Artigo de 2003: O caso ACM e a questão do “off” no jornalismo

Artigo de 2003: O caso ACM e a questão do “off” no jornalismo Foto: domínio público

E mais: a juventude de Sarney, boa notícia agrícola, dança das cadeiras no empresariado, uma dívida indigesta, a febre das abotoaduras, a aposentadoria de Moreira Alves, golpe no lixo televisivo, os exemplos de Brunei, Equador e Zaire e o apetite – literal – de Lula

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O depoimento do repórter Luiz Cláudio Cunha à Comissão de Ética do Senado sobre o caso da escuta ilegal de telefonemas na Bahia colocou novamente em evidência o conceito do chamado off no jornalismo – palavra inglesa usada genericamente no Brasil para designar a confidencialidade das fontes de informação. Cunha é o jornalista da revista IstoÉ que decidiu tornar pública uma revelação colhida em caráter confidencial do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), segundo a qual seria ele o mandante da escuta clandestina.

Em seu depoimento, que incluiu a apresentação de uma gravação de um telefonema de Cunha para o senador, altamente problemática para ACM, o jornalista avançou alguns de seus conceitos sobre o que entende por off. Essa parte do depoimento levou outro jornalista, Janio de Freitas, a puxar a orelha do colega, contestando, em artigo, as opiniões de Cunha. Mas Janio de Freitas deixou de mencionar, como deveria, o fato de Cunha ser um jornalista digno, sério e competente. Sua decisão, apoiada pela revista, de revelar publicamente uma informação obtida de forma confidencial pode ser polêmica, mas baseou-se na convicção de que a revelação de um crime se sobrepunha ao compromisso com a fonte.

É preciso coragem para isso – a mesma coragem exibida por Cunha em 1978, quando trabalhava para a revista “Veja” em Porto Alegre e, juntamente com o já falecido fotógrafo J. B. Scalco, revelou o seqüestro de um casal de uruguaios exilados no Brasil por membros da polícia gaúcha mancomunados com o esquema de repressão da ditadura militar vizinha. Isso lhe custou uma penca de problemas, inclusive ameaças de morte, estendidas à família.

Ao tratar do caso ACM e seus desdobramentos, porém, em que o off é personagem, a imprensa pouco esclareceu o público sobre o significado do off – de que se trata, como funciona e como deveria funcionar essa instituição, direta ou indiretamente tão presente no dia-a-dia de leitores, internautas, telespectadores e fontes.

Tentemos, pois, colaborar com o debate, com idéias já trabalhadas em recente artigo para a revista “Exame”. Em primeiro lugar, deve ficar claro que existe no Brasil grande confusão sobre o off, seus conceitos e práticas – inclusive entre os jornalistas. Para lançar luz sobre o tema, é preciso beber nas fonte: o bom e velho jornalismo praticado no Reino Unido e, depois, nos Estados Unidos, países nos quais o jornalismo profissional, tal como o conhecemos hoje, primeiro lançou seus fundamentos, a partir da segunda metade do século XIX. E ainda hoje é na grande imprensa britânica e norte-americana que se pratica o jornalismo mais rigoroso, e onde a ética jornalística está mais enraizada na forma de códigos, procedimentos e, quando necessário, punições – embora boa parte da cobertura da guerra anglo-americana contra o Iraque esteja fazendo grandes jornalistas do passado revirar nos túmulos.

No Brasil, a expressão off (abreviatura de off the record) tem servido para abrigar, sob o mesmo conceito, pelo menos três situações diferentes em que a fonte real da informação não aparece. A mais comum é o que americanos e britânicos chamam de not for attribution: as informações, inclusive citações entre aspas, podem ser publicadas, mas a fonte que as forneceu não deve ser mencionada pelo nome.

O segundo conceito é o de deep background: o sentido geral das declarações pode ser usado, mas não se publicam declarações entre aspas nem se identifica a fonte. (Há também o deep background, quando o jornalista pode informar sobre um assunto com base em informações de uma fonte, mas não está autorizado a fornecer indicação sequer indireta sobre quem é ela, ou de que as informações vieram dela).

Por fim, vem o off the record, que curiosamente tem um significado quase oposto ao adquirido por aqui: as informações devem ser usadas apenas e tão somente para ajudar o repórter a compreender o quadro geral de um fato, mas não serão incluídas em sua reportagem.

No Brasil, perdemos, em grande parte, a noção fundamental, básica, segundo a qual atribuir a fontes identificáveis o maior número possível de informações deve ser a regra geral da reportagem, em nome da verossimilhança e da credibilidade – do jornalista e do veículo para o qual ele trabalha.

Em lugar disso, abusa-se escandalosamente do recurso à confidencialidade da fonte, muitas vezes uma alternativa fácil e preguiçosa ao indispensável trabalho de ouvir pessoas (em muitos casos arredias), levantar informações em documentos, consultar arquivos – todo um trabalho pesado que um bom jornalista incorpora desde cedo à sua rotina.

Sem contar, claro, o off  instrumentalizado pela fonte – para plantar informações, atingir adversários e alcançar objetivos distantes do interesse público.

Mas isso é uma outra história, e fica para uma outra vez.

Idosos são os outros

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) mantém um formidável distanciamento crítico em relação à idade.

Isso apareceu com clareza na solenidade em que o Senado homenageou na segunda-feira, 7, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pela escolha do idoso como tema da Campanha da Fraternidade de 2003. Em seu discurso, a cada vez que se referia aos idosos, Sarney – prestes a emplacar 73 anos no próximo 24 de abril – sapecava:

– Eles…

Mais pão

O Palácio do Planalto esfrega as mãos de contentamento com as notícias sobre a safra de trigo que o país poderá colher este ano. Os cálculos do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, tendo em vista levantamentos preliminares sobre o aumento da área plantada, são de que o país – ressalvados eventuais humores negativos de São Pedro – poderá pular das 2,9 milhões de toneladas produzidas no ano passado para 4,5 milhões de toneladas no primeiro ano da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O país, assim, poderia reduzir de 7 milhões para pouco menos de 5 milhões de toneladas o trigo importada de países como os Estados Unidos e a Argentina, com o respectivo impacto positivo nas contas externas.

Empregos

Até o fim do mês 343 belos empregos trocam de dono em grandes empresas brasileiras: são os cargos de membros dos conselhos de administração e fiscal que estão sendo preenchidos por indicação do maior fundo de pensão do país, a Previ, dos funcionários do Banco do Brasil.
Com cerca de R$ 40 bilhões de patrimônio, a Previ tem participação acionária em empresas de dezenas de setores, desde telecomunicações e energia até bancos.

Dívida indigesta

Toda a alegria do governo e de outros setores por causa da melhoria dos indicadores da economia, comemorada inclusive pelo presidente Lula em seu primeiro pronunciamento ao país pela TV, não esconde alguns dados mais indigestos. Um deles é a situação da dívida pública.

Comemoradas as boas perspectivas de diminuição da relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) ao longo do governo Lula – um indicador de solvência do país –, está-se prestando menos atenção a um fato desconhecido da imensa maioria da população e de boa parte dos políticos: o grande, indigesto esforço do país para gerar um superávit primário (receita menos despesas, excetuadas as com juros) de 4,25% do PIB este ano está sendo suficiente para pagar pouco mais da metade dos juros da dívida.

Esta é a situação extraída dos dados de fevereiro, os últimos completos divulgados pelo Banco Central (BC). Vejam só: o superávit desse mês foi de R$ 7,6 bilhões, arredondados – aliás, o melhor resultado para este mês desde quando o Banco Central (BC) começou a apurar o dado, há 12 anos. Os juros da dívida interna, porém, foram, somente em fevereiro, de R$ 14,5 bilhões, arredondados.

Ou seja, os R$ 6,9 bilhões que ficaram faltando em fevereiro se incorporaram ao principal da dívida pública, já superior a R$ 900 bilhões.

Advogados e presos

Enquanto se discute interminavelmente as prerrogativas dos advogados e alguns maus elementos da categoria transportam armas, celulares e drogas a bandidos presos, seus clientes, é simplíssima e eficiente a sugestão do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Rubens Approbato Machado: se a lei não permite a revista do advogado pelos guardas penitenciários, que se reviste o preso logo depois de avistar-se com ele.

É o óbvio ululante, mas praticamente ninguém faz.

Fashion news

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, tem no Congresso pelo menos dois companheiros no uso de abotoaduras: o deputado Michel Temer (PMDB-SP) e o senador Jefferson Peres (PDT-AM).

O Supremo e os Estados

O ministro José Carlos Moreira Alves aposenta-se agora no dia 19, por completar 70 anos de idade, abrindo a primeira das três vagas que, entre este mês e o próximo, o presidente Lula terá para preencher no Supremo Tribunal Federal (STF).

Critérios não estritamente técnicos e de afinidade com a proposta mudancista do governo como, por exemplo, o regional – Estado de origem dos candidatos –, poderão ser considerados pelo governo, mas não serão decisivos. Só por curiosidade, vale lembrar de onde são os onze atuais ministros: há três paulistas, três mineiros, dois cariocas, um gaúcho, um baiano e um mato-grossense.

Desde o início da República, dos 124 ministros que até hoje integraram o STF, predominam os cariocas de origem (30), seguidos por mineiros (28), paulistas (22), gaúchos (15) e baianos (14). Por outro lado, além do atual Distrito Federal, sete Estados jamais tiveram um ministro na corte em 114 anos: Acre, Amapá, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Candidato

Por falar em Supremo, um nome novo se incorpora a vários outros cotados para uma vaga no tribunal: o do juiz Dyrceu Aguiar Dias Cintra Junior, do 2° Tribunal de Alçada Civil de São Paulo, membro e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia.

Mediawatch (1)

Anuncia a “Veja”: queda no Ibope e crise generalizada nos programas dos apresentadores Ratinho, Xuxa, Raul Gil, Eliana e Gugu Liberato.

Finalmente, alguma coisa a comemorar sobre a TV brasileira.

É coisa nossa

Pesquisa feita por um dos maiores especialistas brasileiros em previdência, o advogado Wladimir Martinez, de São Paulo, indica que, além do Brasil, apenas três países do mundo prevêem aposentadorias por tempo de serviço – independentemente da idade do aposentado.

Um deles, o Brunei, é aquele minipaís da Ásia cujo sultão de nome impronunciável é um dos dez homens mais ricos do planeta, bóia num mar de petróleo, e, portanto, pode se dar esse luxo.

Os outros dois são o Equador e o Zaire, que, bem, não são exatamente um Brunei.

É precisamente dessa companhia que a reforma da Previdência Social engendrada pelo ministro Ricardo Berzoini quer nos livrar.

Um carro com história para contar

Jazem num terreno baldio pertencente ao INSS no centro de São Paulo, visíveis para quem caminha pelo viaduto Major Quedinho e olha para baixo, os restos do que foi, um dia, um esplêndido automóvel Rolls-Royce prateado com história para contar.

O carro foi um presente do falecido empresário, multimilionário e playboy Francisco “Baby” Pignatari ao magnata da mídia Assis Chateaubriand, ambos falecidos. “Chatô” fizera uma intensa campanha por meio de seus jornais e emissoras de rádio e TV em prol da fundação de aeroclubes em todo o país, e o resultado foram muitos aviões “Paulistinha” comprados por ele às Indústrias Pignatari, fabricantes do teco-teco, com dinheiro doado por empresários.

Em novembro de 1957, quando Chateaubriand assumiu a embaixada do Brasil em Londres, por designação do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), encontrou à sua espera na residência oficial do embaixador o Rolls-Royce presenteado pelo agradecido milionário.

Com a morte de Chateaubriand, em 1968, e os sucessivos problemas financeiros do império Associado, o Rolls-Royce acabou sendo repassado ao que hoje é o INSS como parte do pagamento de dívidas previdenciárias. De garagem em garagem, de porão em porão, acabou, sabe-se lá como, num terreno baldio.

Mediawatch (2)

Verdadeira revolução operou-se na seção de óbitos do jornal “O Estado de S. Paulo”.

De uns tempos a esta parte, deixou-se de informar zelosamente aos leitores que os pais de pessoas falecidas aos 85, 90 e até 100 ou mais anos já tinham também falecido.

Popularidade e impostos

Apesar do invariáel aplomb, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), está desconcertada com a desabalada carreira morro abaixo de sua popularidade, apontada por recente pesquisa Datafolha – 45% dos paulistanos, indica o levantamento, consideram “ruim” ou “péssima” sua gestão, o pior nível desde a posse da prefeita, em janeiro de 2001.

Mas não deveria, diante dos pesados aumentos de tributos e das novas taxas impostas à população. Para não chatear o internauta, fiquemos só em um exemplo: apenas uma certa “taxa de licenca de funcionamento”, que aporrinha dezenas de milhares de micro, pequenas e médias empresas, subiu inacreditáveis 350% de 2002 para este ano.

O apetite de Lula

O presidente Lula baixou de novo ao Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, por causa da bursite – dessa vez no ombro esquerdo, e não no costumeiro direito. Novamente seu médico, Roberto Kalil, assegurou serem boas suas condições de saúde.

Lula tem seguido as recomendações médicas quanto a exercícios – corre quase todo dia, às 6 da manhã, às vezes acompanhado do ministro da Fazenda, Antoni Palocci. E, oficialmente, também obedece a um cardápio destinado a baixar suas taxas de colesterol.

Mas os fins de semana na Grana do Torto são reconfortados com o invariável churrasco, inimigo tradicional do coração. E vizinhos do prédio em que o presidente tem seu apartamento em São Bernardo do Campo (SP) testemunham: as refeições via delivery que chegam à cobertura onde vive a família Lula continuam incluindo itens proibidíssimos, como rabada com polenta, pizza e feijoada.

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