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O xeque Abdullah Al-Thani: novo dono do Málaga (Foto: Público)

Por Daniel Setti

150 milhões de euros — algo como 350 milhões de reais.

Com esta espantosa quantia, o Málaga pretende calar um sem-número de admiradores de futebol — este apreciador do futebol, inclusive — que acham o Campeonato Espanhol uma farsa cujo título só é disputado por dois times.

A cifra, que corresponde ao terceiro maior orçamento de um clube do país para a recém-iniciada temporada 2011-2012 (perde só para a dupla que domina o torneio, Real Madrid, com recordistas 510 milhões, e Barcelona, 461 milhões), serve como principal arma da até outro dia humilde sociedade esportiva fundada na cidade homônima da Andaluzia, no sul da Espanha, onde nasceu Pablo Picasso.

Evidentemente, o enriquecimento não ocorreu por milagre. Desde 25 de junho do ano passado, o Málaga Club de Fútbol tem novo dono, o xeque Abdullah Al-Thani, empresário de diversos setores, entre eles hoteleiro e automobilístico, além de pertencente à família real do Catar.

Procurado pelo então maior acionista e presidente malaguista, Fernando Sanz, Al-Thani não hesitou em desembolsar 36 milhões de euros pela compra. Se considerarmos que o valor gasto na transação, somado aos 13 milhões de euros da dívida do Málaga na época, não resultam nem em um terço do orçamento para o próximo ano, dá para imaginar o poderio econômico que o cartola real árabe promete despender.

O círculo dos proprietários multimilionários

Por seu ambicioso projeto de transformar o Málaga em um dos grandes da Península Ibérica, o xeque passa a integrar o cada vez menos seleto círculo de multimilionários que adquirem clubes de futebol, direta ou indiretamente.

Foi assim em 2003, ano em que o magnata do petróleo russo Roman Abramovich abocanhou o Chelsea, de Londres; no ano seguinte, com a turbulenta parceria que entregou o Corinthians às mãos do nebuloso conglomerado anglo-russo MSI, supostamente ligado a um compatriota de Abramovich, Boris Berezovski; em 2007, com o investidor norte-americano Stan Kroenke se tornando sócio majoritário de um dos rivais do Chelsea, o Arsenal, por sua vez seguindo os passos do que o igualmente norte-americano Malcolm Glazer fizera com o Manchester United, quatro anos antes; e em 2008, quando o arquirrival do United, Manchester City, virou propriedade do xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos.

Tudo isso sem contar timões que hoje são controlados por bilionários grupos de investidores, como o Liverpool.

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Terry e Lampard com Abramovich, dono do Chelsea (Foto: Reuters)

2011 está sendo um ano particularmente especial em se tratando de negócios do gêneros. O insignificante time Anzhi Makhachkala, da Rússia, passou ao patrimônio do megainvestidor bilionário Suleiman Kerimov, nascido na República russa do Daguestão, agora patrão de figurões como Roberto Carlos e Samuel Eto’o. O espanhol Racing Santander, por sua vez, vendeu 80% de suas ações ao empresário indiano Ahsan Ali Syed, mas tal operação ainda não rendeu um orçamento estratosférico como o do Málaga.

Nova potência?

Em sua primeira temporada sob o comando do mandatário árabe, o Málaga continuou sendo Málaga. Suou sangue no segundo turno para permanecer na Primeira Divisão, finalmente engrenando e conseguindo um desimportante, mas longe de humilhante 11º lugar. Em fim, nada muito diferente do que sempre costumou fazer desde 1994, quando se tornou um clube propriamente dito. Até então se chamava Club Atlético Malagueño e servia de modesta filial de uma outra agremiação malaguenha, que não existe mais.

Mas, para o exercício 2011-2012, com 150 milhões de euros na conta, os andaluzes possuem a melhor oportunidade de pelo menos se aproximar de Barça e Real. Desde 2004 nenhum dos outros oponentes considerados tradicionais e/ou mais competitivos – Valencia, Atlético de Madrid, Sevilla, Athletic Bilbao e Villarreal – dão para o cheiro. Para que o leitor tenha uma ideia do quão sem graça anda La Liga, inaceitáveis 34 pontos separaram o tricampeão Barcelona do Villarreal, quarto lugar – posto amplamente comemorado, pois garante vaga na fase prévia da Copa dos Campeões – na edição 2011-2012 do torneio.

O Málaga segue a cartilha

Não que um bolo de dinheiro signifique necessariamente competência e sucesso. Mas o que o Málaga quer fazer para os anos vindouros é conseguir resultados a médio prazo. Ficar entre os seis primeiros colocados nesta temporada e conseguir uma vaga em uma das competições continentais, Copa dos Campeões e Liga Europa, já seria um sonho. Ou ao menos superar rivais regionais como o Sevilla e o Bétis. Para isso, seus dirigentes pretendem que esta fortuna seja bem gasta, dando exemplo de gestão, e começam a seguir a cartilha de êxito das equipes vencedoras espanholas.

Um forte indício é sua recente associação com a Unesco, braço da ONU para a Educação, Ciência e Cultura, quase sempre positiva para a imagem de qualquer sociedade – vide exemplo do Barça e a Unicef, o ramo da ONU que trata da infância -, ou o acerto com uma marca de materiais esportivos de peso (Nike). Também podem ser listados os planos de construir uma “cidade esportiva” com dez campos e um novo estádio para 60 mil pessoas (o atual, La Rosaleda, comporta menos de 30 mil).

A reestruturação não deve ser mesmo brincadeira, e não é apenas física ou de marketing. Para o cargo de diretor-geral da instituição, por exemplo, foi trazido Fernando Hierro, ex-zagueiro Real Madrid e da seleção espanhola. Tanto Hierro quanto o novo diretor esportivo António Fernandez ocuparam postos importantes na Federação Espanhola que acompanhou o esquadrão vencedor da Copa de 2010. O treinador é desde a temporada passada o chileno Manuel Pellegrini, cuja passagem tímida pelo Real entre 2009 e 2010 não lhe desacreditou como um dos técnicos em ascensão no mercado espanhol. Para as categorias de base, Abdullah Al-Thani recrutou José Manuel Casanova, conhecido por revelar bons jogadores no Espanyol, de Barcelona.

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Novos contratados: Van Nistelrooy é o penúltimo à direita (Foto: EFE)

Toda essa ficha técnica, naturalmente, não funcionará sem as contratações de jogadores para o novo campeonato, estimadas em 58 milhões de euros. A trupe de recém-convertidos a malaguistas abriga desde veteranos goleadores que ainda rendem bem (o holandês Van Nistelrooy, um inferno para os goleiros quando próximo da área) a atletas com passagens pela “Fúria” (Santi Cazorla, Joaquín), passando por boleiros que disputaram o último mundial (os zagueiros DeMichelis, da Argentina, e Mathijsen, da Holanda, e o meio-campista Toulalan, da França).

Júlio Baptista, improvável herói

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Júlio Baptista: ressurreição (Foto: Reuters)

Foram mantidos ainda membros do elenco que estavam dando certo. O mais notável é o já veterano brasileiro Júlio Baptista, um dos heróis da permanência na Série A na última temporada, que desatou a marcar gols desembestadamente nas rodadas finais do campeonato.

O ânimo atual em Málaga é tanto que o número de sócios do clube subiu em semanas de 22,1 mil para 26,5 mil, e a fila de espera por um novo título conta com outros 1000 torcedores. Resta averiguar se os resultados no final da temporada estarão à altura desta euforia.

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3 Comentários

Reynaldo-BH em 05 de setembro de 2011

Setti, xeque, Catar, Dunga... Isso não bate! Ou o xeque Abdullah quer fazer um grande time ou contratou o Dunga para um time local do Catar! As duas coisas são incompatíveis!

Nozes em 04 de setembro de 2011

O xeque é a cara do Tiririca!

Marco em 04 de setembro de 2011

Amigo Setti: Pois é meu amigo, tomara q de certo, geralmente essas parcerias são muito complicadas, vamos ver se dessa vez se torne uma simplificação. Mas D.Setti, o q me chama atenção é q pelos estatutos do clube, a diretoria empossada não recebem, claro q tem uma ampla mídia de graça por isso. Mas não acredito nesse voluntarismo. Não, aí os clubes passam a ser tbm politico e não querem gestão profissional, isso pelo menos aqui no Brasil. Abs. É preciso, de fato, olhar com cautela, caro Marco. E ver onde vai dar isso. Abraço Daniel

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