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A estação de esqui de La Bonaigua, na Catalunha, Espanha: faltando neve no inverno

A atual fase da Espanha realmente não é das melhores.

Falta emprego: há quase 5 milhões de pessoas desempregadas, 23% da população economicamente ativa.

Falta dinheiro: o déficit público bate recordes.

Falta produção: a economia está próxima do crescimento zero.

Agora, falta algo fundamental para as férias de inverno, em que a rede hoteleira especializada e as pistas de esquis nas diversas estações existentes no país estão apostando muito, inclusive quanto à afluência de turistas estrangeiros: neve.

A “seca” dos Pirineus

A zona mais afetada é a dos Pirineus, a linda cadeia de montanhas que ocupa faixa de 415 quilômetros entre os mares Mediterrâneo, ao sul, e Cantábrico, ao norte, predominantemente na divisa da Espanha com a França, e que engloba o principado de Andorra, concorrido destino nos meses mais frios do ano.

Somente na parte da cordilheira circunscrita à comunidade autônoma da Catalunha, o chamado “turismo de neve”, no qual se destaca a atividade do esqui, gera entre 325 e 400 milhões de euros anuais, de acordo com o governo local. Cerca de 28 mil empregos são criados a cada inverno para atender a demanda de visitantes.

Só que a temporada de esqui 2011-2012, que já era para estar aberta há duas semanas, ainda engatinha, com a maior parte das estações de esqui fechadas durante a maior parte do tempo, basicamente porque as temperaturas não baixaram o esperado e, a não ser para quem sobe a mais de 1.900 metros de altitude, simplesmente não é possível encontrar neve suficiente.

Como resultado, nos últimos dias, apenas 30% de toda a rede hoteleira catalã dedicada ao turismo invernal estava ocupada.

A polêmica e irônica solução: máquinas de neve artificial

E para as estações que já abriram, a solução parcial tem sido polêmica e irônica: o uso de máquinas fabricantes de neve. Masella, uma das estações catalãs, por exemplo, só começou a funcionar esta semana graças a esses aparelhos.

Resumidamente, as máquinas de fazer neve copiam o mecanismo que a natureza tem para criá-la. Na forma de um canhão, produzem um jorro de pequenas gotas de água e ar pressurizado.

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Máquina de produzir neve em ação em Oberstdirf, na Alemanha: agora, em uso também na Espanha

Em condições propícias de umidade e temperatura (a partir de 1 grau abaixo de zero; se esquentar, nada adianta), esse jato esfria a ponto de se solidificar, formando a neve artificial que, mais seca, pode até ser mais propícia à prática de esqui e snowboarding do que a natural.

Em Candanchú, estação de esporte invernal localizada no pirineu de Huesca, em Aragón, comunidade autônoma vizinha à Catalunha, 23 destes canhões foram encomendados este ano. Trabalhando juntos, são capazes de produzir neve para até 12 hectares.

Muitas vezes as máquinas ajudam a resolver o problema, mas seu uso é, além de bastante irônico por motivos óbvios, contestado por ambientalistas, que apontam aspectos negativos em sua utilização, como a erosão que causa ao solo e seu alto consumo de energia elétrica e de água virgem das montanhas.

Além do mais, para os proprietários das estações de esqui, custa dinheiro, enquanto a neve natural é de graça.

Preços congelados

A tendência é que, conforme o frio europeu avance – se está a duas semanas do início oficial do inverno -, a situação se normalize nas estações do nordeste e norte espanhol, amortizando um pouco as perdas financeiras de quem trabalha nestas regiões.

Mas, mesmo assim, esta temporada não figurará nem de longe entre as melhores da história, inclusive para outros pólos do país, como a Sierra Nevada, na Andalucía, ao sul. Os 24,3 milhões de euros investidos este ano em estações de esqui da Espanha correspondem a 60% a menos do que o gasto em 2010.

O momento de abrupta contenção de despesas fez com que a rede dedicada a esta atividade turística congelasse – sem trocadilho – os preços, elaborando uma série de pacotes econômicos para a temporada que começa. Resta ver se o quanto esta fria – novamente, sem trocadilho – em que se encontra a Espanha repercutirá no setor quando a primavera chegar.

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Reynaldo-BH em 09 de dezembro de 2011

Setti, meu amigo. estou sentindo falta de um post seu sobre a crise na Europa que avança a cada dia, no mais interessante fenômeno político, econômico e social destes dias. O Euro irá resistir? A Alemanha conseguiu, sem disparar um tiro, o que não conseguiu com duas Guerras mundiais? Sarkozy como menino de recado é vergonhoso. 23 dos 27 países aceitaram o "prato-feito" que atende pelo nome de Merkozy? Dará tempo para remendar (ou alterar mesmo!) o acordo de Lisboa? á no Brasil a crise européia ainda é ista como algo distante e irrelevante;. Mais um erro de avaliação, repetindo o comportamento da crise do petróleo que o Brasil, à época, demorou anos para reagir. O tamanho, profundidade e seriedade desta crise deixou de ser tema para observadores distantes e curiosos. Já chegou aos nossos bolsos. De onde eles acreditam vir a estagnação da economia brasileira que cresceu, no último trimestre, menos que todos os BRIC´S? E pior, menos que a Zona Euro mesmo em crise! A atitude do governo Dilma tem variado entra uma incompreensível sensação de "revanche" e alegria com a crise européia a uma ficção de uma blindagem que não resiste a um tiro de espingarda de ar-comprimido. Os fatos já demonstram. Creio estarmos vivendo momentos históricos. Que irão marcar o futuro não só de um continente, mas de todo o planeta. Seja nos aspectos de revisão do estado social, na mudança de paradigmas trabalhistas, na cultura própria e peculiar de vizinhos, no momento inoportuno (momento que a China domina o centro deste jogo de xadrez que é a economia mundial), da integração em risco, etc. etc. A crise atual, em relação aos efeitos que causa e causará, é o momento político que mais se aproxima das consequências das guerras mundiais. Tão ou mais intenso nos diversos aspectos que se observe. É mesmo uma guerra sem tiros. mas com uma arma ainda mais poderosa: o poder econômico e as estruturas sociais. Que a neve que falta a Espanha neste inverno não seja presságio de outras nevascas. Caro Reynaldo, estou acompanhando o dilúvio de informações, muitas vezes contraditórias, sobre a situação da União Europeia e estou me abstendo de entrar no assunto porque a cobertura do site tem sido bastante extensa. Mas, claro, vou precisar fazer isso. Aguarde, por favor. Minha visão particular é de que a Merkel está certa. Se não houve cessão de soberania para que a UE supervisione orçamentos, déficits e outras coisas, não há como haver "união fiscal". Sem união fiscal, a UE não avança, porque os países que não cumprem metas acabam confiando em que, no final, serão socorridos e isso não é mais possível e nem é correto, além de não ser funcional. Mas tentarei discutir isso no futuro post. Um grande abraço

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