Essa capa com Marisa Orth nunca foi superada como a sétima edição mais vendida em bancas da história da revista, com 669,5 mil exemplares — aos quais devem se somar cerca de 170 mil assinantes na época.

Arrebatou, ainda, recorde histórico, igualmente nunca ultrapassado, de 168 páginas e meia de publicidade vendidas, diante da expectativa do mercado com o sucesso que faria Marisa, então no auge da popularidade como a personagem burra, mas sensual, da “Magda” do programa cômico Sai de Baixo.

Mulher diferenciada, inteligente, culta, formada em psicologia e atriz consagrada também no teatro, seu contrato foi negociado diretamente por mim. A primeira reunião ocorreu em seu apartamento no Alto de Pinheiros, com uma ampla sala e uma vista espetacular. Levei de presente a ela um belo livro, encadernado, contendo os melhores contos de grandes autores norte-americanos publicados pela revista nos Estados Unidos.

O bom relacionamento que estabeleci com Marisa, expresso nessa dedicatória que ela posteriormente escreveu na capa da edição, infelizmente não se estendeu à equipe de Playboy que participou do processo de feitura do ensaio.

Digo que nossa equipe, capitaneada pela editora Ariani Carneiro, “participou”, e não conduziu, porque Marisa impôs como condição de expor sua nudez na revista a escolha do fotógrafo, o excelente Willy Biondani — que jamais havia feito trabalhos anteriores para Playboy –, descartou nosso pessoal, altamente experiente, e exigiu ter todo o trabalho de produção e direção de arte a cargo do artista e cenógrafo Gringo Cardia, também um ótimo profissional.

Como este site não está para fazer média com ninguém, preciso contar que o problema não foram Biondani e Cardia, foi Marisa. Ela revelou-se autoritária e arrogante, criando problemas para a atuação do time da revista — cada vez mais limitado a assistir o que se estava passando e a ter um papel secundário num trabalho no qual a Editora Abril estava investindo uma fortuna –, agindo por conta própria e, não raro, destratando as ótimas, educadas e corretas profissionais de minha equipe.

Marisa, contrariando a ótima impressão que eu dela tivera naquele primeiro contato e, depois, em dois almoços de que participou sua advogada, Denise Jardim, revelou uma faceta que me surpreendeu: não tomava o menor cuidado com o material de produção (por descuido que pareceu proposital, estragou um par de sapatos caríssimo), tinha ataques de estrelismo, gritando com Ariani e com a produtora Florise Oliveira, mandando que uma ou outra lhe trouxessem água ou cafezinho, como se fossem copeiras, e por aí vai.

Furioso com o que se passava, conversei com as duas e, de comum acordo com Ariani, resolvemos que uma intervenção minha, dando uma dura em Marisa Orth, só complicaria mais as coisas. Impressionantemente dedicada a suas funções, Ariani me disse, textualmente, que era melhor engolir sapos do que correr o risco de atrasar a edição de aniversário.

Além disso, apesar de se sentir, tal como Florise, desrespeitada, ela considerou que a feitura do ensaio andava bem e o resultado final valeria a pena.

De fato, o que salvou o trabalho acabou sendo o profissionalismo dos principais envolvidos — as ótimas fotos de Biondani, os cenários e adereços bolados por Cardia e, sim, o comportamento impecável de Marisa diante das câmeras. Foi, contudo, a única vez em cinco anos como diretor de Redação de Playboy em que meu time não teve o pleno controle do andamento de um ensaio.

Passamos, todos, dias de muita tensão que, no final, acabaram compensando.

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1 comentário

Normitcha em 25 de abril de 2015

Caro Setti, dei uma visitada rápida no Blog, gostei muito. Me surpreendi com a matéria sobre Marisa Orth, me caiu os butiás do bolso. Eu nunca morri de amores, agora menos ainda, ela vai para a mesma estante onde já estão guardadas Glória Pires, Fernanda Torres, Giovana Antonelli e Chico Buarque de Holanda. Brasileiros que ganham dinheiro no Brasil e gastam em Paris e Miami, mas o que me deixa vexada é eles não gostarem de interagir com os fãs.

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