Não há muita gente, neste país, que entenda mais de governo e de economia que o deputado Francisco Dornelles. Na linguagem dos locutores de futebol, pode-se dizer que Dornelles sabe, porque esteve lá. O sobrinho de Tancredo Neves teve um longo reinado na Secretaria da Receita Federal, foi membro-chave das equipes de transição de dois governos militares – da gestão do general Garrastazu Médici para a do general Ernesto Geisel, e do governo deste para o do general João Figueiredo – e acabou sendo o primeiro ministro da Fazenda da Nova República. 

Pois foi o deputado Dornelles, num artigo publicado no Estado, o primeiro político de peso a, de certa forma, prever o que, às vésperas dos primeiros cem dias de mandato do presidente Fernando Collor, já está acontecendo: apesar das inegáveis e importantes conquistas deste período, não há como esconder a existência de um travo amargo de decepção entre o próprio eleitorado do presidente.

Dornelles advertia, então, sobre os perigos de se pretender transformar Collor em milagreiro – em alguém que, justamente em cem dias, iria cravar uma estaca de madeira no peito da inflação, renegociar favoravelmente a dívida externa pelo enfeitiçamento dos credores e esticar sem maiores problemas o perfil da dívida interna. En passant, Collor iria dar um jeito nos péssimos serviços que o Estado proporciona à sociedade, manter os níveis de emprego e fazer a economia voltar a disparar.

Dornelles não ignorava, como não ignora ninguém que tenha passado os olhos pelo programa de governo do presidente, que suas iniciativas de impacto – e mesmo o terremoto que foi o Plano Collor – não excluem uma estratégia de arrumação da casa que só pode funcionar de fato a médio e longo prazos. Trata-se, fundamentalmente, de transformar o peculiaríssimo capitalismo sem riscos – e muitas vezes sem capitalistas que lancem mão do próprio capital – em vigor no Brasil numa economia mais próxima da de mercado, combater privilégios dos que mamam desde tempos imemoriais no governo, emagrecer o mamute sugador em que se transformou o Estado, empreender uma reforma fiscal, abrir a economia e alterar as normas que regem as relações com os credores internacionais do País.

Dornelles sabe muito bem o cacife de que o presidente dispunha ao assumir, começando pelo Everest de votos que empilhou e pela expectativa favorável com que seu governo era recebido até por boa parte dos eleitores que, no dia 17 de dezembro, não o queriam ver encarapitado no Planalto. Mesmo assim, o deputado considerava que se deveria fazer um grande esforço para reverter a imagem segundo a qual o resultado da presença de Collor no timão do Estado apareceria em cem dias.

Ocorre, porém, que toda essa história de balanço dos primeiros cem dias – uma ideia importada, da qual nunca ninguém tomou conhecimento em governos anteriores – partiu de uma única pessoa: o próprio Collor. Foi ele quem se referiu a prazos, foi ele quem falou em derrotar a inflação com um ippon (uma situação, num combate de caratê, em que a arbitragem considera ter havido um golpe perfeito, capaz de inutilizar um adversário em situação de luta real), e assim por diante.

Não há como esconder um travo amargo de decepção entre os eleitores de Collor

Não faltou quem lembrasse ao presidente que ele trilhava terreno perigoso, num país do tudo ou nada como o Brasil. Sabemos perfeitamente que, aqui, conseguir um vice-campeonato mundial de futebol é vergonhoso e obter medalha de prata em Olimpíada é olhado com um desprezo próximo do asco.

Basta lembrar os tempos do ministro Dilson Funaro e da “inflação zero”. Para o governo do presidente José Sarney,  de que Funaro era peça-chave, pareceu muito pouco tirar o País dos índices abissais de inflação no primeiro momento do Plano Cruzado, em 1986. Considerou-se necessário também fabricar a miragem da inflação zero e, como se ela ainda não bastasse, partiu-se, simultaneamente, para a distribuição de renda e o crescimento disparado da Felicidade Nacional Bruta.

Os efeitos começaram com o boi magro que custava mais caro do que o gordo, passaram pela vitória fabricada do PMDB nas eleições de 1986 e terminaram no desastre econômico, social e político que engoliu pelo ralo uma rara chance de pôr o País nos trilhos.

Pois esse exemplo doloroso parece não ter adiantado para o caráter impetuoso do presidente Collor – e aí estará, talvez, o grande calcanhar de Aquiles destes seus cem primeiros dias. O presidente tinha todas as condições políticas de acenar com resultados, mas prometer, para o começo de sua gestão, não mais que sangue, suor e lágrimas, choro e ranger de dentes. Resolveu, porém, trilhar o caminho oposto – e a ministra Zélia Cardoso de Mello ainda ajudou, com a fixação de índice zero para as primeiras expectativas de inflação pós-Plano Collor.

Apesar de toda a feroz oposição da CUT e sua clientela, das dificuldades fisiológicas que enfrenta no Congresso, das trapalhadas jurídicas que sua equipe comete e do constante e barulhento bater de cabeças que é obrigado a reger entre seus próprios colaboradores, ainda assim o presidente teria números favoráveis a exibir à Nação, se tivesse tido postura menos voluntariosa ao assumir.

Afinal, a inflação, medida pelo próprio Dieese, órgão dos sindicatos de trabalhadores, foi sucessivamente desabando do patamar de 100% ao mês para o de 20%, e deste para o de pouco mais que 10% – e Collor poderia ter para desfraldar um retrato do processo de doma desse dragão. Como se erigiu em totem o índice zero, porém, tudo acima disso estava fadado a virar derrota de seu governo.

Não é fácil, agora, sair dessa sinuca.

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