Artigo de 2004: O episódio do IBGE é um vexame para Lula

Artigo de 2004: O episódio do IBGE é um vexame para Lula Lula, durante seu primeiro mandato (2003-2006) (Foto: Agência Brasil)

E ainda: um ex-aliado de Fleury por trás do Burger King, os presidentes e o salário mínimo, Tevez prefere Maradona a Pelé, a exímia coordenação motora de Duhalde, bermudas no Planalto, e a “Pessoa do Ano” da revista Time

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Pode ter sido o espírito de Natal, que ameniza arestas e adoça corações. Só isso explica o fato de a oposição e mesmo a mídia terem poupado o presidente Lula no vexaminoso, quase inacreditável episódio em que ele contestou os resultados da pesquisa do IBGE segundo os quais a percentagem de adultos brasileiros abaixo do peso é muito inferior à dos que apresentam problemas de obesidade.

A frase-chave dita pelo presidente durante a festa de Natal dos funcionários do Palácio do Planalto, em mais um de seus infelizes improvisos – “A fome não é uma coisa medida em pesquisa” – mostrou que Lula não tinha a mais remota idéia da sólida, rigorosa metodologia adotada pelo IBGE. Insistindo na tecla de que as pessoas “não sentem orgulho de dizer ‘eu passo fome’” e de que se sentem envergonhadas de admitir o problema perante entrevistadores, Lula só piorou as coisas, já que nenhum técnico do IBGE perguntou a nenhum cidadão nada parecido com isso.

Pesados e medidos

Na verdade, como explicaram ao reagir com altivez técnicos envolvidos no trabalho, ninguém resolveu bater à porta dos brasileiros para dirigir-lhes a pergunta constrangedora. O que fez o IBGE foi visitar uma expressiva amostragem de 48 mil domicílios do país, cujos moradores tiveram sua vida acompanhada durante 9 dias, em média: entre outras atividades, os pesquisadores aplicaram extensos questionários, acompanharam as compras de alimentos feitas pelas famílias e mediram a altura e o peso de cada um de seus integrantes, de forma a estabelecer seu índice de massa corpórea .

Quis dar lições

O resultado – apenas 4% dos brasileiros estão abaixo do peso indicado, enquanto os padrões internacionais aceitam como adequada uma percentagem de 5%, correspondente a pessoas de constituição hereditariamente mais magra – deveria ter sido comemorado pelo presidente, pois revela que o problema da fome é menos assustador do que se imaginava.

Em vez disso, Lula – que não mencionou especificamente o IBGE – parecia desapontado por não ver correspondência entre os resultados da pesquisa e os números apocalípticos a respeito da fome que o PT sempre esgrimiu. Não satisfeito, quis dar lições sobre um assunto que ignorava por completo e quebrou a cara como poucas vezes aconteceu com um chefe de Estado.

Política e negócios

O principal acionista da grande operação no Brasil do maior competidor mundial do McDonald’s – o Burger King – é Luís Fernando Batalha.

Batalha exerceu as funções de caixa da riquíssima campanha eleitoral do então candidato a governador de São Paulo pelo PMDB Luiz Antonio Fleury Filho em 1990.

Um churrasco dos homens de Dirceu

O ministro-chefe da Casa Civil da Presidência, José Dirceu, não descuida de suas bases. Era gente que trabalhou em suas campanhas políticas no passado a maioria dos participantes do recente churrasco de confraternização que reuniu 600 pessoas na churrascaria Bovinu’s, no bairro paulistano da Barra Funda.

Só duas pessoas discursaram durante o ágape: o presidente do PT, José Genoino, e Dirceu. O discurso do ministro teve tom de entusiasmado desenvolvimentismo.

Sustentável leveza

Depois de dez dias num spa em Sorocaba, a 98 quilômetros de São Paulo, o ex-secretário de Imprensa da Presidência da República, Ricardo Kotscho, passou a exibir uma nova silhueta pré-festas de final de ano: ele emagreceu 8 quilos.

Calorias e tombo

Em compensação, Kotscho sofreu luxação num ombro quando, ao conduzir cuidadosamente para sua mesa uma das refeições miseráveis em calorias da dieta escolhida – quatro pequenas torradas cobertas com ricota magra –, tropeçou e caiu de mau jeito.

Confissão de incompetência

Exceto em entrevistas coletivas, que não concede, Lula fala demais e, volta e meia, se perde pela palavra, como ocorreu com o episódio do IBGE. Mas não deve ser outra também a interpretação de sua recente declaração de que foi “surpreendido” pela revolta de deputados e senadores de partidos aliados do governo em relação às chamadas emendas parlamentares ao Orçamento – artifício por meio do qual os políticos tentam assegurar verbas do orçamento para obras em suas áreas de influência eleitoral.

Pois o próprio Lula foi quem lembrou que o acordo sobre liberação de recursos das emendas tinha sido fechado em março – mas só em novembro, ou seja, nove meses depois, o presidente ficou sabendo que os compromissos não vinham sendo cumpridos.

Se isso não é uma admissão de incompetência do governo, o que será?

O mínimo e outros tempos

As centrais sindicais, como se sabe, não se conformam com o salário mínimo de 300 reais decretado pelo presidente Lula para vigorar a partir de 1º de maio de 2005. Querem uma fortuna a mais: 20 reais.

Já não se fazem centrais sindicais como antigamente.

Não é bem assim

Por falar no assunto, anda esquecido e confundindo os números o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, para quem os 9,3% de aumento real do mínimo decidido por Lula constituem “um percentual inédito na recente história do país”.

O presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), apesar de ter decidido por aumentos miseráveis para o mínimo em anos como 1999 (0,71% em termos reais) ou de até tê-lo feito perder valor (quase 1% abaixo da inflação em 1997), decretou um aumento de 22%  acima da inflação em seu primeiro ano de governo e auge do sucesso do Plano Real, em 1995.

Delírio e antídoto

O craque argentino Tevez, contratado pelo Corinthians por 20 milhões de dólares, mal chegou e já exibiu sintomas de um delírio muito comum em seu país. Segundo ele, Maradona era melhor do que Pelé.

Contra os sintomas dessa manifestação clínica, recomenda-se a aplicação de um antídoto infalível: fazê-lo assistir ao documentário “Pelé Eterno”, ainda em cartaz em muitos cinemas e já disponível em DVD em qualquer boa loja do ramo.

Números relevantes

De janeiro a setembro de 2004, os gastos da União com pessoal subiram 7,9% acima da inflação.

Números irrelevantes

Cabem oito pessoas na área reservada ao presidente Lula no novo avião comprado pelo governo para atender à Presidência – o Airbus Corporate Jetliner –, a ser entregue pelo fabricante europeu à Força Aérea Brasileira no mês que vem.

Duhalde e uma habilidade oculta

O cidadão que, desavisado, incursionou dias atrás por um dos banheiros masculinos do lobby do hotel Ouro Minas, em Belo Horizonte, pôde testemunhar uma habilidade até então desconhecida do ex-presidente da Argentina, Eduardo Duhalde. Também presidente do Mercosul, Duhalde estava na capital mineira para o jantar oferecido pelo governador Aécio Neves (PSDB) aos participantes da reunião de cúpula dos países-membros que se realizaria em seguida em Ouro Preto.

No banheiro do hotel, Duhalde penteava cuidadosamente a cabeleira enquanto, ao mesmo tempo, fazia xixi.

O Itamar deles

Ele falta a reuniões importantes, chegou atrasado à cúpula de Ouro Preto, reclama da morosidade do Mercosul enquanto decreta medidas que, na prática, boicotam o projeto, tem arroubos de impaciência que, depois, dão um trabalho danado à sua diplomacia – e assim por diante.

Nestor Kirchner, o presidente da Argentina, é uma espécie de Itamar do Prata.

Emprego à disposição

Por falar no ex-presidente, o governo pretende manter em aberto o cargo de embaixador do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), à disposição de Itamar Franco, até pelo menos fevereiro de 2005, mês em que o atual embaixador em Roma pretende deixar o posto.

A embaixada na OEA está vaga desde o final de setembro, quando o Itamaraty transferiu o embaixador Valter Pecly Moreira para representar o Brasil junto ao governo do Paraguai.

O problema é que Itamar já anunciou seu propósito de “ir para casa”. É possível, assim, que a embaixada na OEA, em Washington, fique cinco meses sem titular em vão.

Prometer de novo

Muito bonita e promissora a solenidade em que os chefes dos três Poderes – o presidente Lula, o senador José Sarney (PMDB-AP), presidente do Congresso, e o ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal – assinaram o pomposamente denominado Pacto de Estado em Favor de um Judiciário mais Rápido e Republicano.

Poucas coisas neste país são mais necessárias do que um Judiciário assim. O curioso, porém, é que no pacote de 11 compromissos assumidos pelos três Poderes figura o propósito de diminuir o volume de ações na Justiça das instituições públicas (leia-se o Executivo e seus braços). Como se sabe, o governo como um todo é parte em 70% das ações que assolam os tribunais superiores.

Só que essa promessa – a de reduzir drasticamente as ações em que o governo, suas autarquias e estatais apresentam recursos em tribunais com o único propósito de ganhar tempo, entupindo dessa forma os canais da Justiça para o cidadão comum e infernizando a sua vida – já havia sido solenemente feita pelo advogado-geral da União, Álvaro Augusto Ribeiro Costa, no próprio dia de sua posse, a 1º de janeiro de 2003.

Agora, Ribeiro Costa, presente à solenidade, prometeu tudo isso de novo. Vamos ver se pega.

De bermudas no Planalto

Muito ruim o precedente de o presidente Lula ter recebido líderes sindicais em seu gabinete, no Palácio do Planalto, vestidos com camisetas e bermudas. A obrigatoriedade de terno e gravada na sede do governo da República vigora no Planalto há 43 anos – tal como antes acontecia no Palácio do Catete, no Rio.

Não é coisa de somenos. É expressão de um sinal de respeito não ao cidadão Lula, mas à instituição que ele, momentaneamente, representa.

Até Hitler já foi a “Pessoa do Ano”

São fruto do desconhecimento puro e simples as ironias que vêm sendo feitas sobre a escolha do presidente americano George W. Bush como “Pessoa do Ano” pela revista “Time”.

A “Pessoa do Ano” da revista – que em tempos menos politicamente correto era o “Homem do Ano” – não é alguém que os editores de “Time” necessariamente considerem o supra-sumo das maravilhas. A escolha decorre da importância do eleito, para o bem ou para o mal. Assim, coube a Hitler o título de “Homem do Ano” em 1938, a Stalin o de 1942 e, para ficar num exemplo menos remoto, ao aiatolá Khomeini o de 1979.

A amizade Requião-MST

A ruptura política com o PT em nada parece ter alterado as ótimas relações do governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), com o MST. Como já ocorreu anteriormente, baderneiros do MST ocuparam durante dez horas consecutivas a praça de pedágio de uma rodovia sob concessão da iniciativa privada perto da cidade de Cascavel, a 500 quilômetros de Curitiba, e liberaram a passagem sem pagamento de cerca de 2.500 veículos.

Durante todo esse tempo, a Polícia Militar Rodoviária do Paraná limitou-se a observar, sem fazer nada para restabelecer a ordem, como era seu dever.

Não custa perguntar

Os manifestantes do MST protestavam contra o assassinato de cinco integrantes do movimento ocorrido em novembro no interior de Minas Gerais.

O que será que o Paraná, a rodovia privatizada e os motoristas têm com isso?

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