O embargo israelense à Faixa de Gaza depois que passou a ser governada pelo grupo islâmico radical Hamas, em junho de 2007, aos poucos foi mudando dramaticamente a pirâmide social desse território de 380 quilômetros quadrados espremido entre o Egito, Israel e o Mediterrâneo e onde se amontoam 1,8 milhão de palestinos.

Com o embargo, os israelenses, naturalmente, queriam minar o Hamas e imaginavam tornar impopular o governo dos radicais islâmicos, mas o efeito acabou contrariando seus próprios interesses. Isso porque, enquanto o Hamas forra seu caixa com alguns impostos que arrecada e o “pedágio” que cobra para que contrabandistas utilizem os túneis leva-e-traz supostamente secretos que transportam mercadorias, armas e todo tipo de suprimentos entre o território e o Egito e vice-versa, o bloqueio arruinou os empresários tradicionais, próximos à moderada Autoridade Nacional Palestina (ANP) comandada pelo presidente Mahmoud Abbas (que governa a Cisjordânia), pró-ocidentais e favoráveis a uma acomodação com Israel. Em pouco mais de 3 anos, 90% das empresas de Gaza fecharam. (Veja no mapa como Gaza e a Cisjordânia ficam separadas pelo território do Estado de Israel).

Enquanto isso, surgiu no território, em tão pouco tempo, uma nova classe dirigente ligada ao governo do Hamas e ao “negócio” corrupto dos túneis — os quais Israel já tentou de toda maneira destruir, mas que se multiplicam de forma incontrolável. Esses novos ricos investem no único setor da economia de Gaza ainda dinâmico, a construção civil, e sua atuação inflacionou o mercado de terrenos e de imóveis prontos.

Espremida entre os novos ricos próximos ao Hamas e a maioria miserável, que depende de ajuda humanitária para sobreviver, há uma classe média constituída por pequenos comerciantes, funcionários públicos e empresários que perderam as empresas mas especulam diariamente na modesta Bolsa palestina ou em outros centros financeiros árabes, utilizando a meia dúzia de centros de investimentos existentes em Gaza.

Também se situa na classe média uma categoria à parte na sociedade do território: os cerca de 30 mil ex-funcionários da ANP que, quando o Hamas chegou ao poder, em 2007, atenderam às recomendações do governo de Habbas, sediado em Ramallah, abandonaram seus empregos e, em troca de sua fidelidade, recebem salários integrais sem fazer nada.

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5 Comentários

Lilian em 12 de dezembro de 2010

Setti, Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=-IgpFDSdmR4 O ministro das Relações Exteriores Celso Amorim falou na Argentina, sobre o reconhecimento do Estado da Palestina com as fronteiras existentes em mil novecentos e sessenta e sete. O ministro disse que essa decisão do governo brasileiro deve contribuir para a paz no Oriente Médio. A decisão foi divulgada por meio de uma carta enviada pelo presidente Lula ao presidente da Autoridade Nacioal Palestina, Marmudi Abás, no dia primeiro de dezembro.

Newman em 11 de dezembro de 2010

Está claro pq a muitos não interessa a paz. A "causa" virou um ótimo meio de vida. Tetemunhamos o mesmo aqui no Brasil com os petistas e os parasitas de sindicato.

Antônio Simões em 11 de dezembro de 2010

É triste a situação dos palestinos meu caro Setti.Durante décadas foram e são ainda usados como bucha de canhão por radicais que detestam Israel e que têm como objetivo principal destruir o Estado Hebreu e democrático,um exemplo insuportável para os governos despóticos e autoritários da região.Israel no afã de proteger-se,infelizmente,às vezes comete erros de cálculo políticos e militares,como agora se constata com o Hamas radical e pró-Irã consolidando-se no poder depois de expulsar a antiga autoridade palestina,sua adversária política e partidária do diálogo.Enfim,o Oriente Médio,e a mescla de religião e política,dificultam imensamente o estabelecimento da paz entre árabes e hebreus...Israel e árabes deveriam ter um pouco da grandeza que Saladino na Idade Média teve ao negociar uma trégua com os cruzados,e instalou assim uma duradoura e tranqüila convivência entre muçulmanos e cristãos...( rompida logo depois pelos cruzados!)...Acho que estou sonhando Setti.Um abraço. Sonhar não paga imposto, como se diz. Torço muito para que haja um acordo, dificílimo, entre Israel e os palestinos.

jfaraujo em 11 de dezembro de 2010

As condições de vida dos palestinos realmente são chocantes, e muitos dizem ser até terrorismo de estado por parte de Israel. Porém, é fato que a Palestina, de certa forma "colheu o que plantou", pois antes deste incrível isolamento imposto pelos judeus, os árabes circulavam livremente por jerusalém, e juntos com eles os homens bomba, que se explodiam frequentemente em lugares movimentados matando, dezenas de pessoas inocentes.

Marco em 10 de dezembro de 2010

Caro R. Setti: Pois é, quando a questão é apenas de Poder e não de Estado de Direito, vira nisso. Espero q isso não acontença por aqui... Abs.

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