Artigo de 2002: O foco da demonização dos sapos barbudos

Artigo de 2002: O foco da demonização dos sapos barbudos Lula e colegas petistas no 1º Foro de São Paulo, em 1990 (Reprodução: You Tube)

E mais:  o ninho dos burocratas, repaginando um velho parceiro de Quércia, Genoíno e o Ministério da Defesa, Lula livre para se equivocar o quanto quiser, errata sobre governadores, Mantega linha dura e “mordomias” questionáveis aos diretores do Banco do Brasil

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O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva flerta com o mercado, tem apoio de empresários e é elogiado pelo FMI e pelo Banco Mundial. Mas ele e seu partido, o PT, permanecem sendo uma pedra no sapato da chamada “direita religiosa” americana. Boa parte da demonização de Lula e do PT ainda praticada por esse influente setor – aquela história de um “Eixo do Mal” contra os Estados Unidos na América Latina envolvendo a Cuba do ditador Fidel Castro, a Venezuela do presidente-coronel Hugo Chávez e o Brasil dos sapos barbudos – deve-se a uma atividade de tempos mais juvenis do PT: sua participação numa entidade chamada Foro São Paulo.

O processo é visível não apenas em jornais ultraconservadores como The Washington Times – de propriedade da seita do reverendo Moon –, mas, via a opinião de alguns de seus representantes, chegou até a freqüentar artigos do conservador mas responsável Financial Times de Londres. E, fatalmente, atingiu as franjas da administração do presidente George W. Bush nos Estados Unidos, fortemente influenciada pela direita religiosa.

Fundado em 1990, em São Paulo – daí o nome –, o Foro é uma espécie de “espaço de discussão” de partidos e organizações de esquerda, que uma vez por ano se reúnem e lançam uma declaração, quase sempre esquentada. Pelo menos a parte visível da entidade não passa muito disso. O PT foi aos poucos minimizando a importância de sua presença no Foro e, dentro dele, está mais próximo de um grupo de partidos socialistas que incluem o moderado PS do presidente do Chile, Ricardo Lagos. Tem gente graúda do partido de Lula que nem sabe direito o que é o Foro.

O problema é que são membros do Foro, entre outras organizações, as chamadas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o chamado Exército de Libertação Nacional (ELN), também colombiano, entidades que o governo dos Estados Unidos considera terroristas. Não por acaso. As Farc e o ELN, como se sabe, deixaram há muito de ter qualquer coisa de revolucionária no sentido romântico dos anos 60 – o de recorrer às armas como último recurso para a transformação social e a derrocada do totalitarismo e da injustiça.

Na verdade, são ambos tropas armadas criminosas e bárbaras, que combatem um governo eleito democraticamente, vivem à custa do narcotráfico e da indústria dos seqüestros, categoria na qual a Colômbia é campeã mundial, praticam atentados contra alvos inocentes e transformaram a vida do povo colombiano num inferno.

Diante da considerável influência da direita religiosa na administração Bush, e do fato de que o PT já cometeu o erro de se “solidarizar” com as Farc no âmbito do Foro São Paulo, não tenham dúvidas: por trás do frontal veto americano à compra, pela Colômbia, de até 40 aviões de ataque leves EMB 314 Super Tucano da Embraer – empresa que Lula defende e que visitou durante a campanha eleitoral –, há certamente um gesto de desagrado para com a proximidade que os americanos enxergam entre o PT do presidente eleito e as Farc.

O ninho dos burocratas

Dica  para ministeriáveis eventualmente desavisados de avanços ocorridos no serviço público brasileiro: o caminho (inicial) das pedras é o site www.siorg.redegoverno.gov.br. Trata-se do Sistema de Informações Organizacionais do Governo Federal, um nome pomposo que esconde todos os cargos disponíveis no governo federal, área por área, ministério por ministério. Civilizado e transparente, é coisa de Primeiro Mundo. Os interessados encontram lá desde os nomes dos atuais ministros até, digamos, quem é o cônsul do Brasil no Djibuti. Tudo com nome, sobrenome e – pasmem, internautas – indicação do valor dos salários.

Em geral, baixos.

O exemplo do chefe

O empresário José Lopes, de Campinas (SP), o célebre “Zé Português” que, no trato com empreiteiros, foi eminência parda de Orestes Quércia enquanto governador de São Paulo (1987-1991), parece seguir os passos do chefe e sócio: está com o rosto lustroso, depois de uma cirurgia plástica, e a cabeleira branca deu lugar a cabelos acajuados, cortados num estilo quase-ronaldinho.

Genoino na Defesa é difícil

O deputado José Genoino, candidato derrotado do PT ao governo de São Paulo com excelente performance, é, como se sabe, nome fortemente cotado para o Ministério da Defesa do presidente Lula. Antigo defensor da idéia de criação do Ministério e de seu comando por um civil – tal qual foi implantado no governo FHC –, Genoino, no Congresso desde 1983, começou a cultivar laços com militares da ativa ainda na Constituinte (1987-1988), quando estabeleceu boas relações com os assessores parlamentares, todos eles oficiais da ativa, dos então ministérios militares – Marinha, Exército, Aeronáutica e Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA).

Portador de uma medalha do Mérito Naval, esse ex-funcionário da IBM no Ceará há 32 anos radicado em São Paulo tornou-se, com o tempo, um palestrante habitual tanto na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme) quanto em sua correspondente da Marinha, a Escola de Comando Naval. Em Brasília, manteve durante anos o hábito de tomar periodicamente o café da manhã com o ex-ministro da Marinha Mário César Flores, um respeitado estrategista e pensador militar.

Mesmo assim, especialistas em assuntos estratégicos da área acadêmica acham muito, muito difícil Genoino assumir o Ministério da Defesa. Ex-guerrilheiro do PC do B na região do Araguaia, no sul do Pará, durante a ditadura militar, Genoino não chegou a participar diretamente de combates e cumpriu cinco anos de cadeia por seu envolvimento na luta armada. Mas – lembram esses especialistas – quem os guerrilheiros enfrentaram, no Pará, foi o Exército. Mesmo com o país há 18 anos vivendo sob democracia plena, e decorridos os oito anos exemplares de estabilidade institucional representados pela era FHC, o presidente Lula deve optar por não cutucar a cicatriz daqueles anos.

 Lula pode errar, sim

Conselho do governador reeleito de Alagoas, Ronaldo Lessa (PSB), que faz parte do esquema de apoio ao presidente Lula:

– O Lula tem dito que não tem o direito de errar. Ele não deveria dizer isso. Ele pode, sim, errar, como todo mundo. Só deveria dizer que pretende errar menos.

Clube dos Três

A coluna errou tanto ao mencionar, em duas edições diferentes, o exclusivo Clube dos Três – integrado por políticos que conseguiram três mandatos de governador de Estado pela via das urnas – que é obrigada, agora, a ajoelhar no milho e contar toda a história de novo, e corretamente.

Com sua apertadíssima vitória sobre Geraldo Magela, do PT, Joaquim Roriz (PMDB-DF) passou a membro do clube. Vai juntar-se a seus quatro únicos sócios até agora – Gilberto Mestrinho (PMDB-AM), Miguel Arraes (PSB-PE), Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Leonel Brizola (PDT-RJ) – que, como se sabe, tem dois governos no Rio e um no Rio Grande do Sul.

O senador eleito Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que por erro a coluna, em edição anterior, incluiu no clube, é na verdade um bi-governador, já que o primeiro de seus três mandatos foi biônico, como corretamente apontou ao signatário o escritor Fernando Morais. O também senador eleito Tasso Jereissati foi injustamente omitido da lista, na mesma edição anterior, conforme lembra o internauta Rodrigo Dorea.

Ficou perto de integrar o Clube o governador Esperidião Amin (PPB-SC), derrotado que foi por pequena margem pelo ex-prefeito de Joinville Luiz Henrique da Silveira (PMDB). Perdeu a oportunidade de ser tetra o atual senador Gilberto Mestrinho, derrotado ainda no primeiro turno pelo ex-prefeito de Manaus Eduardo Braga (PPS).

Conforme já registrado anteriormente, o atento internauta gaúcho Marcelo Soares lembrou que o recordista nessa matéria foi o velho caudilho Borges de Medeiros, cinco vezes governador do Rio Grande do Sul. Mas, como notou o próprio Soares, a marca não vale, porque as eleições da República Velha eram um festival de fraudes e outras maracutaias.

Cavalo da chuva

Podem ir tirando o cavalo da chuva os não poucos setores – como dirigentes da Força Sindical – que sonham com indexação de salários à inflação no governo Lula.

O principal assessor econômico do presidente eleito, Guido Mantega, professor da Fundação Getúlio Vargas, estima que 30% da economia brasileira pós-Plano Real ainda esteja indexada. E defende, às claras:

– Precisamos baixar esse índice.

Mordomia duvidosa

É risível a versão difundida por adversários do governo e por órgãos da mídia segundo a qual o aumento de 12 para 24 meses do prazo de quarentena remunerada para diretores do Banco do Brasil faria parte de uma “distribuição de privilégios” que o presidente Fernando Henrique estaria promovendo às vésperas de deixar o governo.

Mesmo se esquecermos que o aumento do prazo consta da reforma dos estatutos do BB, e não decorre de uma medida do Palácio do Planalto, os salários de 13 a 20 mil reais que os diretores continuarão ganhando do governo sem trabalhar, caso sejam substituídos no governo Lula, são – proporcionalmente ao mercado – mais uma punição do que uma mordomia.

Os bancos privados, onde potencialmente um ex-diretor do BB teria acolhida, pagam muito mais para seus diretores e têm uma política extremamente agressiva de remuneração variável. Não poucos diretores de banco em São Paulo embolsam fácil, como remuneração anual, o equivalente a 100 mil reais por mês.

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