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Carlos Andrés Pérez: disputa pelo defunto

Nesta sexta-feira, 25, vai fazer dois meses que jaz no freezer de uma morgue de Miami o macérrimo cadáver do ex-presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez, o outrora todo-poderoso CAP, que exerceu o poder entre 1974-1979 e entre 1989 e 1993, sendo afastado pelo Senado por impeachment sob acusações de corrupção.

O defunto está sendo disputado judicialmente por sua viúva, Blanca Rodrígues, e seis filhos (cinco mulheres e um homem), e pela amante, sua ex-secretária Cecília Matos, com quem teve duas filhas. O primeiro grupo quer sepultá-lo em Caracas, o segundo em Miami, onde Cecília e as filhas viviam com CAP nos últimos anos.

Parece mais um capitulo na patológica, macabra história de cadáveres — ou de partes deles — de líderes latino-americanos que passam, de alguma forma, a figurar no centro de disputas, na maior parte das vezes, políticas.

Entre muitos outros casos, vamos recordar esses:

Argentina, Eva Perón — A maratona percorrida pelo corpo da mitológica mulher do ditador Juan Domingo Perón entre sua morte, em 1952, e o sepultamento definitivo no belo mausoléu do Cemitério da Recoleta, em 1974, rendeu filmes, peças de teatro e livros. Entre estes, o estupendo Santa Evita, do jornalista e escreitor Tomás Eloy Martínez, traduzido para 32 idiomas e publicado em 50 países.

Não custa lembrar que entre uma data e outra o cadáver passou uma temporada num cemitério de Roma, sob a proteção do Vaticano.

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O cadáver de Eva Perón logo após sua morte, em 1952, observado pelo médico espanhol Pedro Ara, responsável por seu embalsamamento

Argentina, general Pedro Aramburu — Em 1974, o grupo de luta armada da esquerda do peronismo Montoneros sequestou os restos mortais de um general assassinado por seus próprios militantes, Pedro Eugenio Aramburu, que governara ditatorialmente o país entre 1955 — com a derrubada de Perón por um golpe militar — e 1958.

Exigiam que Perón, àquela altura presidente constitucional da Argentina, recambiasse para o país o cadáver de Evita, que descansava na quinta “17 de Octubre”, propriedade do caudilho nos arredores de Madri, na Espanha.

Argentina, Juan Domingo Perón — Em 1987, funcionários do cemitério de La Chacarita, em Buenos Aires, descobriram que o pequeno mausoléu de Perón havia sido violado, seu caixão aberto com serra elétrica e as mãos do cadáver decepadas e roubadas.

Junto, os violadores levaram também um anel que Perón usou ao longo da vida, sua espada de general e uma carta da segunda mulher, Maria Isabel Martínez de Perón, a ex-dançarina Isabelita — que o sucederia no cargo em 1974 e viria a ser deposta por mais um golpe militar em 1976.

Três fragmentos da carta foram enviados a três deputados peronistas exigindo um resgate de 8 milhões de dólares pela devolução do que foi retirado do mausoléu. Nunca mais se teve notícia das mãos, da espada, do anel e da carta. Em 2006, os peronistas decidiram transferir o corpo maneta para um mausoléu mais seguro, construído para ele, anexo a um grande museu, na antiga quinta pertencente a Perón em San Vicente, perto de Buenos Aires.

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O mausoléu de Perón, anexo a um grande museu, na quinta que pertenceu ao ex-ditador e ex-presidente em San Vicente, próximo a Buenos Aires

Cuba, Ernesto “Che”Guevara — Logo após ter sido executado em 1967 em La Higuera, nas selvas da Bolívia, onde comandava uma guerrilha, o Che teve as mãos cortadas por ordem do general boliviano Alfredo Ovando Candia, que com isso queria provar a Cuba e a quem duvidasse de que, de fato, haviam matado o famoso guerrilheiro.

As mãos, num frasco de formol, foram enviadas para identificação a Buenos Aires — o Che era cidadão argentino –, voltaram para a Bolívia e acabaram, em 1969, indo parar com o ministro do Interior, Antonio Arguedas Mendieta, que enterrou o frasco no porão de sua casa.

Tendo caído em desgraça por haver microfilmado os diários de Che e enviado a Fidel Castro, em Cuba, Arguedas asilou-se na embaixada do México e pediu a um amigo que resgatasse as mãos decepadas. Depois de um circuito maluco que incluiu uma ida a Moscou, as partes do corpo de Che seriam entregues a Fidel Castro em 1970. Elas se juntariam aos demais restos do guerrilheiro em 1997, quando, descobertos na Bolívia, retornaram a Cuba em meio a grandes homenagens.

O corpo de Guevara está num mausoléu-museu na cidade de Santa Clara, no centro de Cuba, a 270 quilômetros de Havana.

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Morto no dia 9 de outubro de 1967, nas selvas da Bolívia, Guevara teve o corpo exposto e, depois, as mãos cortadas

México, Álvaro Obregon — Presidente do México entre 1920 e 1924, o general Álvaro Obregón perdera quase todo o braço direito em uma das quatro batalhas sangrentas nas quais, em 1915,  comandou as tropas do governo contra as forças de Pancho Villa, um dos grandes nomes da Revolução Mexicana de 1910 que, no entanto, se voltaria contra seus rumos e voltaria a pegar em armas.

O braço decepado foi conservado, não se sabe se por médicos ou pelo próprio pelo general, que terminaria sendo assassinado a tiros em 1928, depois de eleito novamente presidente. O fato é que essa parte do corpo do presidente acabaria sendo guardado durante décadas no mausoléu em sua homenagem, construído em 1935 na Avenida dos Insurgentes, na parte sul da Cidade do México, até que, a pedido da família, foi incinerado.

O corpo de Obregón está sepultado em sua cidade natal de Huatabampo, no Estado de Sonora.

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Monumento ao ex-presidente Alvaro Obregón, na Cidade do México: abrigou por décadas um braço do general, até que a família pediu que fosse incinerado

Venezuela, Simón Bolívar — No dia 16 de julho do ano passado, numa das mais delirantes ações praticadas desde que chegou ao poder no país, em 1999, o coronel Hugo Chávez promoveu a exumação do corpo de Simón Bolívar (1783-1830), o revolucionário venezuelano que promoveu a libertação do jugo espanhol do que hoje são Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela.

A exumação foi transmitida pela TV, ao vivo, para todo o país, com uma esdrúxula naração a cargo do ministro do Interior, Tarek El Aissami, e feita sob o pretexto de examinar os restos do Libertador para determinar se morreu efetivamente em consequência da tuberculose, como registra a história, ou se envenenado por arsênico, conforme a teoria de alguns especialistas.

Na verdade, conforme registrou na ocasião o jornal The New York Times, a exumação “empurrou para o lado questões como o escândalo dos alimentos importados encontrados apodrecendo nos portos, a irritação por causa da economia em recessão e as provas oferecidas pela Colômbia de que guerrilheiros colombianos mantêm acampamentos em solo venezuelano”.

Até agora não se sabe o que resultou dos testes.

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17 Comentários

carlos mattos em 25 de fevereiro de 2011

Setti, chamar este carea de safado, trambiqueiro,desonesto, corrupto, mentiroso, nao e ofensa nao, e a verdade, o " mundo" sabe, ja teve comprovacao disto, tem mais: cinico, deturpador da verdade, ladrao( chefe deles) etc... etc....

carlos mattos em 25 de fevereiro de 2011

Sem problema, mas que eu falei, falei! e se eu houvesse escrito: simbolo falico? Brincadeira, sem problema

Memyself em 24 de fevereiro de 2011

Tem algo de muito doente na América Latina.

carlos mattos em 24 de fevereiro de 2011

Caro Carlos, desculpe não publicar seu comentário, mas ele contém ofensas pessoais e palavras que o blog não estampa. Sei que você vai compreender. Abraços

Antonio Machado em 24 de fevereiro de 2011

Prezado Setti, em vista da correção pedida, e atendida por você, ouso sugerir, por amor ao texto, que modifique a concordância da seguinte frase: "Em 1974, o grupo de luta armada da esquerda do peronismo Montoneros sequestram os restos". O grupo etc., etc., SEQUESTRA, não? Abração. PS: O senado federal está cheio de defuntos que recusam a caridade de um enterro. PS2: O uso de cadáveres na política, e na mobilização de massas, pode também ser observado entre nós. E sem qualquer discriminação no tocante à cor partidária: da esquerda à direita encontraremos corpos, ou pedaços, ou restos sendo agitados, carregados e incensados. Aliás, o primeiro "corpo" usado politicamente (culinariamente também) foi do bispo Sardinha. Abração Seus dois PSs são ótimos, caro Antonio Machado. E obrigado pela nova correção, cujo erro é produto da correria. Já a fiz e gosto de deixar registrados os erros e as correções que faço com a cooperação dos amigos do blog. Abraços

Bolsa Embalsamamento - Será criada? (Verdade ou Boato Maldoso?) em 23 de fevereiro de 2011

Em Brasília tem muitos cadáveres pendurados nas tetas da república, pra não dizer daqueles que nem comprimido azul ressuscita e o povo paga por causa de traumas existenciais dos doutos e poderosos protagonistas da vida política nacional...

Nuno Gama em 23 de fevereiro de 2011

Há uma grave omissão em seu post, meu caro jornalista. Por que não citar o macabro espetáculo de necrofilia imposto pelo Senado da República aos brasileiros, com a exposição do cadáver de José Sarney?

SergioD em 23 de fevereiro de 2011

Ricardo, esse certamente foi um post mórbido. Que sina a da América Latina, não? Um abraço

carlos mattos em 23 de fevereiro de 2011

Como eu gostaria de saber, daqui um tempo, espero que nao seja longo, onde estara a "lingua" do energumeno, safado, corrupto, mentiroso do ...., me recuso a escrever o apelido desta coisa

JT em 23 de fevereiro de 2011

Em off: "O fato é que essa parte do corpo do presidente acabaria sendo conservado durante décadas no mausoléu em sua homenagem, construído em 1935 na Avenida dos Insurgentes, na parte sul da Cidade do México, até que, a pedido da família, foi incenerado." A palavra correta para encerrar o parágrafo seria "incinerado", conforme grafia correta adotada na legenda da imagem que segue logo abaixo do mesmo. Caro amigo Jean, Publico o post que você, em gesto de delicadeza para comigo, pediu para não publicar. Não vejo problema em mostrar que errei e que um leitor atento e atencioso como você me deu um toque a respeito. Os posts não são elaborados com a demora que eu gostaria -- a internet não permite. Então ocorrem, mesmo, problemas de ortografia e outros. Obrigado por ter me avisado. Abraços

Pedro Luiz Moreira Lima em 23 de fevereiro de 2011

" O mundo gira e a Luzitania roda" - os mesmos crimes,as mesmas masmorras,os mesmo apoios,os mesmos grandes abocanhando sem dó,humanidade e nem uma simples ética de predador. "O mundo gira e a Luzitania roda"mas de maneira diferente a cada girada no tempo - basta ver as caras de"oq vou fazer?"- dos ditadores,dos apoiadores,dos predadores ao verem os acontecimentose em todo o mundo árabe.

Tristoño em 23 de fevereiro de 2011

Haja vocação! Um continente medíocre eterniza práticas primitivas. Simples assim.

Humor de Aposentado pelo INSS em 23 de fevereiro de 2011

Quanto ao futuro... quando o ex-presidente Lula for dessa para uma das duas "Estâncias", que uma aviso seja colocado junto ao presidencial cadáver: "O mindinho ele perdeu quando era trabalhador. Quanto ao grande e avariado fígado, é intriga da Oposição".

Mauro Pereira em 23 de fevereiro de 2011

Caro Ricardo Setti. Triste retrato da América Latina, revelado em preto e branco pela sanha assassina de seus personagens, mas fortemente tingido por tons de vermelho do sangue inocente derramado. Sempre em nome de "la libertad", que até hoje não se sabe do quê ou de quem, o macabro sempre foi, e continua sendo, o enredo principal da história dessa parte do Equador. Padecendo sob a ação nefasta de Hugo Chávez e Lulla da Silva, espancadores contumazes da democracia e principais porteiros dessa latrina dantesca, continuamos nossa caminhada interminável em busca da América perdida. Talvez um dia a encontremos. Quem sabe?

Ricardo em 23 de fevereiro de 2011

E o pt,não vai construir um mausoléu pro dedinho que o Lula decepou pra viver na vagabundagem.

Elvio em 23 de fevereiro de 2011

Setti, No mínimo, mórbida a mania desse povo. abs Elvio

anonimo em 22 de fevereiro de 2011

O hospício fica aqui, abaixo do Equador.

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