Apartamento D, 1º andar do número 1438 da calle Lavalle, no centro de Buenos Aires, ironicamente a uma quadra do Palácio da Justiça. Ao entrar, o sobrinho do ex-agente da ditadura chilena Enrique Lautaro Arancibia Clavel encontrou o tio caído no chão, morto, com orifícios causados possivelmente por punhal no peito e nas costas. O cadáver estava rodeado de sangue seco.

A porta do apartamento, segundo a polícia, não foi forçada, o que faz supor que Arancibia, 66 anos, conhecia seu assassino. “Há componentes no caso que não têm nenhuma relação com suicídio, mas com um crime de índole passinal ou sexual”, informou um porta-voz da polícia.

Assim terminou a carreira de um importante agente da repressão da ditadura do general Augusto Pinochet no Chile (1973-1990), e também figura de proa na tristemente famosa “Operação Condor” – ação conjunta e sigilosa das ditaduras militares de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile para, em cooperação, sequestrar, torturar e assassinar opositores políticos.

Aranciba foi o principal responsável pelo atentado a bomba que matou em 1974, em Buenos Aires, o general chileno Carlos Pratts e sua mulher, Sofía Cuthbert. Pratts, militar profissional e apartidário, foi comandante-chefe do Exército, portanto superior de Pinochet, e ministro do Interior sob o governo do presidente socialista Salvador Allende (1970-1973).

Prisão perpétua comutada

O ex-agente teve longa carreira golpista. Em 1968, estava com o general Roberto Viaux Marambio, que tentou derrubar pelas armas o governo democrático do presidente democrata-cristão Eduardo Frei. Participou de ações violentas no Chile de Allende, foi processado criminalmente em 1971 mas fugiu para a Argentina com documentos falsos. Com o golpe de Pinochet, a 11 de setembro de 1973, retornou ao Chile e acabou se tornando agente da Dirección de Inteligencia Nacional, a DINA, a central de espionagem, tortura e repressão da ditadura.

Após o final da ditadura de Pinochet, em 1990, voltou a viver na Argentina, onde acabou sendo preso e condenado à prisão perpétua pelo caso Pratts e mais o sequestro e torturas de duas cidadãs chilenas. Teve sua pena comutada em 2008 e vivia como gerente de uma frota de táxis.

Tratar o crime como de fundo sexual – até amigos próximos desconheciam que Arancibia era homossexual – pode ser uma saída fácil para a polícia. O fato é que Arancibia sabia demais e seu desaparecimento pode perfeitamente ter sido o que na gíria policial se chama “queima de arquivo”.

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1 comentário

Paulo Bento Bandarra em 30 de abril de 2011

Porque você sugere "queima de arquivo" em vez de assassinato por vingança dos derrotados que viam mal a sua liberdade?

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