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O quadro “La Anunciación”, de El Greco — apenas um item de uma coleção fabulosa do bilionário Ramonet

Em plena brutal crise econômica que assola a Espanha, suas regiões e suas cidades, Barcelona, capital da Catalunha, ficou muito mais rica este ano. Riquíssima, na verdade — mas com um patrimônio que não pode e não será nunca vendido.

Trata-se de uma fabulosa, quase inacreditável coleção de arte com cerca de duas mil peças — mais de 700 delas quadros que poucos museus do mundo conseguiram amealhar, que incluem 2 obras de Rafael, 4 de Rembrandt, 18 de Goya, 12 de El Greco e outras de Delacroix, Monet, Murilo, Sorolla e de mais dezenas de grandes pintores, além de esculturas, tapeçarias, porcelanas de Sèvres e 1.300 miniaturas preciosas de diferentes épocas.

Não se sabe o valor — que talvez alcance bilhões de dólares — da coleção legada à cidade pelo mulherengo e cinematográfico bilionário Julio Muñoz Ramonet, morto em 1991, aos 79 anos, e disputada na Justiça desde 1994 por suas quatro filhas. O caso percorreu um longo e tortuoso caminho judicial até chegar à recente decisão final do Tribunal Supremo da Espanha.

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Ramonet, nos bons tempos, com uma amiga, em foto rara: quase não existem imagens disponíveis do bilionário

Muñoz Ramonet era um joão-ninguém que, junto com o irmão, Alvaro, progrediu a jato durante a ditadura do generalíssimo Francisco Franco (1939-1975) graças a suas ligações com a polícia secreta do regime e à vista grossa que autoridades faziam a seu pequeno negócio ilegal de contrabando de mercadorias na Espanha miserável pós-Guerra Civil (1936-1939).

Aos poucos, tornou-se proprietário de terras, industrial têxtil — setor fortemente subsidiado pelo regime franqista — e criou um império que lhe permitiu extravagâncias espetaculares. Quando se casou com a filha de um banqueiro, em Bilbao, por exemplo, chegou a fretar dois trens para os convidados, um saindo de Madri, outro de Barcelona.

Virou legenda: dizia-se que tinha grandes atrizes como amantes e que acendia charutos com notas de 1.000 pesetas — as mais valiosas da época. Sobre o irmão, Alvaro, contava-se que só fazia as refeições em casa com pratos de ouro.

Sua fortuna, com o tempo independente da do irmão, viria a incluir uma cadeia de lojas, uma seguradora, dois bancos na Suíça e até o requintadíssimo Hotel Ritz de Barcelona. A quebra da seguradora lhe trouxe problemas com a Justiça suficientes para fazê-lo cautelosamente mudar-se para a Suíça e, volta e meia, peregrinar pelo mundo, a conselho de advogados — o Panamá sem dono da época, a África do Sul do aparheid…

O colossal patrimônio artístico, porém, continuou pendendo das paredes e guardado num depósito fortificado no palacete que possuía coração do Eixample, o estiloso bairro do século XIX de Barcelona. Hoje, tanto a coleção quanto o palacete são patrimônio público.

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Nenhum comentário

Márcia costa soares em 07 de novembro de 2012

Que espetáculo, adoraria conhecer essas obras.

Marco em 04 de novembro de 2012

Don Setti: Depois q as pessoas morrem sempre acaba se revelando coisas. E tudo termina em litígio e desentendimento familiar. Abs.

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