Esse pavoroso caso de rebelião, fuga, mortes e sequestros em sequência protagonizado por cinco malfeitores mal trancafiados na penitenciária de Contagem (MG) é um episódio exemplar do escândalo em que se transformou a questão da ordem pública no Brasil. Não se trata apenas de constatar o mal que os bandidos fizeram a suas vítimas diretas. O caso extrapolou em muito a mera sucessão de delitos – já de si gravíssimos – cometidos depois que os cinco escaparam de uma ironicamente denominada penitenciária de “segurança máxima”.

É preciso ressaltar a suprema incompetência da polícia mineira em manejar a situação desde o início. Isso transformou a fuga e os diversos crimes a ela associados num assunto nacional, de um lado, e num espetáculo de mídia, de outro. Como consequência, a opinião pública assistiu, estarrecida, a uma pirotécnica cadeia de desmoralização da autoridade como poucas vezes se viu no País em qualquer tempo. 

É muito difícil para mortais comuns entender, em primeiro lugar, como foi possível que bandidos apressados, perseguidos pela polícia e em fuga estabanada para salvar o próprio o pescoço conseguissem, seguidas vezes, ir fazendo novos reféns à medida que mudavam de itinerário. Também escapa ao bom senso médio o porquê da atitude da polícia de não isolar as diferentes áreas conflagradas ao longo do roteiro de fuga: houve aglomeração de curiosos em diversas fases do sequestro, tornando inviável uma ação policial eficaz, aumentando o clima de guerra de nervos natural em tais situações e colocando inocentes em perigo.

A excessiva exposição à mídia de cada detalhe da operação metamorfoseou os cinco condenados em celebridades efêmeras: emissoras de rádio e TV disputavam “entrevistas exclusivas” com os bandidos, que, instalados num sítio perto de Juiz de Fora, conversavam pelo telefone com amigos, recebiam parentes e expressavam opiniões sobre assuntos variados. A natural aflição dos reféns, por sua vez, levou à ampla disseminação de declarações pouco edificantes – um jovem refém libertado chegou a dizer que os cinco bandidos, de ampla e horripilante folha corrida criminal, não tinham qualquer culpa pelo que estava acontecendo, já que culpado “é o sistema”. 

Pior ainda foi a afirmação do comandante da Polícia Militar mineira, coronel Jair Dias, segundo o qual os cinco fugitivos não podiam ser responsabilizados pela luta que resultou na morte do tenente Maurício Sávio Rodrigues, ocorrida na sexta-feira passada, um dia depois do início da fuga, já que os quatro oficiais até então mantidos cativos pelos bandidos teriam tentado reagir em “momento inoportuno”.

A excessiva exposição à mídia de cada detalhe da operação metamorfoseou os cinco condenados em celebridades efêmeras

Tudo isso contribuiu para que um clima de sinistro surrealismo envolvesse o caso, a partir de determinada altura, com a colaboração inclusive de parte da imprensa: palavras e expressões simples e diretas como “bandidos”, “delinquentes”, “assassinos” e “chefe do bando” cederam progressivamente lugar a “reabertura de negociações”, “entendimentos reiniciados” ou “o principal líder do grupo”. Tratou-se algo que era, literal e exclusivamente, um caso de polícia com tinturas de um assunto de Estado. Exigências absurdas dos sequestradores foram consideradas – e a confusão da polícia foi tal que até feriado escolar preventivo acabou sendo decretado pelo prefeito de Juiz de Fora.

Para resolver no futuro situações semelhantes, há naturalmente uma série enorme de medidas a serem adotadas. Mas, diante do despreparo quase absoluto das polícias estaduais – excetuada a de São Paulo – para enfrentar os cada vez mais frequentes crimes desse tipo, seria conveniente que o governo federal agisse, e logo. Por que não se criar, por exemplo, uma força de elite na Polícia Federal, enxuta mas de eficácia fulminante, semelhante à Swat americana, que pudesse se encarregar de casos como o de Contagem por meio de convênios com as polícias estaduais, para não ferir a autonomia política dos Estados e, também, baratear custos?

Não é preciso ser especialista em ordem pública para imaginar algumas das linhas de atuação que tal força poderia seguir. Esses homens teriam salários altos, seriam treinados nos países mais avançados do mundo no controle do tipo de situação a que se assistiu desde a semana passada – Israel, Alemanha Ocidental, Japão, Estados Unidos – e disporiam de equipamentos especiais. Assim, num caso de um bando aglomerado com reféns dentro de um carro forte, por exemplo, haveria formas de se injetar algum gás sonífero poderoso no sistema de ar-condicionado para colocar os criminosos fora de ação. A polícia poderia prometer não perseguir fugitivos até a libertação de reféns, desde que embutisse, por exemplo, pequenos transmissores de rádio em algum item de que os bandidos certamente não se livrariam – uma metralhadora a eles fornecida, por exemplo, como ocorreu com os cinco criminosos de Minas – de forma a permitir sua rápida localização posterior. Armas exigidas por bandidos poderiam ser dotadas de munição de festim, idênticas às verdadeiras. Qualquer feira de equipamentos de segurança realizada num subúrbio americano tem tudo isso e muito mais à disposição da polícia. O custo de uma força dessas seria ridículo diante de sua eficácia. Basta ao governo ter vontade política, e fazer.

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