Artigo de 2005: O canto de sereia da celebridade

Artigo de 2005: O canto de sereia da celebridade Ana Paula Padrão, em sua etapa na Globo (Foto: Rede Globo)

Os riscos que alguns jornalistas televisivos correm ao se posicionarem como e/ou serem tratados feito astros, e como o trabalho que fazem pode ser afetado; ilustro esta ideia com recente caso envolvendo a ida de Ana Paula Padrão da Globo para o SBT

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A ruidosa transferência da jornalista Ana Paula Padrão da Rede Globo para o SBT mobilizou a atenção dos jornais e revistas de grande circulação, mas obteve destaque maior no chamado jornalismo de celebridades e na chamada imprensa de fofocas propriamente dita: certas colunas de jornais, determinadas revistas, seções “especializadas” em portais de informação, programas de TV. Especulou-se sobre o salário, em vários casos com cifras risíveis de tão inverossímeis, comentou-se uma suposta briga com a Globo, falou-se de detalhes – reais ou imaginários – de sua vida pessoal.

A chamada imprensa de fofocas mais rasteira em todas as situações seguiu o costumeiro padrão de qualidade: não ouviu uma só palavra da principal interessada, não apresentou uma única fonte de informação minimamente qualificada.

Nos casos em que os fatos foram apresentados de forma correta ou não, concedeu-se à jornalista tratamento de celebridade – como o conferido a atrizes, jogadores de futebol, cantores, modelos, socialites.

O jornalista como celebridade

Isso parece consolidar, na história recente do jornalismo brasileiro, algo que já se esboçara anteriormente em mudanças de emprego semelhantes e que parece o resultado de uma pirueta lógica: um jornalismo de celebridades no qual a celebridade objeto de atenção do jornalismo é, ela própria, uma jornalista.

Ninguém contesta os méritos de Ana Paula Padrão. Realizou um bom trabalho como repórter política em Brasília, desincumbiu-se das tarefas de correspondente da Globo em Nova York e em Londres, adquiriu experiência e maturidade e não teve maiores problemas em ocupar com desenvoltura o lugar de Lilian Witte Fibe quando a direção de jornalismo global, num gesto criativo, resolveu pinçá-la como âncora do Jornal da Globo. Não se limitando a pilotar o telejornal da bancada em São Paulo, Ana Paula Padrão conseguiu espaço para, voltando a ser repórter, realizar boas reportagens, como a série feita no Afeganistão após a derrocada do regime lunático do Talebã pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, em 2001.

Ocorre, porém, que nada garante que Silvio Santos tenha contratado a ex-âncora do Jornal da Globo por seus méritos jornalísticos. O dono do SBT nunca foi muito próximo dessa questão: não entende de jornalismo, tem grande dificuldade em relacionar-se com a mídia como empresário, não faz segredo do quanto desconfia de jornalistas e produziu consideráveis estragos sempre que tentou intervir, ou efetivamente interveio, nos rumos da emissora nesse terreno.

Silvio Santos, critérios insondáveis e Boris Casoy

Os critérios de SS são inteiramente insondáveis. Quando finalmente resolveu criar um jornalismo vigoroso em sua rede de TV, em 1987-88 – quase uma década depois de ter ganho a concessão do governo do general João Figueiredo – Silvio, que não conhecia ninguém no meio, resolveu encarregar da missão o jornalista Marcos Wilson, bom profissional da mídia impressa que, entre outras funções, fora correspondente de O Estado de S. Paulo em Buenos Aires.

Mas o currículo do jornalista contou menos do que a mútua empatia surgida, meses antes, durante a longa, franca e por isto mesmo raríssima entrevista que Marcos Wilson fez com Silvio Santos para o Estado. Publicada a matéria, o empresário e apresentador declarou-se maravilhado com o fato de o repórter ter registrado com precisão e rigor as declarações que fizera, como se isso fosse alguma exceção milagrosa no trabalho dos jornalistas.

O corajoso segundo passo que foi, por iniciativa de Marcos Wilson, Silvio levar para o SBT em 1988 outro profissional de peso e ainda maior visibilidade da mídia impressa, Boris Casoy – então na Folha de S. Paulo, de que tinha sido editor-chefe – tornou excelentes resultados que já vinham sendo bons. Com o editor-chefe-adjunto Dácio Nitrini, que até hoje o acompanha na Record, Boris tornou o telejornal TJ Brasil respeitado e trouxe para o popularesco SBT audiência, prestígio e retorno de anunciantes. Tal trajetória não se desenvolveu, porém, num permanente mar de rosas.

Houve dificuldades de conciliar a autonomia contratual assegurada a Boris com a estrutura única da área de jornalismo comandada por Marcos Wilson. Com o tempo, separaram-se as equipes e as redações: Boris com o TJ Brasil, Marcos Wilson responsável por todas as demais iniciativas da rede em jornalismo. E Boris só viria a se aborrecer muito depois, com as constantes mudanças na grade de programação decididas por Silvio Santos consultando somente a si mesmo, que tornavam muitas vezes incerto o horário de ir ao ar até da edição do telejornal do próprio dia. Essa situação fez o âncora ceder ao assédio da Record em 1998.

A sedução dos holofotes

Ana Paula Padrão não deve se iludir. Embora protegida contratualmente, como apregoou, esse tipo de problema certamente vai aparecer em seu caminho, cedo ou tarde. E há fortes indícios de que, embora o dono do SBT esteja ciente das credenciais da jornalista, saiba ou não avaliá-las a contento, a contratação se deu em grande medida por se tratar de uma celebridade global a ser arrebatada à líder do mercado. Aí reside boa parte dos riscos que a jornalista, até aqui com uma carreira ascensional digna de nota, poderá enfrentar.

A sedução dos holofotes da celebridade já afastou do melhor caminho do jornalismo vários profissionais. Não cabe aqui, é claro, julgar a escolha pessoal de ninguém. Qualquer pessoa obviamente tem o direito de optar pelo caminho que quiser, inclusive por esse, e de ser respeitada. Mas, se a pessoa em questão considera que ganha, em geral quem perde é o jornalismo.

Marília Gabriela continua sendo um nome forte, uma entrevistadora de méritos. Sua opção por múltiplos caminhos – entre outras atividades, gravou CD como cantora, desfilou em passarela, atuou em telenovela –, contudo, deixou sem resposta a pergunta de até onde poderia ter chegado quem, 16 anos atrás, mediava debates entre candidatos à Presidência da República.

Pedro Bial muito provavelmente pesou prós e contras, e decidiu-se pelos primeiros, ao aceitar cruzar a linha que separa o jornalismo do entretenimento e tornar-se não apenas apresentador do Fantástico (espécie de síntese da indesejável mistura entre essas duas categorias) como, desde há cinco anos, do Big Brother Brasil – senda que o conduziu a atuar, recentemente, no Casseta & Planeta Urgente. Com certeza, porém, prestava maiores serviços ao jornalismo quando gramava arduamente em reportagens a partir da base de correspondente em Londres, inclusive as que produziu na Europa Oriental em transe no pré e no pós-queda do Muro de Berlim.

A “cultura da celebridade”: dupla praga

A “cultura da celebridade” constitui, pois, uma dupla praga para o jornalismo: de um lado, ela faz com que se mobilizem enormes recursos da mídia para a cobertura de algo de importância social nula, mas que tem uma legião de leitores/telespectadores/ouvintes/internautas interessados e, portanto, é terreno fértil para o mercado anunciante; de outro, ameaça ela própria afetar – e enfraquecer – o trabalho de jornalistas de evidência que, de uma ou outra forma, acabam sugados pelo seu vórtice.

Mesmo quem continua no trabalho quotidiano no jornalismo, principalmente mas não apenas nessa grande vitrine que é a TV, não está isento da área de influência dessa “cultura”. É cada vez mais freqüente a aparição de jornalistas de peso em notas e reportagens de colunas sociais, de revistas de “famosos”, em revistas de fofocas propriamente ditas e em programas de TV do gênero, a maioria francamente lamentáveis.

No caso de jornalistas mulheres, estrelam com assiduidade cada vez maior capas de revistas femininas, super-produzidas e transformadas em modelos de beleza, elegância e sensualidade, são ouvidas em programas fúteis, acabam dando conselhos e falando da vida privada – atitudes a anos-luz de sua missão profissional. Jornalistas homens e mulheres com visibilidade pública tornam-se um chamariz e são disputados como apresentadores de eventos e mestres-de-cerimônias em festas de empresas.

Ser celebridade desvia o jornalista da rota

Tudo isso prejudica enormemente a figura e o trabalho do jornalista. A teia de relações sociais trazida pela condição de celebridade – quando a ela adere o jornalista – vai progressivamente dificultando sua atuação. Fica mais difícil tocar em determinados assuntos, contrariar certos anseios, melindrar determinadas personalidades. Os conflitos de interesse espreitam a cada momento. A imagem de austeridade e independência do jornalista, ferramentas essenciais de seu trabalho, é arranhada. O objetivo profissional e ético do jornalista, sua razão de ser – informar o mais corretamente possível o público – acaba sofrendo inevitáveis desvios de rota.

Perde o jornalista, perde o veículo para o qual ele trabalha, perde a sociedade, a serviço da qual, em última instância, devemos estar todos nós, jornalistas.

Resista ao canto de sereia, Ana Paula.

Publicado no Observatório da Imprensa nº 331

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