Image
Mulheres em ação (Foto: Divulgação)

Tive o privilégio – benza Deus! – de trabalhar com mulheres desde o começo, já longínquo, de minha carreira.

Comecei cedo, com 18 anos, e hoje, com algumas décadas mais, posso dizer que vi, com prazer, a profissão passar de machista, quase misógina, para uma daquelas em que as mulheres mais se aproximam da plena igualdade com os homens, embora ainda considere um absurdo haver tão poucas mulheres nos postos principais de mando de grandes veículos e empresas de comunicação.

Trabalhei com mulheres na condição de colega, na de subordinado e na de chefe. Vivi, entre muitas outras, a riquíssima experiência de chefiar dezena e meia de mulheres jornalistas muito categorizadas – diretoras de Redação – durante quase dois anos, na qualidade de Diretor Editorial das revistas femininas da Editora Abril.

Tal como se deu na profissão com a crescente presença feminina, também me beneficiei enormemente desse convívio ao longo dos anos.

Sensibilidade, seriedade, aplicação, coragem

Aprendi muito – a dar valor à intuição, a aprimorar a sensibilidade e a admirar a seriedade, a aplicação, a inteligência e a coragem das colegas de redação em diferentes veículos.

Sim, coragem: entre muitos casos, lembro o de uma repórter, subordinada a mim no Jornal do Brasil em São Paulo, que no exercício de seu (bom) trabalho recebeu de um político muito conhecido a proposta indecorosa e obscena de tornar-se sua amante em troca, entre outras supostas vantagens, de “um apartamento montado”.

Profissional correta, mãe de filhos, ela voltou para a redação humilhada, desabafou comigo chorando – infelizmente não tínhamos prova para processar o canalha – mas, dias depois, fez questão de apresentar-se a uma coletiva do mesmo político, por considerar seu dever.

É claro que, como sempre acontece, nem tudo foram flores.

Invariavelmente defendi as mulheres profissionais contra clichês machistas, mas considerava golpe baixo certas atitudes como, por exemplo, uma subordinada recorrer ao choro depois de receber reparos, civilizados e procedentes, a seu trabalho. Também confesso que me horrorizei, como diretor das Femininas da Abril, diante de uma ou outra diretora de revista que se revelava indignada com a gravidez de alguém de sua redação.

Sobre mentores e sobre caráter

Sou daqueles que acreditam que você só se torna um bom jornalista se, entre outras circunstâncias, tiver mentores, aqueles chefes que, profissão afora, orientam, ensinam, dão bronca e sobretudo inspiram. Não cabe a mim dizer se me tornei um bom jornalista.

Mas quero assinalar que, entre meus grandes mentores, contáveis nos dedos de uma só mão, figura uma mulher: Dorrit Harazim, minha chefe em VEJA, em duas diferentes situações, por quase seis anos, até hoje uma amiga muito querida. Sem ter compartilhado tarefas com Dorrit e testemunhado a cada dia seu talento, sua tenacidade, sua imensa capacidade de trabalho, sua ética e sobretudo seu rigor eu não seria o jornalista que sou nem teria chegado onde cheguei na carreira.

É algo que compensa, de longe, o fato de que a maior punhalada pelas costas que recebi na vida profissional tenha vindo de uma mulher. Mas nesse caso tratava-se de problema de caráter, e não obviamente de gênero.

Para finalizar, como não ver com especial apreço as mulheres no jornalismo, tendo uma filha – Adriana Setti – jornalista e, modéstia à parte, trabalhadora e talentosa, que tanto orgulho me dá?

(Este texto foi escrito para uma edição especial sobre mulheres jornalistas da newsletter Jornalistas & Cia em janeiro de 2008. Como foi escrito há quatro anos, não incluí, nele, menções a duas jornalistas sem as quais eu não simplesmente conseguiria fazer o blog, que iniciei em setembro de 2010: Domitila Becker, hoje no SporTV, e Rita de Sousa)

DEIXE UM COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × dois =

6 Comentários

Celinha/Marília-SP em 13 de março de 2012

Caro Setti, que bela homenagem! Com 30 anos de profissão, vivi o oposto: chefiei uma redação SÓ DE HOMENS, no início dos anos 80. Infelizmente, nunca tive uma mulher na chefia. Na área de Comunicação Corporativa, temos grandes figuras que nos inspiram e enchem de orgulho como a Júnia Nogueira de Sá, por exemplo. Grande abraço! Legal essa experiência de chefiar uma redação só de homens. Quanto a ter uma mulher na chefia, não haverá tempo, ainda? Ou, então, de você chefiar um time feminino? Outro abração pra você, cara Celinha. E volte sempre!

Robespierre em 11 de março de 2012

LEMBRAR DA DOUTORA ZILDA ARNS NINGUÉM LEMBROU, NÉ ? INCLUSIVE, EU NÃO SABIA QUE EXISTIA PRÊMIO NOBEL DA PAZ PREVENTIVO, COMO AQUELE QUE DERAM PARA O OBAMA ! SE É ASSIM, PODERIAM MUITO BEM DAREM UM PRÊMIO NOBEL DA PAZ POST MORTEM PARA ELA !

Kitty em 10 de março de 2012

Caro Ricardo, o seu texto é muito significativo e gentil. Embora, não faço parte dessas mulheres que tiveram a sorte de trabalhar com você, igualmente me senti homenageada no Dia Internacional da Mulher por suas palavras no post,e devo adicionar que se para você foi um privilégio conviver com elas, imagino que para elas, também deve ter sido uma benção ter encontrado uma pessoa tão considerada e respeitosa como você! Um muito obrigada! um forte abraço-Kitty

Teresinha em 08 de março de 2012

Belo texto, carinhoso ao avaliar o complexo mundo feminino. Para provar competência algumas se masculinizaram na agressividade mas hoje conseguem trilhar naturalmente, com exceção infelizmente na nossa política. Obrigado por sua gentileza, Teresinha. Um abraço -- e, por favor, volte sempre ao blog!

Jurema em 08 de março de 2012

Estimado Ricardo, trabalhei por muito tempo no universo masculino (auditoria bancária) e gostei das considerações feitas a respeito de trabalhar com mulheres. Para mim existem pessoas e a "pressa nervosa e algumas alternâncias bruscas de humor" pude observar em ambos os sexos. Abraços Obrigado por seu comentário, prezada Jurema. Volte sempre! Abraços

Marco em 08 de março de 2012

Amigo Setti: Parabéns pelo texto, a única coisa q me irrita em trabalhar com mulheres é sempre a pressa nervosa e algumas alternâncias bruscas de humor. Mas em contrapartida elas são acrescidas de uma viva sensibilidade e grandes dons intuitivos. Tbm aproveito para felicitá-las. Abs.

VER + COMENTÁRIOS
TWITTER DO SETTI