A conferência de edições internacionais de Playboy realizada na Croácia em 1998 se tornou, entre outros atrativos, uma oportunidade mais para reencontrar uma figura peculiaríssima e um companheiro instigante e de convivência enriquecedora. Tratava-se de Stan Barets, o editor da edição francesa de Playboy, que eu conhecera três anos antes em evento semelhante em Acapulco, no México.

Intelectual, escritor, pessoalmente refinado e quase sempre com um sorriso irônico dependurado no rosto, é ele o cara de paletó azul nesta foto com sua equipe no final dos anos 90.

Não dizia, mas transmitia a permanente impressão de que achava aquilo de editar Playboy algo que não estava à sua altura. Sua ironia ferina e inteligente voltava-se muito para a seriedade quase monástica com que alguns dos americanos — a minoria, diga-se — tratavam de uma revista que, afinal de contas, era feita para divertir.

Em sua redação, disputava-se para saber quantos livros já havia publicado. Alguns diziam que a marca superava vinte — não havia o Google para pesquisar. Outros, brincalhões, alegavam que o chefe era mentiroso.

Tivera, até então, vida movimentada, que incluiu ser dono de uma livraria, fundador de uma editora e autor do primeiro dicionário de ficção científica escrito na França.

Viajante inveterado, curtia lugares tão diferentes como Bali, na Indonésia, e o Estado do Arizona, nos EUA, que volta e meia migravam sob forma de texto para sua revista. Sua especialidade eram os quadrinhos, mas dizia interessar-se também por ficção científica, pintura e motocicletas — tanto que pilotava uma pelas ruas de sua cidade, Paris.

Nascido no região basca da França, não conheci, contudo, ninguém mais francês do que ele, situado a anos-luz dos bascos espanhóis desejosos de se tornarem um país independente. Tão francês que acrescentava à sua lista de interesses, com esnobismo extraordinário, “antiguidades mesopotâmicas”. E, claro, graduou-se em Ciências Políticas e em Literatura Francesa.

Não obstante, em nossas conversas, espantava-se com meu interesse pelo cinema de seu país, sobretudo com meus parcos conhecimentos sobre atrizes, atores e diretores, como se se tratasse de um exotismo incompreensível.

Seus comandados o sacaneavam dizendo que suas tiradas só faziam rir a ele mesmo, mas não concordo. Tinha humor fino, o danado. E fazia gênero: seu lema, a espécie de divisa que definiria sua vida, segundo ele, consistia em “fé, esperança e angústia”.

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