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Cruyff: genial como jogador, técnico e, hoje, inspirador do maior time do mundo, o Barcelona (Foto Claudio Versiani)

O maior time de futebol do mundo da atualidade, o Barcelona, recebeu por anos a fio a magia de seu jogo quase incomparável — para mim, só Pelé o superou — e, depois, sua genialidade também como treinador. A herança do grande Johan Cruyff, todos reconhecem, ficou. É ele o grande inspirador do futebol-espetáculo ganhador do Barça, que herdou muito da espetacular “Laranja Mecânica”, o supertime da Holanda que encantou o mundo na Copa de 1974, na Alemanha.

A serviço da excelente Revista ESPN, o jornalista Daniel Setti entrevistou esse gênio para a edição de janeiro. E sendo, além de um ótimo jornalista, também meu filho, resolveu fazer uma surpresa ao pai: comprou uma camisa oficial da seleção da Holanda e, ao final da entrevista, explicou a Cruyff minha admiração de décadas pelo craque, pelo treinador e pelo cidadão que ele é, e solicitou-lhe uma dedicatória. Cruyff gentilmente topou (veja na foto abaixo) e, no Natal, recebi do filho de presente-surpresa a camiseta, com os dizeres estampados em tamanho grande na frente: “Para Ricardo, Johan Cruyff”.

Leiam a entrevista, que vale a pena. Uma lição para nossos jogadores, técnicos e cartolas.

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Cruyff com Daniel, autografando a camiseta… para mim

O senhor grisalho de 63 anos que cumprimenta a reportagem, rosto queimado de sol e rabiscado por sadias rugas, tem cadeira cativa ao lado de Pelé, Garrincha, Di Stefano e Maradona no camarote sagrado de imortais do futebol. Mesmo assim seus belos olhos azuis, que nesta fria e ensolarada manhã outonal de Barcelona combinam com uma camisa da mesma cor e um moderno casaco lilás, preferem transmitir respeito e seriedade a afetação e arrogância.

Ainda que seja rico, famoso e venerado desde que, há quatro décadas, revolucionou o futebol dentro de campo – com dribles, movimentação imprevisível e gols – e fora dele (foi o primeiro jogador a ter patrocínio individual, da marca Puma), anda literalmente com os pés no chão.

São suas próprias pernas que o levam diariamente de sua casa ao charmoso casarão-sede da fundação que tem seu nome, ambos no elegante bairro de Bonanova, na zona norte da cidade catalã. Pendurou as chuteiras há 26 anos, levando consigo 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais, e aposentou a prancheta de treinador há 14 (acumulando outros 14 troféus), mas suas opiniões a respeito do mundo da bola têm cada vez mais peso.

Não só pela agudeza e pela firmeza de suas ideias – expostas nos artigos que escreve no jornal catalão El Periódico –, mas principalmente por suas iniciativas em prol da educação e do estímulo ao esporte. Este senhor grisalho, um holandês que se recusa a se acomodar nos mimos da idolatria e rejeita o senso comum, chama-se Johan Cruyff.

O responsável pela eternização da camisa 14 é sinônimo de futebol moderno em qualquer capítulo de sua biografia. Como jogador, nos primeiros anos colocou a Holanda no mapa ao ganhar incríveis três Copas dos Campeões da Europa (hoje Champions League) seguidas com o então pouco expressivo Ajax (1971, 72 e 73) para depois encabeçar a Laranja Mecânica, mitológica seleção de seu país na Copa de 1974.

(Veja no vídeo abaixo uma sucessão de lances de Cruyff com a famosa camisa 14, que virou sua marca:)

Contratado pelo Barça em 1973, enlouqueceu os torcedores culés com não apenas seu jogo, mas também seu atrevimento – desafiava árbitros e policiais – e sua rebeldia (fumava e usava cabelo comprido). Identificou-se a tal ponto com as culturas barcelonesa e barcelonista que até hoje vive na cidade, fala espanhol com sotaque catalão (exagerando o som do “l”), viu o caçula de seus três filhos vestir o manto azul-grená (Jordi, hoje atuando em Malta) e apenas recentemente deixou de ser presidente de honra do clube por desavenças políticas com o novo presidente, Sandro Rosell.

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Cruyff: 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais

Após passagem pelo futebol norte-americano e um retorno à Holanda, voltaria ao Camp Nou para fazer história como técnico dodream team do Barcelona no início dos anos 1990, enquadrando gênios indomáveis como Romário e Stoichkov e faturando quatro campeonatos espanhois consecutivos e a primeira das três copas europeias ostentadas hoje pela equipe.

“Cruyff deixou no Barcelona um testamento ideológico, trabalhado sobre o gosto futebolístico do espectador, a quem ele educou”, disse recentemente o argentino Jorge Valdano, diretor de esportes do maior rival do Barcelona, o Real Madrid. “A ponto de que hoje é impossível triunfar no Barcelona sem jogar bem o futebol. Em Barcelona, ele é como o Oráculo”, conclui.

Valdano não poderia ter sido mais preciso. O que Johan Cruyff fez em suas passagens pelo clube catalão como jogador (1973-1978) e técnico (1988-1996) reverbera indiretamente, por exemplo, na impressionante performance do Barça de Messi na humilhante goleada sobre os merengues por 5 a 0 quatro dias após esta entrevista.

Não fosse a propagação das convicções imutáveis de “El Flaco” (“O Magro”) de que o futebol deve ser jogado sempre de maneira ofensiva e artística, provavelmente o atual melhor time do mundo, comandado desde 2008 por seu pupilo Pep Guardiola, não existiria. O próprio técnico disse após a goleada que boa parte da “culpa” por seu Barça é e seu mestre. Algo aparentado com a definição de Cruyff sobre os futebolistas: “O jogador é uma espécie de artista, e o público tem de se divertir”.

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Cruyff atuando como treinador do Barcelona

“O Barcelona definiu seu estilo de jogo desde que Cruyff se converteu em seu treinador, e este estilo ofensivo encantou a torcida e mudou a própria filosofia do clube, que desde então sempre procura respeitar este direcionamento”, teoriza o jornalista espanhol Jorge Ruiz Esteve. “E como jogador, Cruyff foi um símbolo, porque era um jovem europeu moderno, que tinha cabelo comprido e andava com uma mulher de minissaia em plena ditadura franquista espanhola”, ressalta o historiador do Barça Carles Santacana Torres.

Neste encontro exclusivo com a ESPN, na sala de estar de sua fundação, o astro repassou todas as fases de sua trajetória, falou sobre sua relação com Romário, elegeu a nova Laranja Mecânica e criticou a retranca de Brasil e Holanda em 2010. “O time que trai seu estilo de jogo não pode obter sucesso”. Com vocês, Johan Cruyff.

O senhor transformou-se em sinônimo de futebol moderno e ofensivo. Qual é a origem dessa definição?

Começou há muitos anos e não teve a ver só comigo, mas também com o Ajax dos anos 70. Na Holanda eles são muito exigentes, e as pessoas que vão ao estádio querem curtir. Tudo aconteceu muito rápido. Em 1964, 65 eu era apenas o segundo jogador profissional, tínhamos muitas limitações. E em 1969 já jogamos a final da Copa da Europa com o Ajax [perdeu a decisão para o Milan, em Madri]. Em três ou quatro anos houve enormes mudanças. Era algo totalmente diferente. Por exemplo, os zagueiros não se conformavam em apenas defender, também queriam atacar. O futebol que jogávamos era o de que todo mundo gostava e de que até hoje, 30 e tantos anos mais tarde, ainda gosta. E é praticado por times como o Barcelona.

Como treinador, quem foi ou é o “novo Cruyff”?

Bom, agora o mais conhecido é o Guardiola. Porque tem a mesma filosofia e administra com sucesso o mesmo problema que tinha como jogador. Era um volante defensor assim [faz um sinal com um dedo indicando a magreza de Guardiola], mas quando tinha a posse de bola, podia ser muito bom. E o Barcelona de agora é um exemplo a ser seguido na mesma linha, porque o Xavi é baixinho, o Iniesta é baixinho e o Busquets é alto, mas também é assim [faz o mesmo gesto com o dedo].

O que um técnico tem de trabalhar em um jogador “assim”?

Em primeiro lugar, a técnica e a qualidade. Então a bola tem de ser sua amiga, mas muitas vezes ela é sua inimiga, porque está em todas as partes. Isso é importante. E, digo outra vez, você está jogando para o público, e o público paga. É uma espécie de artista, e as pessoas têm de se divertir.

Mas futebol é só diversão?

Bom, como se trata de um esporte – e isso é o principal problema que enfrentam os dirigentes –, temos um negócio nas mãos, um negócio em que colocamos emoções, portanto muito difícil de administrar. Por isso você tem que conhecê-lo bem de dentro. Se você não o viveu, é muito difícil saber administrar bem. Passei por todas as etapas para conhecer todos esses detalhes com destaque. Por exemplo, nos Estados Unidos [NR: Cruyff jogou no país entre os anos 1978 e 1982, passando por três equipes], o marketing esportivo estava muito mais à frente que no resto do mundo. E ali se podia aprender a respeito do que é o negócio do futebol. É uma questão de educação. Nos Estados Unidos você vai para a Universidade por fazer esporte, enquanto na Europa ou na América do Sul, estudar e praticar esportes ao mesmo não é possível. É o maior absurdo que há. Com nossas organizações, estivemos em São Paulo. Os números são chocantes. Por exemplo, entre 80 jogadores que já haviam participado de alguma Copa do Mundo, cerca de 15, ou seja 20%, se encontravam abaixo da linha de pobreza! E estou falando do país do mais alto nível [futebolístico]. É um desastre total, não só para o jogador, mas para qualquer criança que o tenha como um herói e o veja caindo.

No Brasil os jogadores planejam ganhar todo o dinheiro que possam enquanto estão em atividade, a chamada “independência financeira”, porque acreditam que não têm como garantir o que vem depois…

Se você não tem inteligência por não ter sido educado… ou melhor dizendo, se você não está acostumado a viver fora do futebol, é muito difícil. Porque o futebol é uma vida irreal: todos os dias você está em um jornal; todos querem saber sobre a sua vida; e você não sabe nada, sabe só jogar futebol. Mas a carreira termina quando você tem 35 anos. O que fará depois? Não há nenhum clube que se preocupe com isso. É um desastre pela simples razão de que o futebol no mundo, sobretudo no Brasil, é um aspecto importantíssimo da vida. Eu estive lá e vi todo mundo correndo, fazendo exercícios, praticando esportes. E deixam cair todos os seus heróis!

Qual é o perfil dos alunos de seu instituto? Ex-jogadores?

Ex-esportistas, não só do mundo do futebol. Os ex-jogadores são os mais difíceis, ganham muito dinheiro. Sobretudo para esses a necessidade de saber algo é importantíssima. Sempre você pode gastar dinheiro para viver bem, mas jogar dinheiro fora é absurdo.

Que lembranças o senhor tem da partida em que a Holanda eliminou o Brasil na Copa de 1974 por 2 x 0?

Muito boas porque ganhamos [risos]! Não, é que jogamos muito bem aquele mundial. Foi mais ou menos a consolidação do futebol holandês. Ainda se assistia pouco ao futebol de clubes porque haviam menos aparelhos de TV. As pessoas conheciam muito pouco a nossa seleção, foi a revolução total. Já estávamos jogando daquela maneira havia quatro ou cinco anos.

Mas e como foi chegar para enfrentar a então tri-campeã mundial, mesmo com essa bagagem de vários anos de futebol bem jogado?

O Brasil naquela época estava mudando. Quer dizer, nos anos 50 e 60 mandavam os peloteros (NR: expressão espanhola para jogadores habilidosos), e em 1974 dominava a força. Havia uma grande diferença com a gente, que íamos na direção contrária à força, fomos com a técnica. Técnica e inteligência.

Não chegou nem a ser um jogo difícil?

Bom, era o Brasil. Mas nós éramos muito melhores futebolisticamente, éramos o que eles haviam sido antes. Eles passavam por uma mudança de mentalidade, indo mais para o lado físico. É preciso ter em conta que, quando você tem sucesso, há muitos outros garotos te assistindo, e eles sempre pensam que podem fazer melhor do que você.

Na opinião do senhor, existiu ou existe algum time ou seleção com estilo de jogo parecido ao da Laranja Mecânica?

Agora o Barcelona é mais ou menos assim. Sempre com a combinação entre jogar bem, dar espetáculo e ganhar. Muitas vezes uma ou duas dessas três fases falha.

O senhor foi técnico do Pep Guardiola, que é agora o comandante deste super Barça. Como era ele quando começou a ser jogador?

Ele era mais ou menos como todos os meninos que são pequeninos e jogam bola na rua. E se você é assim, se não tiver habilidade, quando chegam os maiores, você cai. E como se evita isso? Com controle, movimentos e ações e visão mais rápidos do que o resto. O Guardiola tinha muito pouco físico, então para jogar bem e não ser fisicamente forte, há que ter muita inteligência. E assim, com inteligência e visão de jogo, você pode conseguir mais. Ele mandava em campo, e se você manda em campo, quando é jogador, a lógica é que você possa fazer isso quando treinador.

A Holanda de 2010 traiu a tradição “joga bonito” do futebol do país?

Sim, sim. Foi mais ou menos como o Brasil de 1974. Se faltava a técnica, eles iam dar [pancadas]. Isso aconteceu com o Brasil daquela Copa, eles não conseguiam, então deram.

O senhor chegou a dizer que não pagaria ingresso para ver a Seleção do Dunga. O Brasil merecia ganhar o jogo das quartas-de-final contra a Holanda, nesta última Copa?

Nesta Copa? Podia ganhar qualquer um dos dois, mas o que foi mais decepcionante é que ambos traíram o seu jogo. E não tem sentido.

Então se uma equipe trai o seu estilo de jogo tradicional…

[Interrompe a pergunta] Nunca pode obter sucesso.

Mas o Brasil fez isso em 1994. Ganhou com um futebol muito diferente ao que normalmente se identifica como “estilo brasileiro”. Este triunfo tem menos valor?

Sim, tem menos valor. Porque ganhar, a cada quatro anos alguém ganha. Mas é a memória a que fica. Eu não sei, por exemplo, quem ganhou em 1960 e não sei quanto, 1966, ou 1970 e tanto. Eu não me lembro. O que eu me lembro é que o Brasil havia ganho em 1958. Porque tinha uma quantidade de jogadores tão bons que a gente via e dizia ostras! [NR: expressão espanhola para “caramba!” ou outra interjeição semelhante]. O mesmo [com a Holanda, que não venceu] em 1974. Ainda agora, 36 anos mais tarde, se fala disso. E a partir dali, muitos outros ganharam, mas de quem se lembram?

Muitos ex-astros do futebol como o senhor, quando se aposentam, se abstêm de uma visão mais crítica não apenas sobre o futebol, mas também com relação a outros assuntos. Por que o senhor acha que acontece isso?

Acho que é consequência do sistema existente. Em minha maneira de pensar, [por trás do jogador] há uma pessoa. E esta pessoa tem que ser educada em três níveis: a técnica de futebol propriamente dita, o caráter e a inteligência. Se falta um desses elementos – e normalmente, em linhas gerais, nenhum clube ou federação de nenhum esporte não faz nada por caráter ou inteligência – automaticamente, do que esse esportista vai viver depois? Ele vai a um programa de TV e não sabe falar direito… Se você educar bem os jogadores – e a administração esportiva tem muitos ofícios diferentes – eles podem vir a ser minimamente eficientes [depois de encerrada a carreira].

E nem depois de tanto tempo os clubes têm percebido isso?

Agora é o momento em que estão começando a se dar conta. Mas ainda dá para contar nos dedos de uma mão. E isso inclui o trabalho de base. O Barcelona, por exemplo, pode comprar só um ou dois jogadores por ano, porque revela não sei quantos do futebol de base. Por isso há sete ou oito da seleção da Espanha que são do Barcelona, era assim com o Ajax e seleção holandesa também. Se não for assim, nunca há dinheiro. Mas muita gente não pensa assim.

E o Real Madrid das duas últimas temporadas é um exemplo disso, ou seja, de que não necessariamente se arruma a casa gastando centenas de milhões de euros?

Sim, você pode conseguir as coisas a curto prazo, mas o futebol é inteligência e qualidade, mas também um pouco de amor. Se não, só o dinheiro não funciona.

E por falar em Barça, como é o seu relacionamento com o clube após a eleição do novo presidente, Sandro Rosell? Vocês sempre tiveram muitas divergências…

Bom, agora há pouca relação, porque não estou muito de acordo com as coisas que eles fazem. Cada um com a sua opinião. Eles vivem a vida deles, eu vivo a minha.

Uma das primeiras medidas que Rosell tomou como presidente do Barcelona foi colocar seu título de presidente de honra do clube para votação entre os sócios, decisão à qual o senhor reagiu com a devolução do cargo. Por quê?

Bom, eu devolvi porque se você tem um título de honra, tem que ser dado por inteiro. Não sei se houve razões políticas, mas também isso não me preocupa.

O presidente anterior, Joan Laporta, de cujo conselho administrativo o senhor participava, tem sido muito criticado por ter pego carona em seu sucesso no Barça para lançar-se como político [no final de novembro foi eleito deputado na Catalunha]. O que o senhor acha dessa atitude dele?

Eu não tenho nada com a política. Cada um tem que procurar o seu caminho e o que quer fazer, é problema dele. Eu só penso assim: se você vai ao colégio e recebe uma nota 8, está contente com o resultado, mas fez algo 20% errado. É algo típico daqui [da Espanha] não estar contentes com este 80%. É impossível trabalhar e fazer tudo bem. Depende de como você vê. Para mim, um aluno com nota 8 é um aluno perfeito.

Desde fora, como o senhor analisa as diferenças entre a gestão do Joan Laporta, vencedora mas polêmica, e a do Rosell?

É muito difícil. Mas o que impressiona é que esta administração [atual]celebra os títulos do ano passado, que foram seis, e ao mesmo tempo julga o presidente que conquistou todos. É totalmente louco isso. Com certeza, quando você trabalha você comete muitas falhas, talvez algumas delas grandes, mas também não posso opinar porque não estou tanto lá dentro. Há coisas que merecem respeito por um lado, e por outro lado são ruins. Há muitas coisas que creio que poderiam melhorar muito.

Como por exemplo o quê?

Um dos melhores jogadores do mundo hoje em dia é o Messi, mas ele não fala inglês. Não pode falar com a metade do mundo. Por que não ensiná-lo?

Falando em idiomas, as alas mais radicais do barcelonismo não gostam muito do fato de o senhor, mesmo com a enorme identificação que possui com o Barça e a Catalunha, preferir o espanhol ao catalão para responder as perguntas em entrevistas [Cruyff usa o espanhol mesmo quando as perguntas lhe são inteiramente dirigidas em catalão]

Sim, mas eu sou um cara do mundo. Falo inglês, falo holandês, entendo catalão, alemão. Por que tenho que me fechar? Eu quero abrir, ao invés de fechar. Há que ter mais visão. Isso não é política, mas é uma maneira de ver. Eu vejo a vida mais ampla, não fechada.

Especula-se muito sobre a sua relação com o Romário, quando o senhor foi o técnico dele no Barcelona na época do chamado Dream Team. Como era a sua convivência com ele?

Muito boa. Muito boa.

Ele costumava dizer do respeito que tinha pelo senhor, coisa que não fez por muita gente.

Tínhamos uma relação muito aberta, muito boa. E além disso palavra era palavra. Ele nunca me mentiu, e eu nunca menti a ele. E eu acho que ele era um grandíssimo jogador, um dos melhores que havia. Agora há pouco estávamos falando do Messi; pois o Romário era um tipo de Messi. Sem nenhuma dúvida.

Existe uma lenda sobre ele ter negociado com o senhor uma ida ao Brasil de folga em troca de marcar gols no clássico Barcelona x Real Madrid. Segundo se conta nos bastidores ele teria prometido os três gols que acabaria fazendo na vitória culé por 5 x 0. É verdade?

Claro! O trato era assim: a nós nos interessa ganhar, e se você quer três dias de folga, para mim dá na mesma. O número de gols que você marque, pode tirar o equivalente em dias de folga.

Mas existiam acordos parecidos com outros jogadores?

Depende. Se tivesse ocasião, claro. Sempre falei com os jogadores, eram todos bons. E fazíamos acordos, o jogador poderia ter alguma vantagem, se os cumprissem.

Outro boato envolvendo o seu nome com outro astro brasileiro é o que o senhor teria desaconselhado a Laporta a contratação do Ronaldinho. É verdade?

Não é verdade, não é verdade. Ele era um grandíssimo jogador, com pouca disciplina e muita qualidade, e que também ainda não havia feito nada. O que havia feito até então ? [NR: o ano era 2003, e Ronaldinho já fora campeão do mundo com o Brasil no ano anterior]. Portanto, não havia porque estar contra ou a favor. E na época o técnico para cuidar disso, o Rijkaard, era muito bom em relacionamentos, além da parte futebolística.

Quando o senhor era técnico, era difícil administrar este lado de relacionamento entre os jogadores?

Não, não. As coisas eram bastante claras. Cada um tinha a sua qualidade, e se esperava que cada um exercesse essas qualidades. Então se algum se desviava, de alguma maneira, não jogava. As coisas são bastante simples, se você sabe como vê-las.

O Romário nunca gostou de treinar.

Mas depende de que tipo de treinamentos. Nunca tivemos problemas porque se você diz “odeio correr”, não te coloco para correr. Mas podia colocar para fazer outras coisas.

O Romário foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com quase 150 mil votos. O que acha dessa nova empreitada dele?

Eu falei com ele. É muito bom ele querer ajudar a tantas outras pessoas, mas me preocupa se não der certo. Pode ser ruim para a sua imagem.

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