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Manifestações: em setembro do ano passado, milhares de escoceses foram às ruas exigir a independência do Reino Unido (Foto: Ivon Bartholomew)

Por Tamara Fisch

Entre os mais barulhentos casos de separatismo da atualidade, um está próximo de atingir seu objetivo. Não se trata da Catalunha, na Espanha, que realizará um plebiscito informal — não previsto na Constituição e sem valor legal– a 9 de novembro. Tampouco do País Basco, em que há forças políticas há décadas defendendo a separação da Espanha e se declarando “uma nação sem Estado”, ou da Córsega, na França, onde movimento nesse sentido vem arrefecendo.

Estamos falando da Escócia, nação de 71 mil quilômetros quadrados e 5,3 milhões de habitantes que ocupa o norte da ilha da Grã-Bretanha. Em uma recente pesquisa de opinião realizada na Escócia, foi registrado o maior número de pessoas favoráveis a uma independência em relação ao Reino Unido desde que a questão começou a ser debatida mais seriamente, no final dos anos 1970. Em abril, 48% da população queriam a separação, mas a maioria — 52% — não.

O Partido Nacional Escocês, majoritário no Parlamento local, brigou duramente para que fosse realizado um referendo sobre a obtenção da independência total. Deu certo. Após prolongadas negociações entre o governo local escocês e o governo central, em Londres, regras foram estabelecidas para a consulta e a votação  marcada para o dia 18 de setembro.

O governo escocês, liderado pelo PNE, diz que essa é uma “chance única em uma geração”.

Desde 1999, quando o governo britânico aceitou o estabelecimento de um legislativo autônomo na Escócia, o país passou a ter uma grande série de temas a seu cuidado. Ficaram com o governo escocês questões envolvendo educação, saúde, crime, justiça, assuntos domésticos e desenvolvimento econômico, entre outros. Assuntos como relações internacionais, defesa, impostos, orçamento, imigração e energia nuclear continuam sob o comando do governo central, em Londres.

As maiores dúvidas em relação ao funcionamento de uma Escócia independente têm a ver com a economia.

A moeda, por exemplo. O Reino Unido decidiu não permitir que o país, nesse caso, continuasse a utilizar a libra esterlina, embora na prática nada impeça que o uso possa ser feito de forma não oficial.

Também é questionado se a Escócia seria forçada a adotar o euro caso se juntasse à União Europeia. Em teoria, a adoção da moeda comum é voluntária, mas é uma exigência do bloco que cada novo membro tenha um banco central, de forma a contribuir para o grupo em caso de necessidade, e a Escócia não poderia sediar bancos caso não tivesse uma moeda oficial. Em suma, ou o país independente poderia adotar o euro, ou teria de criar uma moeda própria, o que é absurdamente menos provável.

Outra questão é o próprio ingresso na União Europeia. A Escócia considera essenciais os benefícios trazidos pelo, mas nada está garantido, já que a nação, descolada do Reino Unido, teria de se candidatar ao título de membro como qualquer outro país.

O presidente da Comissão Europeia, João Manuel Barroso, já disse ser “extremamente difícil, se não impossível” que uma Escócia independente se filie à União Europeia, porque conseguir a obrigatória aprovação de todos os países membros seria um grande desafio para uma nação vinda de outra já pertencente ao bloco. O ingresso da Escócia certamente serviria de estímulo a nacionalismos incômodos para governos como os da Espanha (catalães e bascos), da França (bascos e corsos) ou da Itália (movimentos independentistas no norte).

Quanto à economia nacional, o governo escocês diz que a independência do Reino Unido apenas favoreceria a situação. O primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, afirmou que, se a economia escocesa fosse independente, 8 bilhões de libras (cerca de 30 bilhões de reais) poderiam ter sido poupadas nos últimos cinco anos.

Há uma pesquisa, no entanto, que garante que o déficit orçamentário da Escócia é pior que o do resto do Reino Unido. O Instituto de Estudos Fiscais, órgão responsável pelo estudo, alerta que o governo escocês deve planejar a independência tomando cuidado com o otimismo exagerado.

Além da questão econômica, discute-se a crucial questão da defesa escocesa no caso de uma separação do Reino Unido. O PNE diz que montaria um novo sistema em cima das bases militares existentes — uma aérea e uma naval —, o que o secretário da Defesa britânico, Phillip Hammond, chama de “ridículo”, por insuficiente. O país independente não disporia da proteção da OTAN, a aliança militar ocidental, a não ser que decidisse aderir ao tratado que a formou — o que implicaria, entre outros pontos, em contribuir financeiramente e, em casos pontuais, com contingentes e equipamentos militares para a organização.

A Escócia faz parte do Reino Unido desde 1707, quando foi assinado o Ato da União, sob o reinado de Ana (rainha entre 1702 e 1714). Mesmo na época, muitos escoceses não aprovaram a decisão de juntar os países.

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Sobre a independência, o país ainda está dividido entre apoiadores, indecisos e opositores (Foto: PA)

Hoje, há mais integração do que parece. O próprio primeiro-ministro britânico, David Cameron, por exemplo, é de família escocesa e faz campanha para que a Escócia permaneça na união. “Estas ilhas realmente significam algo mais do que a soma de nossas partes, elas representam ideais maiores, causas mais nobres, valores melhores”, declarou Cameron.

Na lista de primeiros-ministros do Reino Unido desde 1707, nada menos do que onze foram escoceses — inclusive os dois antecessores de Cameron, Tony Blair (1997-2007) e Gordon Brown (2007-2010).

Várias celebridades adotaram a causa de ambos os lados. A escritora J. K. Rowling, autora da série Harry Potter, recentemente doou um milhão de libras para a campanha “Better Together” (Melhor Juntos), que apoia a unidade. Nascida na Inglaterra, Rowling é casada com um escocês e mora no país há muitos anos.

Outros artistas que defendem que a Escócia permaneça no Reino Unido são o cantor David Bowie, o ator Mike Myers e Alex Ferguson, legendário ex-treinador por 25 anos e hoje dirigente do Manchester United. Na direção oposta, os atores Sean Connery e Brian Cox apoiam fervorosamente a independência.

Nos últimos meses, têm sido feitas comparações entre o referendo ilegal realizado na Crimeia e o que deve ocorrer este ano na Escócia. A associação, no entanto, não é minimamente apropriada, já que a votação na Ucrânia foi inconstitucional e não ofereceu uma opção real de dizer “não” à anexação à Rússia. Sem contar que em nenhum dos dois países se pode dizer que haja uma democracia remotamente semelhante à britânica.

O referendo escocês é algo exigido por uma parcela significativa da população e apoiado pelo partido no poder, além de oferecer dois caminhos claros: permanecer integrante do Reino Unido ou se separar por completo.

É difícil dizer o que acontecerá em 18 de setembro. Os números estão próximos demais para determinar o resultado provável, então há especulações sobre se haverá algum tipo de mudança mesmo caso a Escócia decida permanecer no Reino Unido, pois terá ficado claro que parte do eleitorado não desejava isso.

Uma pesquisa do site What Scotland Thinks (O Que a Escócia Pensa) mostrou que, em 11 de julho, 63% dos escoceses achavam que, diante desse resultado, o parlamento nacional deve se tornar responsável também por decisões a respeito de impostos e benefícios sociais.

Uma pesquisa de opinião do mesmo site mostrou que, no momento, a maior parte dos questionados prefere que a Escócia mantenha o status quo — 45%, contra 34% que querem a independência.

Com a flutuação constante dos números, resta apenas esperar. No entanto, uma coisa parece evidente: o referendo, para um ou outro lado, não deixará para trás uma Escócia igual à de antes.

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20 Comentários

Esteban Marron em 08 de agosto de 2014

oi escoces aqui, escocia vai ser independente. por que? persoas povres estao cansadam com os banquieros e a elite de Reino Unidos. 300 anos e nos temos 20% de persoa na escocia em pobreza ainda. desde 1945 nos tiveramos um governmento nos nao queriamos 61% do tempo. Nos nao tem um democracia.

Stanley Pontatlantica em 29 de julho de 2014

"Outros artistas que defendem que a Escócia permaneça no Reino Unido são o cantor David Bowie, o ator Mike Myers e Alex Ferguson, legendário ex-treinador por 25 anos e hoje dirigente do Manchester United. Na direção oposta, os atores Sean Connery e Brian Cox apoiam fervorosamente a independência." Sean Connery, o eterno Bond, James Bond, ainda mantém o fervor de seu apoio? Caro Setti, perdoe a implicância com o tempo verbal utilizado. Grande abraço.

Sandro em 28 de julho de 2014

Caramba! Lembrei do filme Coração Valente! William Wallace queria que uma Escócia independente! E como vai ficar as aulas de geografia? Como vai ficar o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte? A "ilha" da "Irlanda" se separou entre Irlanda e Irlanda do Norte em... (Google & Wikipedia: help me!) 1922! O grande problema é mesmo a parte da economia! Quem vai pagar a conta?

Tony em 28 de julho de 2014

Estou torcendo pelos escoceses, porque essa mania de unificação é doença esquerdista. Fronteiras garantem a liberdade de não sofrer à força a imposição de valores alheios. Só gostaria de saber quando este país estará maduro o suficiente para dar à luz um movimento separatista sincero. É, de fato, uma "doença esquerdista". Adotada em 1707...

Petista paulista. em 28 de julho de 2014

Suma daqui. Vá fazer psicanálise de botequim em outro lugar.

Petista paulista. em 28 de julho de 2014

Você previu que eu não publicaria seu "comentário" e acertou. Pois não sou masoquista nem doente mental: você me chamou de "arrogante" e de "mentiroso". E queria que publicasse? Então, minha sugestão é que você desapareça daqui com sua péssima educação e sua cegueira ideológica.

Petista paulista. em 28 de julho de 2014

A arrogancia do jornalista censura comentarios dos leitores mesmo que sejam construtivos. Não sou arrogante nem "censuro" nada. Deixo de publicar comentários que infrinjam as regras do blog.

Neo Reaça em 28 de julho de 2014

Tranquilo...eu bebo Jack Daniel's!

Platão em 28 de julho de 2014

Um aspecto muitas vezes esquecidos são os fatores históricos e culturais. Não podemos olhar somente os aspectos econômicos. Perguntem quantos escoceses ou irlandeses se sentem "britânicos"... Vejam a história daquele complexo de POVOS e culturas distintas!

Marcos F em 28 de julho de 2014

Mesmo que seja 50 a 50%, uma mudança gigantesca como essa não devia passar. Fôsse 75% a favor, haveria uma razão sólida. A Escócia tem grandes e boas razões econômicas para separar, mas os valores não são somente estes. Teriam que montar uma estrutura enorme para tornarem-se um país independente.

Vandergleyson em 27 de julho de 2014

Querem separar só para em seguida cairem nas garras da União Europeia-Goldman Sachs. Não venham pedir pinico depois que se endividarem todos, com empréstimos agiotagem, e os agiotas "globalistas" imporem "austeridade" e confisco de suas poupanças. De sainha eles já andam. Mas é um absurdo o que estou falando né, Chipre e Grécia?

marco em 27 de julho de 2014

https://www.youtube.com/watch?v=g2puVP5l9L0

Petista paulista. em 27 de julho de 2014

Altamente improvavel que a Escocia vai se separar. Procure se informar melhor. Você não sabe nada para me dar lições sobre coisa alguma.

Platão em 27 de julho de 2014

Espero que este seja o começo do fim da globalização.

Luiz Paulo em 26 de julho de 2014

Torço pela Escócia e pelos escoceses.

Guilherme em 26 de julho de 2014

Esse nacionalismo pode levar a escócia até a falência em um futuro próximo caso resolva se separar. O ideal seria ela continuar pertencendo ao Reino Unido porém que tenha uma independência maior sobre os impostos e outros assuntos.

neil ferreira em 26 de julho de 2014

Sr Editor, A Escócia tem todo o direito de pretender se separar do Reino Unido. Só espero que não se separe de mim e me mantenha abastecido do Black Label, que tanto prezo.

ZEBEDEU em 25 de julho de 2014

Sou completamente leigo no assunto, mas acho que seria melhor para a Escócia continuar integrando o Reino Unido.

Moacir 1 em 25 de julho de 2014

Setti, Na hora do vamos ver o escocês - assim como o catalão,o basco ,o corso e etc - não optará por um futuro mais pobrinho , divorciado da UE,da Otan,do euro,nem ...imagina!! ... votará para tirar seu time do coração da Champions League. BETTER TOGETHER! Abc

Jose Augusto em 25 de julho de 2014

O PT está conseguindo fazer com que muitos brasileiros comecem a pensar na inclusão de uma região considerável desse Brasil... nesse grupo separatista. O PTzinho corrupto; de bandidos que difunde a luta de classes... o racismo (através de cotas) e principalmente a luta do "Eles" contra "Nós". Vergonha Vermelha

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