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Alessandra Negrini (Foto: Pablo Saborido)

Texto de Tom Cardoso e Kika Brandão, publicado em edição impressa da revista mensal Alfa, da Editora Abril

 CAIXINHA DE SURPRESA

Aos 42 anos, a atriz diz que preserva a rebeldia, rejeita rótulos e só tem uma grande certeza: o que a segura é sua arte

Alessandra Negrini cultivava até pouco tempo um hábito dos mais edificantes: tirar autorretratos nus em hotéis pelo mundo. A beleza das cidades – e dos hotéis – a inspirava: no Cipriani, em Veneza, chegou a posar para si mesma pelo menos uma dúzia de vezes.

Pronto: Alessandra é a nossa Scarlett Johansson, a atriz americana, igualmente provocante e sexy, que também mantinha o solitário passatempo até suas fotos serem hackeadas. Scarlett que nos perdoe, mas muito antes de seus ménage à trois em filmes de Woody Allen ganharem o mundo, a atriz brasileira já transbordava sensualidade em rede nacional.

Sua atuação, em 1995, em Engraçadinha: Seus Amores e Seus Pecados, minissérie da TV Globo baseada na obra de Nelson Rodrigues, tornou-se clássica.

Não pense que ela se sente confortável com o estereótipo criado em torno de sua carreira de atriz. “Antes, eu ficava de saco cheio. Não fico mais. Esse negócio de ninfeta, de mulher fatal, é só um desejo dos outros. Não tem nada a ver comigo. O que me segura é a minha arte”, afirma, com o queixo à frente, meio aporrinhada.

A irritação de Alessandra se justifica. Aos 42 anos, mais da metade deles dedicados à dramaturgia, é dona de um currículo extenso e diverso que não se sustenta apenas na sua beleza e alta carga erótica. Uma prova são seus últimos papéis no cinema, em três filmes bastante elogiados pela crítica, nenhum como femme fatale.

Em 2 Coelhos, dirigido por Afonso Poyart, já fora de cartaz, interpreta uma advogada corrupta. Em Abismo Prateado, de Karim Aïnouz, inspirado na canção Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, a atriz foi elogiada no denso papel de uma dentista abandonada pelo marido, que vaga solitária pelas ruas do Rio.

Em O Gorila, de José Eduardo Belmonte, Mariana Ximenes é a protagonista, mas quem rouba a cena é Alessandra, que faturou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival do Rio 2012. “É uma atriz com rara inteligência e entendimento de texto. Está sempre uns cinco passos à frente”, afirma Belmonte.

Nem ninfeta, nem atriz de filmes cabeça

Que não venham de novo com reducionismos baratos. Alessandra não é nem a ninfeta de Engraçadinha e tampouco a atriz de filmes cabeça. Ela se sente confortável e capaz tanto num longa-metragem existencialista de Júlio Bressane (está divina em Cleópatra) quanto no papel de uma cantora na novela das seis Lado a Lado.

“Tenho o maior orgulho da minha cinebiografia. Trabalhei com Bressane, Karin e, agora, com o Belmonte. Fazer cinema de autor era o que mais desejava na vida, mas isso não quer dizer que não goste de fazer novela”, diz. “Sou idealista, mas tenho os meus pés no chão. Sei que não estamos na Europa. Preciso sobreviver, tenho dois filhos [um de cada ex-marido, o ator Murilo Benício e o cantor Otto], mas não faço novela para ganhar dinheiro. Gosto de fazer novela, tenho prazer em atuar, estar em cena, mas não por muito tempo. É um ritmo de trabalho intenso e você doa muita energia.”

Pergunto a Alessandra se passar dos 40 anos mudou sua vida. O queixo vem à frente novamente. “Não sei de onde vem essa história de que os 40 são o final de alguma coisa. Que mundo é esse que pensa que a vida termina aos 30? Acho que aos 40 anos nem cheguei no auge ainda”, diz.

Ela, aliás, não mudou quase nada. “Esse jeito de menina vou ter até morrer. Não falo só da aparência. Minha curiosidade é quase juvenil.” E a fama de indomável, de mulher difícil, é justa? “Ah, sou um pouco rebelde mesmo. Mas não vai colocar aí como manchete: `Eu sou rebelde’. É ridículo, infantil isso. Quando falo em rebeldia penso em uma atitude crítica em relação à sociedade, e não simplesmente em uma postura cool”, explica.

Ex-estudante de Ciências Sociais da USP, Alessandra garante que não perdeu a combatividade política com a vida dedicada aos palcos e continua atenta ao que acontece no país. Assuntos da vez: o julgamento do mensalão, o STF e Joaquim Barbosa. “Acho que a corrupção tem de acabar. O Judiciário precisa mostrar serviço. Agora, não pode ter dois pesos e duas medidas. Tem de ser para todo mundo, e não só para o PT”, diz.

Por ora, sem autorretratos nua

Mudo de assunto e pergunto se ela ainda faz os autorretratos nua. Ela diz que não, que mantinha o hábito quando viajava mundo afora, participando de festivais de cinema e se hospedando em hotéis suntuosos. Com a rotina imposta pela novela e a vida na ponte aérea, aposentou temporariamente o hobby de fotógrafa de si mesma. Malditas novelas.

As fotos a seguir, que você pode ver em tamanho maior clicando nelas, são todas do fotógrafo Pablo Saborido.

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“Acho que aos 40 anos nem cheguei no auge ainda” (Foto: Pablo Saborido)

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