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Mario Vargas Llosa, sobre seu novo livro. (Foto: Alexandre Battibugli)

Será no próximo dia 10 o lançamento do novo e esperado livro do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010. Depois do êxito mundial do romance O Sonho do Celta (lançado em 2011 no Brasil pela Alfaguara, selo da editora Objetiva), agora é a vez do ensaio.

O título do novo livro, a ser lançado em língua espanhola pela Alfaguara da Espanha, diz tudo: La Civilización del Espetáculo. Sobre o tema e o livro, Vargas Llosa falou longamente à jornalista Laura Revuelta, do caderno cultural do jornal ABC, de Madri.

Abaixo, trechos da entrevista:

Há outros analistas da sociedade contemporânea que falam da cultura do espetáculo, mas você vai mas além: trata-se da civilização do espetáculo, então?

Vargas Llosa –A impressão que tenho é que não é apenas uma dimensão, mas todo o conjunto da vida em sociedade que está afetado por isso que poderíamos chamar a frivolização, a banalização. A cultura procura hoje, mesmo que não o deixe explícito, sobretudo divertir, entreter. E tradicionalmente não era essa a funçõ da cultura. A cultura tentava responder às grandes perguntas: que fazemos neste mundo? Temos um destino ou não? Somos realmente livres ou somos seres movidos por forças que não controlamos?

Toda essa problemática, que era à qual a cultura procurava dar resposta, praticamente se extinguiu hoje em dia, desapareceu.

E nesse processo você acusa os intelectuais contemporâneos de uma inação absoluta, de viverem olhando para o próprio umbigo.

Vargas Llosa – Diferentemente do que ocorria com as gerações anteriores, hoje em dia a maior parte dos escritores não acredita que a literatura deva tratar desse tipo de assuntos. Consideram que isso é pretencioso, e além do mais que é ilusório imaginar que a literatura possa ajudar a resolver esse tipo de problemas, e preferem concentrar-se em uma especialidade.

Fazem literatura e aceitam que a literatura tenha um papel modesto dentro da vida da sociedade. E creio que isso também se reflete na pouca ambição exibida por boa parte da literatura de nossa tempo. Não fixa a si própria grandes objetivos. Diferentemente dos escritores do passado, os escritores de hoje, em grande parte, não escrevem para a eternidade, para sobreviver à morte. Contentam-se com que a literatura cumpra uma função mais ou menos imediata, e seja uma literatura de consumo, no sentido mais explícito da palavra.

(…) Eu nasci para a literatura numa época em que era inconcebível que o escritor não se comprometesse. Defendia determinados pontos de vista, criticava outros, mas desta maneira contribuía de algum modo para a vida cívica, a vida social de seu tempo. Essa é uma atitude que hoje parece completamente obsoleta. Os escritores mais jovens não pensam que essa deva ser a função de um escritor.

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Escritor Mario Vargas Llosa (Foto: Eduardo Knapp / Folhapress)

Em que medida o jornalismo influiu nessa civilização do espetáculo?

Vargas Llosa – Creio que foi determinante. Claro que não nego que exista um jornalismo sério, que sobrevive a duras penas num mundo onde o jornalismo, tal como a cultura em geral, busca sobretudo entreter, divertir. E isso levou a que o jornalismo marrom, o que se imiscue na vida privada das pessoas, tenha a importância que tem em nossa época.

Ocorre tanto nas sociedades mais avançadas, com maior nível de educação, como nas sociedades mais subdesenvolvidas. Simplesmente é o que se passou na Inglaterra: o jornalismo de escândalo, o jornalismo marrom, o jornalismo que além de tudo cometeu crimes e transgrediu a lei, e que tinha um público tão gigantesco num país tão culto como a Inglaterra é um indício do que digo.

Isso causou um dano enorme, porque o jornalismo, sobretudo o de televisão, o de revistas de fofocas, que chegam a um público muito grande, exerce de fato uma influência na maneira de ser e na maneira de pensar das pessoas, e creio que fi um dos grandes instrumentos de difusão dessa civilização do espetáculo que caracteriza nosso tempo.

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8 Comentários

Daniel em 11 de julho de 2013

Quem é essa louca que assina ..."44 milhões"? Nunca vi tanta bobagem sem sentido. É só mais uma prova (cabal) que Vargas LLosa está (infelizmente) certo. Com certeza vou ler o livro; LLosa é indiscutivelmente o maior escritor latino-americano contemporâneo.

J.Torres em 06 de abril de 2012

Livro que obviamente já está em minha lista. E se não sair por aqui, importarei. Felizmente ainda não cobram taxas de importação por material impresso. O trecho da entrevista aqui publicada já aponta para a seriedade da abordagem, e não se poderia esperar outra coisa do autor. Não nos enganemos: seja midia tradicional, seja internet, somos tentativamente manipulados, direcionados e censurados. Acredito que com o pior tipo de censura, a mais covarde: sem rosto, sem certificado, sem endereço, e que diz que não é censura. É uma censura, ao contrário da tradicional, simpática, pois proibe mas faz que não faz. Não nos enganemos: pela internet censura-se também, facilmente (vide China), rastreia-se, identifica-se. Aliás, muito mais fácil, como nunca foi. Invisível, sem cheiro, sem sabor. E a maioria acreditando que tem acesso a tudo, de forma livre.

Marco em 04 de abril de 2012

Amigo Setti: Voltando ao Relume Romano,Um homem apaixonado, nunca perde o folêgo de se divertir sem barreiras. Mesmo q seja uma vez só. Rsssssss! Abs.

Marco em 04 de abril de 2012

Amigo Setti: Ao Relume Romano, Em tempestades não se abaixa os olhos, espera lúcido e refletido, a não ser q estejas perdido de amor. Quando pensa nas privações! Abs.

Rodrigo em 04 de abril de 2012

Sábias as palavras de Mário Vargas Llosa!

José Nelson Lopes Junior em 04 de abril de 2012

Acredito que este livro, por ser de um autor tão respeitado, pode trazer à tona, ou motivar que seja aprofundada, uma discussão ampla sobre a cultura do espetáculo promovida pela mídia. Está na hora de reinventar ou revocacionar os meios de comunicação - antes que se percam todas as possibilidades. Antes que tudo vire lixo neste espetáculo.

Mari Labbate *44 Milhões* em 04 de abril de 2012

Tudo está em seu devido lugar! É simplesmente maravilhoso o momento em que vivemos, no Jornalismo Mundial. Finalmente a Liberdade contribui para a Formação do Ser Humano. Como existem dois lados: o do Bem e o do Mal, de acordo com a evolução espiritual, os cidadãos escolhem, livremente, de que lado desejam ficar. No erro, perceberão mais tarde que embarcaram na "lancha equivocada". No acerto, servem a Humanidade, positivamente, como esses Competentes Jornalistas da Revista VEJA! A gloriosa globalização de informações, através da Internet, estendendo-se à Televisão, Rádio, Jornais e Revistas, propicia às pessoas, finalmente, a REAL DEMOCRATIZAÇÃO do Processo de Aprendizagem, gerando o amadurecimento da espécie. É justamente a "Civilização do Espetáculo" que desnuda os fatos positivos e negativos mundiais. Observa-se atualmente que o crescimento espiritual é conquistado, ludicamente. E não é FANTÁSTICO: aprender, divertindo-se? É por essa razão que os tiranos-golpistas-planetários estão desaparecendo. Ridicularizam-se e são ridicularizados, em tempo real. É Jogo-Aberto! É LIBERDADE! É HORA DA VERDADE! Mario Vargas Llosa está com dificuldades, para vivenciar a Democracia que já experimentamos, no Planeta Terra. Será que ele gostaria que retornassem os períodos monárquicos, onde quase tudo era camuflado? É lógico que não! "Somos realmente livres ou somos seres movidos por forças que não controlamos"? RESPOSTA: Somos realmente livres, movidos por forças que não controlamos, os Seres-Cósmicos, mas que somente objetivam o nosso progresso espiritual e a nossa FELICIDADE! Obviamente, para atingirmos esse patamar de perfeição, devemos trabalhar pelo bem comum, orientados pelos nossos Mestres: os Anjos de Guarda ou Espíritos Santos. ESSE É O CAMINHO que esse querido irmão Setti já está trilhando, com louvor! É um abençoado e muito amado pelo Plano Espiritual ou Dimensão Paralela. A Literatura Contemporânea contempla-nos divinamente, na medida em que transforma-nos em Personagens da História, onde TODOS somos convidados a participar, ativamente, do processo de desenvolvimento. Descobrimos que, hoje, TODOS SOMOS ESCRITORES, mesmo escrevendo limitadamente a Língua Materna, pois o importante é colaborar, positiva ou negativamente para o equilíbrio de sua casa, de sua rua, de seu bairro, de sua cidade, de seu estado, de sua Nação. Graças à Internet! Querido Llosa: Não existe vida privada para quem expõe-se, publicamente. TUDO TORNA-SE SOCIÁVEL! As pessoas públicas escolheram esse tipo de atividade e não podem esconder-se do Povo, porque criariam dupla-personalidade, que ensejaria um doentio comportamento. Adoro, quando as pessoas famosas defendem a sua vida privada. Nesse exato momento: o privado torna-se público! O Ser Humano é indivisível! VIVA O BLOG TRANSPARENTE, DEMOCRÁTICO E ATUALÍSSIMO DE RICARDO SETTI! VIVA A LIBERDADE-LÚDICA!

Regina Prata em 03 de abril de 2012

Infelizmente, Vargas Llosa está certo. A frivolização dos meios de comunicação em busca do cobiçado Ibope, e deixando em 2º plano assuntos de importancia social, faz com q quem assiste acabe cultivando uma mentalidade pueril e dê importância maior a questões supérfluas. Quem acompanhou as questões dos tablóides ingleses sabe q, infelizmente, o problema não é só do Brasil.

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