Então vice-governador de São Paulo pelo PMDB – do governador Orestes Quércia -, Almino Affonso foi o entrevistado do “Roda Viva” levado ao ar pela TV Cultura em 13 de julho de 1987.

Rodolfo Gamberini comandou a roda integrada por Claudio Abramo (Folha de S. Paulo e a extinta revista Senhor), Mauro Chaves (O Estado de S. Paulo), Tonico Ferreira (Gazeta Mercantil), Ênio Pesce (TV Globo), Rui Falcão (sim, o posteriormente deputado estadual e polêmico presidente do PT, à época trabalhando na revista de negócios Exame), João Batista Natali (Folha de S. Paulo), Irede Cardoso, jornalista de profissão que então era vereadora do PT e editora do programa “Mulher 87”, da Rede Manchete, e eu, que era editor regional do (infelizmente) extinto Jornal do Brasil.

Naquela época, o ocupante do centro da roda também respondia perguntas de telespectadores e personalidades, por telefonema ou vídeos pré-gravados (entre os participantes da modalidade nesta edição estiveram o peemedebista de longa data Pedro Simon e o então integrante da legenda Mário Covas).

Perguntei a Almino, político que então já exibia vasta trajetória na vida pública – fora líder do PTB na Câmara durante o governo Jango e seu ministro do Trabalho, tendo depois passado anos exilado no Chile – qual era sua opinião sobre um dos tópicos que dividia o PMDB no período, o Plano Bresser.  Apesar de considerar o pacote de medidas econômicas lançado pelo ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser Pereira “importante como contribuição”, Almino fez críticas à política salarial nele contida. “É profundamente injusta”, disse. “Considero que ela continua castigando o setor assalariado. Ou seja, estamos repetindo o clássico. Estamos repetindo os erros do [Plano] Cruzado I”.

O vice-governador também me respondeu sobre o que achava da ótima relação de Quércia com Jânio Quadros, então prefeito de São Paulo, que nas eleições de 1985 havia sido alvo de fortes ataques do governador. “Nunca assisti a um encontro dos dois (risos), de forma que não te posso dar o testemunho se houve juras de amor”, desconversou. “Eu, pelo menos, nunca vi nenhuma”.

Divergências com correligionários

Em outro ponto, apertado por vários dos jornalistas presentes, Affonso criticou o comportamento do então presidente José Sarney, seu companheiro de partido, na defesa do mandato de cinco anos. “Eu condeno”, ressaltou. “Por que que eu tenho que fazer o jogo do presidente da República? Eu acho que ele errou! Por que que eu não posso divergir do presidente da República? Eu acho que quando ele fez a fala que fez, atropelou a Constituinte; revelou que ainda não compreendeu que estamos numa etapa nova” (…) “Tudo isso é negativo. Por que que eu tenho que aplaudi-lo? Não o aplaudo”.

Em muitos momentos da conversa, aliás, ele divergiu publicamente de outros companheiros de legenda, como o então senador Fernando Henrique Cardoso, na época também do PMDB. “Eu divirjo frontalmente do meu prezado companheiro, senador Fernando Henrique Cardoso: você não constrói um partido político nacional como por milagre, não aperta um botão e ele nasce”.

Gamberini indagou de Almino sobre um raciocínio seu, segundo o qual os partidos mudam quando assumem o poder. “Quando um partido chega ele analisa que o projeto que está no seu programa, na sua diretriz é limitado pelas adequações à realidade”, afirmou.

Discussão

Vale a pena conferir também a discussão travada entre o então peemedebista e a petista Irede (“um esboço de partido”, disse Almino sobre o PT) a partir do minuto 27 da entrevista. O lendário jornalista Claudio Abramo, homem de temperamento complicado, chega a ameaçar se retirar da bancada.

Para ver este e mais trechos, assista à íntegra do programa aqui.

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