Homem decente, este ministro do Planejamento, João Batista de Abreu. Num governo em que todo mundo quer gastar, é um dos poucos que enfrenta a terrível solidão de querer cortar, levando a sério o ogre pavoroso que é o déficit público. Mas o ministro Abreu é um homem de pés no chão. Tanto é que, assim que os ministros do doutor Ulysses Guimarães deixaram o governo, na semana passada, e se abriu a possibilidade de se enxugar a máquina administrativa, fundindo-se os três ministérios abandonados a três já existentes. Abreu, perguntado sobre o significado da eventual fusão, limitou-se a dizer que poderia ter “um bom efeito psicológico”. 

Abreu sabe do que fala. Efeito psicológico, e olha lá – já que são tão gulosos os olhos dos políticos do Centrão sobre os três ministérios vagos, que o presidente José Sarney, ao final de seu périplo boliviano, provavelmente não vai extinguir ministério algum. Se fizer desaparecer os ministérios da Cultura, da Ciência e Tecnologia e da Previdência Social, porém, podem os contribuintes ficar sossegados: não vai sumir um único cargo para poupar seus bolsos.

É que tem sido essa a curiosa regra da austeridade governamental brasileira: fecham-se órgãos, quando se fecham, mas as despesas continuam as mesmas, quando não aumentam. Pioneiro país, o velho Brasil. A Revolução Francesa, como se sabe, formulou que o direito ao trabalho é um dos direitos fundamentais do homem? Pois o Brasil foi à luta, e inventou que o direito de refastelar-se num cargo público é um direito divino.

Ao longo de nossa tumultuada história, derrubam-se governos, cassam-se mandatos e passaportes, prende-se e arrebenta-se, confiscam-se até bois – mas não se demite funcionários. As derrubadas ilegais, as cassações criminosas, as prisões violadoras dos direitos humanos, os confiscos inócuos e beirando ao ridículo, todos foram feitos; as demissões necessárias, jamais.

O ministro da Administração, Aloizio Alves, é verdade, mandou fazer um censo geral do funcionalismo – lá se vão dois anos – e descobriu que havia 200 mil servidores ociosos. Só que, por prodígios de Macunaíma, nem um único foi para a rua. Todos seriam “reaproveitados”, garantiu o ministro. Ninguém sabe até hoje se isso ocorreu, e como – e por via das dúvidas a Nova República, segundo o Tribunal de Contas da União, contratou mais 140 mil. Para arrematar, a Constituinte está querendo dar estabilidade para todo mundo – incluídos no bolo também funcionários de empresas estatais, estaduais e municipais. Uma festa.

Nesse quadro magnifico, um exemplo estelar foi o Banco Nacional da Habitação, o malfadado BNH. Enérgico, o presidente José Sarney extinguiu o BNH. Volatizado o banco, sobraram 8 mil 300 funcionários – mas metade da Nova República saiu correndo para socorrer os desvalidos, à custa do nosso bolso.

Para se adaptar ao Plano Cruzado, como se sabe, os bancos privados levaram um colossal safanão e tiveram que demitir 100 mil bancários. Para se adaptar ao caos econômico que ele próprio ajudou a criar, porém, o governo não conseguiu sequer demitir gente de um banco que ele mesmo fechou. Todos foram ou estão sendo, efetivamente, “aproveitados” na Caixa Econômica Federal, que para “aproveitá-los” acabou também “aproveitando” boa parte dos imóveis do desativado BNH, não vendendo nenhum deles – e não mostrando competência para vender o único ostensivamente vazio, o espetacular edifício sede, no Rio. Sendo assim, qual terá sido a misteriosa economia feita com essa extinção?

Por essas e outras, tem absoluta razão o ministro João Batista de Abreu. Se o governo fechar os três ministérios temporariamente vagos, para fundi-los com três já existentes (os da Educação, da Indústria e Comércio e do Trabalho), não vai acontecer nada – exceto, talvez, a nomeação de mais funcionários, com o pretexto de, agora, ajudar a fazer a fusão. Não pensem que é brincadeira. Com o velho Brasil não se brinca.

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Documento original © Reprodução; Ilustração: Nicoliéllo

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