O que era para ser a cobertura de um tranquilo seminário na Universidade de Brasília (UnB) sobre as relações entre o Brasil e os Estados Unidos acabou ganhando os telejornais da noite e as manchetes do dia seguinte por obra e graça de 300 estudantes baderneiros, que concentraram sua fúria “antiimperialista” em um dos convidados: o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, fora do poder, na ocasião, há quase cinco anos.

Eu era subeditor da seção Internacional de VEJA, fora enviado para cobrir o seminário mas acabei presenciando, naquele 18 de novembro de 1981, quarta-feira, uma sequência de fatos fora da programação.

Kissinger chegou ao campus da UNB a bordo de uma limusine da embaixada americana, mas mais de duas horas depois de haver pronunciado a palestra inaugural do evento, viu-se impedido de deixar o edifício onde se localiza o auditório em que falou. Ele iria almoçar e, depois, cumpriria agenda que incluía, entre outros encontros, uma reunião com o general-presidente João Figueiredo no Palácio do Planalto.

Kissinger e três centenas de convidados ilustres que, a qualquer tentativa de sair por uma das grandes portas de correr de ferro e vidro do edifício, recebiam uma chuva de ovos, tomates e terra, a despeito do “corredor polonês” supostamente protetor formado por homens da Polícia Militar. Quem arriscou, foi hostilizado e atingido, mesmo que absolutamente nada tivesse a ver com o “imperialismo americano” — como foi o caso do embaixador da neutra Finlândia no Brasil, Martti Lintulahti.

Macaco velho, experiente em tudo, inclusive em protestos, Kissinger manteve durante quase todo o tempo a calma. Fez piadas sobre quem pagaria seu resgate, assinou autógrafos em livros, tomou café e até telefonou para a casa de seus pais, em Washington. Sugeriu que lhe trouxessem a limusine bem próximo a uma das portas, mas seu segurança pessoal vetou a alternativa.

Junto com Kissinger e o reitor da UnB, José Carlos de Almeida Azevedo, os estudantes baderneiros deixaram sitiados no edifício nada menos do que onze embaixadores estrangeiros e um naco considerável do poder, no que VEJA classificaria como “o primeiro tumulto contra autoridades do governo em Brasília” desde o golpe de 1964.

De fato, viram-se encurralados no prédio três ministros de tribunais superiores, desembargadores, vários deputados, generais da reserva, altos funcionários de ministérios e um homem-chave do governo, o chefe da Casa Civil, cujos seguranças deram um jeito de fazê-lo sair antes dos demais, sem contudo impedir que um ovo o atingisse.

Por coincidência, eu, que me formara anos antes em Direito na UnB, tivera boa parte das aulas naquele edifício, então já com destinação diferente mas cujos meandros conhecia bem. Circulando por corredores atrás de novidades, dei com um pálido, preocupado e perplexo José Guilherme Merquior, intelectual brilhante, diplomata de carreira, crítico literário e ensaísta, que há pouco tempo havia sido convocado para a equipe de Leitão na Casa Civil.

Tentei entrevistá-lo, mas Merquior não quis conversa. Curiosamente, e sem que eu soubesse, ele já tinha concedido ao jornalista Marcos Sá Corrêa a entrevista das Páginas Amarelas de VEJA que sairia naquele fim de semana, com data de 25 de novembro de 1981.

O reitor Azevedo já pedira à PM que fizesse dois camburões entrar de ré no prédio. Kissinger remanchou diante da ideia de sair dali num carro de polícia, chegou a irritar-se mas acabou aceitando a sugestão do “chancellor Carlos”, como chamava o reitor, de entrar em um deles. Saíram os dois, espremidos entre dois seguranças, aos quais se juntaram depois outros policiais dependurados do lado de fora da viatura número 523, sob os gritos dos baderneiros: “Kissinger/ladrão/saiu/no camburão”.

(Observação: Kissinger foi acusado de tudo ao longo de sua carreira, mas nem seus piores e mais ferrenhos inimigos afirmaram que tenha sido “ladrão”.)

Embora eu sempre tenha fugido de figurar em fotos durante missões profissionais, nem percebi que apareceria na cena clicada por Tadashi Nagakomi mostrando o momento da saída de Kissinger no camburão, que no dia seguinte seria publicada em vários jornais, e originariamente no Correio Braziliense.

O ex-secretário de Estado, porém, não teria apenas dissabores naquela quarta-feira. À noite, foi recebido por Leitão para um jantar repleto de convidados ilustres na residência oficial da Granja doIpê, e saudado com um discurso que incluía citações de Platão e Aristóteles — escrito por Merquior.

Dissabor grande, enorme, tive eu, que — com a compreensão dos chefes em São Paulo — precisei interromper a cobertura do seminário para acorrer ao sepultamento de um ente muito querido no Norte do Paraná.

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1 comentário

Rui Ferreira em 18 de outubro de 2017

Se não tivessem fugido a tempo, não duvido que o Kissinger e o Roberto Campos tivessem morrido linchados. Caro Rui, obrigado por sua visita ao site. Mas não sei de onde você tirou o Roberto Campos para colocá-lo no evento. Ele não estava presente lá nem figurou na matéria. Um abraço

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