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Os vitoriosos Nikki e Ell, do Azerbaijão: pop americano de segunda linha

Amigos, o fato não é novo, o comentário, sim.

Resolvi assistir, dias atrás, às finais do festival de música Eurovision, um evento que se disputa há 55 anos entre países-membros da associação de emissoras de rádio e TV European Broadcasting Union e que mobiliza a mídia e multidões de fãs em dezenas de países europeus – desta vez, mais de 140 milhões de telespectadores. Um dos maiores espetáculos do gênero no mundo, se não o maior.

A disputa se dá em etapas eliminatórias, os cantores ou grupos musicais que representam os distintos países não recebem cachê – já é o suficiente, para eles, a exposição à colossal audiência europeia – e cada canção é votada pelo público, a diferentes preços conforme o país, por mensagens SMS ou chamadas a números telefônicos determinados.

Engolir até o fim o conteúdo do cálice amargo

Eu já sabia, por ter visto etapas eliminatórias de certames em anos anteriores, que a esmagadora maioria das canções era de uma mediocridade espantosa. Desta vez resolvi engolir o conteúdo do cálice amargo até o fim e assisti inteirinha pela TV à fase final, realizada na espetacular Fortuna Arena, de Düsseldorf, na Alemanha – um estádio multiuso com capacidade para 54 mil pessoas que, adaptado para o evento, abrigou 20 mil em cada uma de suas três etapas.

Tudo em clima de superprodução hollywoodiana, com toques cafonas de Las Vegas: centenas de potentes refletores, cenários multicoloridos, chuvas de metal prateado, telões do tamanho de edifícios.

Pois bem, não apenas as canções, mas também os cantores e os grupos me pareceram extremamente medíocres – e escrevo aqui não como crítico, mas como mero apreciador de música. Das 25 canções de 25 nacionalidades diferentes que disputaram a etapa final, venceu uma dupla do improvável Azerbaijão, Ell e Nikki, com “Running Scare”.

A maioria não apresentou qualquer traço cultural de seu país, optando por um pop americano de segunda

O que mais me impressionou, porém, é que a grande maioria das canções apresentadas não trazia qualquer característica cultural marcante do respectivo país, fosse da Finlândia ou da Grã-Bretanha, da Alemanha ou da Bósnia. Muitos representantes representantes de uma herança musical diversificada, variada, viva, riquíssima fizeram questão de deixá-la em casa.

O que se viu e ouviu foram em quase todos os casos clones de pop americano de segunda linha, e, com raríssimas exceções, cantado em inglês.

Da maçaroca cultural inodora, incolor e insípida, só me chamaram a atenção a boa voz do francês Amaury Vassili – que, no entanto, cantou no idioma corso –, da eslovena Maja Kenc e da húngara Kati Wolf, além da pegada jazzística do italiano Raphael Gualazzi.

Cerca de 200 mil visitantes e nada menos do que 2.200 jornalistas acorreram a Düsseldorf – o que me pareceu próximo do inacreditável para evento tão pobre.

Se o Eurovision é um retrato do que se faz em matéria de música pop na Europa, estamos diante de uma enorme retrocesso cultural.

Você pode encontrar muitas informações adicionais sobre o Eurovision no site oficial. E assistir à apresentação da canção vencedora,  “Running Scared”, no vídeo abaixo.

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9 Comentários

Bruno em 11 de maio de 2014

Não publico comentários depreciativos, e sem qualquer fundamentação, sobre VEJA.

Felipe em 21 de abril de 2014

Dizer que o Eurovision é apenas uma fábrica de coisas hollywoodianas chega a ser ridículo. Desde 2007 que venho acompanhando o Eurovision e o que mais vi foram músicas exóticas dos mais diferentes países, muitas carregada com a cultura dos mesmos. Um exemplo que chegou a me emocionar foi a vencedora de 2007 da Sérvia, com a música Molitva totalmente em servo-croata (e eu não vi nada de americanizado nela).

Luiz em 01 de julho de 2011

Complementando meu post anterior, vale ressaltar que Sérvia, Israel, Bulgária, Macedônia e Chipre também cantaram nos seus idiomas nativos. A cantora de Israel, inclusive, é um dos transexuais mais bem sucedidos do mundo e ícone no seu país. Acho que não devemos impor o que é bom ou ruim. Você falou da parte ruim do Eurovision, se pegar as últimas 5 edições do concurso você vai encontrar mais músicas de qualidade do que foram produzidas aqui no Brasil no mesmo período. E ah, é bom deixar claro que Eurovision não é um concurso folclórico. É de música.

Barbosa Ribeiro em 01 de julho de 2011

Mas será que ninguém pode fazer música pop animada que é cópia dos EUA? Só os eatadunidenses sabem fazer música de qualidade? Quanta ignorância! Ouça as canções das edições anteriores do festival para ver a diversidade musical do evento.

Luiz em 30 de junho de 2011

Polônia cantou em polonês, Espanha em espanhol, Portugal em português, Reino Unido em inglês, Grécia em grego, Itália em italiano, etc. Geórgia, Turquia, Moldávia, Itália, Albânia e vários outros países NÃO MANDARAM POP. Suas críticas são um pouco infundadas. Você não chegou nem perto de citar a grande cantora da Lituânia (Evelina Sasenko) e nem as belíssimas canções da Suíça e da Áustria. Você não comentou como se deu a seleção dos Sjonni's Friends pra representar a Islândia. Sua análise está bem superficial, há músicas de praticamente todos os estilos no Eurovision, cada edição é diferente.

Carlos da Costa Aguiar em 24 de maio de 2011

O ABBA foi descoberto nos anos 70 apos vencer uma edição do Eurovisão com ... pop americano (o da época, lógico) ! Isso quer dizer que ha quarenta anos já estavam atrasados.

sinisorsa em 24 de maio de 2011

"O que mais me impressionou, porém, é que nenhuma das canções apresentadas – repito, amigos, nenhuma, nem uma única – trazia qualquer característica cultural marcante do respectivo país..." Prezado, você ouviu os temas da Grécia, Espanha, Chipre, Macedonia, Albânia (versão original em albanês)? Ouvi, sim. Você está me ajudando a relativizar o texto. Você tem razão, caro amigo. E agradeço por isso. Vou lá mexer no post, graças a você. Abraços

Roger em 23 de maio de 2011

Nossa senhora, acabei de ver o de Portugal. Eles estão só uns 50 anos atrasados.

Uzar Perches em 23 de maio de 2011

Bem, já que você informa a mediocridade das apresentações, fica claro por que "a disputa se dá em tapas eliminatórias". Os péssímos concorrentes são eliminados na base de cachações e bofetadas, sendo poupados os menos piores. Hahaha Obrigado pela atenção e pelo bom humor, caro Uzar. Abraços

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