fato de que elas, apesar de mulheres, são capazes de entender e processar as regras do futebol.

Só os jogadores reagiram com naturalidade: xingaram as três sem problemas.

Justiça em recesso

Felizmente o Brasil, como a Nova Zelândia e as Ilhas Faroë, é um país rico e feliz, praticamente sem problemas, conflitos ou litígios que, quando ocorrem, são rapida e satisfatoriamente resolvidos, sem filas e sem espera.

Caso contrário, alguém já teria proposta uma mexidinha no parágrafo 1° do artigo 66 da Lei Orgânica da Magistratura, de 1979. É por causa dele que, excetuados os Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs), todos os demais tribunais do país estão desde ontem, dia 2, em férias coletivas por 30 dias, da mesma forma que o farão novamente no dia 2 de janeiro de 2004.

Estão parados, funcionando apenas com plantões para urgências, os 27 Tribunais de Justiça do Distrito Federal e dos Estados, os cinco Tribunais de Alçada (estaduais) existentes em São Paulo e Minas Gerais, os cinco Tribunais Regionais Federais (TRFs), o Tribunal Superior do Trabalho (TST), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

As razões de magistrados e funcionários desses tribunais não poderem, como os mortais comuns – inclusive os trabalhadores em serviços essenciais, como os bombeiros ou a polícia –, tirar férias em caráter rotativo, para que parte considerável da Justiça não feche suas portas dois meses por ano, permanecem mergulhadas em impenetrável mistério.

Marta no gabinete do conde (continuação)

Foi publicada aqui a história do futuro gabinete da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), no quinto andar do que será a nova sede da Prefeitura, o Edifício Patriarca, ex-quartel-general do quebrado grupo empresarial Matarazzo, no centro histórico da capital.

Ali era o local de trabalho do conde Francisco Matarazzo Júnior, o “conde Chiquinho”, filho do fundador do império e condutor dos negócios do grupo desde a morte do pai, em 1937, até a sua, em 1977. O imenso gabinete ocupava quase todo um andar e tinha uma única cadeira: a que Matarazzo usava para se sentar à escrivaninha, já que o conde costumava despachar sentado, mantendo funcionários e visitantes em pé. (Se quiser conferir, clique à direita em “Será que vice faz alguma falta?” e vá à nota “Marta no gabinete do conde”).

Pois bem, publicada a nota, manifestou-se antigo diretor do grupo Matarazzo para acrescentar que, além de o conde despachar sentado, os usos e costumes da época rezavam também que o funcionário, uma vez concluído o despacho, devia afastar-se do dono sem lhe virar as costas.

Disseram

Do deputado Ulysses Guimarães (1916-1992), então do PMDB paulista e presidente da Assembléia Nacional Constituinte, ao promulgar, no dia 5 de outubro de 1988, a Constituição que redemocratizou formalmente o Brasil após 21 anos de ditadura:

–Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.

 

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